Corrida presidencial começa no México com indicações de candidatos

Por Joshua BERGER, Jean Luis ARCE
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O ex-prefeito do México, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, pré-candidato presidencial do movimento Juntos Faremos História, em um ato de campanha em 11 de fevereiro de 2018 em Guadalajara, México

Os três principais aspirantes a disputar a Presidência do México, em julho próximo, formalizam neste domingo suas candidaturas em atos partidários prévios a uma campanha que se antecipa acirrada e marcada pelo cansaço dos mexicanos com os políticos tradicionais.

Evidência desta situação é a elevada impopularidade do atual presidente, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou de forma hegemônica por sete décadas consecutivas e hoje é alvo de numerosas denúncias de corrupção e uma grave retomada da violência criminosa.

"Esta eleição é sobre aquelas pessoas que estão desesperadas por uma mudança no México... E estão dispostas a provar qualquer coisa que seja diferente", sentenciou Duncan Wood, diretor do Mexico Institute do Wilson Center, em Washington.

"E também é sobre aquelas que estão genuinamente preocupadas pelo que esta mudança vai trazer", acrescenta.

O favorito nas pesquisas é o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador, ex-prefeito da Cidade do México.

Também conhecido como AMLO, ele se declarou candidato em um hotel do centro da Cidade do México, lotado de militantes que minutos antes o escolheram a mão erguida em meio a cânticos e gritos que lembravam os de uma torcida de futebol.

"Não vamos trair o povo do México, estou consciente da minha responsabilidade histórica, quero ser reconhecido como um bom presidente", disse AMLO aos presentes, que lhe responderam cantando "é uma honra estar com Obrador".

Com 64 anos, Obrador disputa a Presidência pela terceira vez e moderou seu estilo combativo e às vezes intolerante em busca de mais votos.

A impopularidade do presidente Peña Nieto e do PRI, afetado por denúncias de corrupção, e a retomada da violência criminosa, tornaram mais atraentes as mudanças propostas por AMLO.

"Sou teimoso, é de domínio público... Com teimosia, com perseverança, beirando a loucura, de forma obcecada, (por isso) vou acabar com a corrupção", acrescentou o candidato.

Em segundo lugar nas pesquisas está Ricardo Anaya, ex-legislador de 38 anos, militante do conservador Partido Ação Nacional (PAN), cuja juventude e promessas de acabar com os males do PRI são repelidos por seus críticos por acusações de corrupção e maquiavelismo.

Anaya disputará a Presidência em aliança inédita para este cargo com o esquerdista Partido da Revolução Democrática (PRD).

Em terceira posição encontra-se José Meade, respeitado ex-ministro de 48 anos, sem militância partidária, com o que o PRI busca libertar-se de seus próprios passivos, apresentando-se como um candidato "cidadão e independente".

"Ainda não há nada para ninguém", assegura o analista Fernando Dworak, para quem as mensagens de campanha e a perícia dos candidatos poderiam alterar as posições até julho.

- Todos contra AMLO -

A maioria das pesquisas situam AMLO com folga acima dos 30% das preferências do eleitorado, enquanto Anaya e Meade se movem em torno dos 20% cada um, com o candidato do PAN no extremo superior e o do PRI na parte baixa do espectro, segundo dados do site de notícias eleitorais Oraculus.

No México, cuja legislação eleitoral não contempla o segundo turno, os últimos presidentes foram eleitos com menos de 40% dos votos.

A campanha eleitoral começa oficialmente em 30 de março, embora desde o fim de 2017 e até os primeiros dias de fevereiro, o período pré-campanha tenha inundado os veículos de comunicação com propaganda dos até hoje "pré-candidatos".

Tanto Anaya quanto Meade travam um duelo no qual cada um garante ser o iminente adversário de López Obrador. O objetivo é atrair a seu favor o elevado repúdio ou anti-voto de AMLO, que é amado e odiado com a mesma intensidade.

- Pragmático -

Seus detratores o veem como um caudilho messiânico que levará o México pela via de países como a Venezuela, enquanto seus seguidores o consideram o único capaz de acabar com "a máfia do poder", frase com a qual AMLO rotula os políticos tradicionais, mas também a maioria dos críticos.

Mas diferentemente de eleições como a de 2006, quando sua agressividade verbal e uma polêmica campanha propagandística contra ele apagaram sua vantagem e o levaram a perder por uma diferença inferior a 250.000 votos, López Obrador hoje se mostra risonho e sobretudo pragmático.

Quando a hashtag "AMLOvich" começou a surgir no Twitter - uma referência a seus supostos vínculos com a Rússia - astutamente transformou o insulto em ironia, colocando-se um chapéu russo, com a legenda "Andrés Manuelovich".

Nos últimos meses, tem se aproximado da classe empresarial, acolhido ex-militantes do PAN e do PRI, além de se aliar com o Partido Encontro Social, considerado por analistas como de ultradireita.

"Vamos ver se López Obrador consegue manter essa liderança, se estas alianças que criou vão render ou tirar votos", afirma Dworak sobre o candidato que sofreu uma série de críticas ao propor uma anistia para líderes de cartéis, embora depois tenha relativizado esta ideia.

O próximo presidente terá como desafio importante lidar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ataca o México constantemente e mantém na incerteza o acordo mais importante para o México, o Tratado de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta).