Corrida eleitoral no Chile tem líder de esquerda e avanço de candidato pró-Pinochet

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A seis semanas do primeiro turno das eleições presidenciais no Chile, as pesquisas mais recentes ratificam a liderança do candidato esquerdista Gabriel Boric, 35, mas mostram uma mudança no cenário da segunda colocação.

Salpicado pelos efeitos da crise política pela qual passa o presidente Sebastián Piñera, o candidato governista, Sebastián Sichel, 44, vem caindo nas intenções de voto. Neste momento, o favorito para ir ao segundo turno contra Boric é o advogado de extrema direita José Antonio Kast, 55.

Conhecido por suas frases elogiosas ao período ditatorial do Chile, Kast disputa pela segunda vez a Presidência. Em 2017, obteve 8% dos votos e não passou do primeiro turno; agora, como um dos principais críticos da Assembleia Constituinte do país e com uma plataforma anti-imigração, Kast está subindo na preferência dos chilenos.

Pesquisa do instituto Cadem divulgada neste domingo (10) mostrou que Boric manteve o primeiro lugar, com 21%, e Kast se consolidou em segundo, já com 18%. Sichel, enquanto isso, marcou 10% e caiu para o quarto lugar, atrás também da única mulher na disputa (13%) --Yasna Provoste, 51, ex-ministra de Michelle Bachelet e candidata da democracia-cristã.

Em outro levantamento, da consultoria Criteria, Boric tem 26%, contra 17% de Kast e 15% de Sichel --aqui Provoste está em quarto (11%). Os números da Tú Influyes, por sua vez, têm Boric com 25,7%, Kast com 16,1%, Sichel com 12,1% e Provoste com 11,5%.

É preciso fazer a ressalva de que o índice de indecisos em todas as pesquisas ainda é alto, em torno dos 25%. Segundo as prévias, porém, o mais provável é que a disputa seja decidida em um segundo turno, a ser disputado em 19 de dezembro. O novo presidente assume em 11 de março de 2022.

"Com esses números, os quatro têm chances, é preciso esperar os últimos 10 dias de campanha para ter um cenário mais claro", diz o cientista político Guillermo Hollzman.

A disparada de Kast começou a ficar mais evidente depois do debate do último dia 22 de setembro. Além das fortes críticas a Piñera, o direitista também se aproveitou do fato de o governista Sichel se negar a responder uma pergunta sobre se havia feito movimentações em seu fundo de pensão.

Aprovada pelo Congresso durante a pandemia, a possibilidade de retirar dinheiro de fundos de pensão privados teve oposição aberta do governo, por bater de frente com a política liberal que fundamenta a economia chilena. Nos últimos meses, porém, reportagens da imprensa local revelaram que vários políticos que integram a base de apoio do presidente haviam se beneficiado da medida --embora tivessem se posicionado e votado contra ela. Sichel seria um deles, mas ele tem se negado a responder se fez uso do recurso.

Kast ficou conhecido nos últimos anos por defender a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), elogiando sua política econômica e afirmando que os desaparecidos políticos --em torno de 3.000, segundo organismos de direitos humanos-- eram um caso "para o poder Judiciário, não para a política".

Também chamou a atenção ao afirmar que a Justiça vinha fazendo, em suas palavras, vingança com decisões reparatórias dos últimos anos relacionadas ao período ditatorial. Kast defende, ainda, anistia a repressores e ex-militares presos por abusos e violações de direitos humanos.

Ele costuma dizer: "Se Pinochet estivesse vivo, votaria em mim".

Para a eleição deste ano, investiu em uma estratégia forte nas redes sociais, que incluem o TikTok. Na plataforma, ele responde a perguntas de eleitores, faz dancinhas e mostra sua campanha pelo interior do Chile.

Um de seus assuntos preferidos é a imigração, que vem crescendo no Chile nos últimos 20 anos. As mais numerosas comunidades são as de venezuelanos e haitianos --chegam a 1 milhão de pessoas. Em setembro, quando moradores de Iquique realizaram ataques contra venezuelanos acampados na cidade durante uma série de manifestações, Kast pegou carona no movimento, afirmando que, se eleito, irá endurecer as regras para coibir a entrada de imigrantes ilegais.

O candidato da extrema direita também propõe revogar a lei do aborto, que permite o recurso para mulheres em caso de estupro e de risco de morte. Católico, ele é casado e tem nove filhos. Também defende as aposentadorias privadas, o corte nos gastos sociais e uma política de linha dura contra o narcotráfico.

O principal problema que Kast deve enfrentar é um teto de intenções de voto que ele teria, segundo o que as pesquisas apontam. Hoje, esse índice estaria em torno dos 20% --índice de que ele tem se aproximado e mais ou menos o mesmo obtido pela opção de rejeição à Assembleia Constituinte, no plebiscito de 2020.

Os institutos chilenos não realizaram até aqui levantamentos de segundo turno.

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