Corremos o risco de perder o emprego para os robôs?

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Por Rob Lever – da AFP – Os avanços tecnológicos vêm revolucionando há algum tempo o mundo do trabalho, enquanto o desenvolvimento da inteligência artificial geram temores de que as máquinas substituam um número cada vez maior de trabalhadores, inclusive os que têm empregos qualificados.

Não faltam exemplos: os automóveis autônomos, que poderiam eliminar os taxistas e caminhoneiros; os algoritmos, que desempenham um papel crescente no jornalismo; os robôs que oferecem informações a clientes em shoppings; as cirurgias robóticas e o uso da inteligência artificial para detectar e reparar tumores cancerosos ou anomalias cardíacas.

Um estudo de 2013 da Universidade de Oxford analisou 700 profissões nos Estados Unidos e concluiu que 47% tinham alto risco de se tornar ofícios automatizados.

Um estudo do Instituto McKinsey divulgado este ano ofereceu uma visão similar, dizendo que “cerca de metade” das atividades da força de trabalho mundial “poderia ser automatizada pela adaptação de tecnologias atuais demonstradas”.

O McKinsey considerou, no entanto, que só 5% dos empregos poderiam “ser totalmente automatizados”.

Homens “supérfluos”

Vivek Wadhwa, empresário do setor de tecnologia e membro da Universidade Carnegie Mellon, no Vale do Silício, considera que estes estudos não abrangem a verdadeira dimensão dos riscos para os trabalhadores.

“Estes estudos subestimam o impacto das tecnologias: de 80% a 90% dos empregos serão eliminados nos próximos 10 ou 15 anos”, afirma Wadhwa, autor de um livro sobre o assunto.

“A inteligência artificial está progredindo muito mais rápido do que o esperado”, aponta.

Os assistentes virtuais personalizados como “Alexa (da Amazon) e Google Home se tornam muito inteligentes rapidamente. A Microsoft e o Google demostraram que a inteligência artificial pode compreender a linguagem humana melhor que os próprios humanos”, acrescenta.

O historiador Yuval Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, adverte que a tecnologia tornará os homens “supérfluos”, com consequências sociais preocupantes.

“Enquanto os algoritmos pressionam para tirar os humanos do mercado de trabalho, a riqueza e o poder poderiam se concentrar nas mãos de uma pequena elite de proprietários de algoritmos muito poderosos, criando uma desigualdade social e política sem precedentes”, diz Harari no seu livro “Homo Deus: A Brief History of Tomorrow”.

Harari faz referência ao estudo de Oxford, estimando uma alta probabilidade de perda de emprego para a automação. Os mais afetados seriam os caixas (97%), assistentes jurídicos (94%), padeiros (89%) e barmen (77%).

James Bessen, economista e pesquisador da Universidade de Boston, descarta as previsões alarmistas, alegando que os avanços tecnológicos geralmente levam a mais empregos, mesmo que a natureza do trabalho mude.

“Transtornos sociais”

“Os robôs podem substituir os humanos em certas tarefas, mas não em tudo”, diz Bessen à AFP.

Ele reconhece, no entanto, que a automatização “está destruindo muitos empregos pouco qualificados e que pagam pouco”.

Ele reconhece, no entanto, que a automação “está destruindo uma grande quantidade de empregos de baixa qualificação e baixa remuneração, e os novos empregos que estão sendo criados exigem habilidades superiores”.

Os assessores econômicos de Barack Obama asseguraram no ano passado que a maioria dos empregos remunerados com menos de 20 dólares por hora corriam o risco de ser automatizados.

Apesar de que ainda é difícil identificar o impacto real dos robôs, líderes da tecnologia e outros profissionais já estão debatendo como lidar com as possíveis mudanças no mercado de trabalho.

Bill Gates, fundador da Microsoft, disse no mês passado que apoiava um “imposto sobre os robôs”, uma ideia que já tinha sido proposta por Benoît Hamon, candidato socialista à eleição presidencial francesa.

Mas Bessen, ex-membro do Centro Berkman de Harvard, considera que tal imposto poderia ser contraproducente: “Se você taxa os robôs, diminuirá a velocidade dos efeitos positivos dos seus processos”.

Outros especialistas apoiam uma renda básica universal para compensar a perda de empregos.

Para Vivek Wadhwa, os problemas são mais profundos, e é necessário encontrar soluções mais criativas.

“Uma renda básica não resolverá os problemas sociais de desemprego porque a identidade das pessoas gira em torno dos seus trabalhos”, aponta Wadhwa.

“Apesar de que temos alimentos e energia suficientes, vamos ter que lidar com os transtornos sociais que virão. Precisamos de uma discussão mais ampla”, acrescenta.

“É muito possível que consigamos enfrentar este desafio”, diz James Bessen, “mas é evidente que nos últimos 20 anos as coisas foram se movendo na direção errada”.

Com informações da AFP.