Corrida contra o tempo para resfriar reatores de central nuclear

Por Jerôme Rivet
O Japão lutava nesta quinta-feira para tentar resfriar os reatores da central nuclear de Fukushima, mas o pessimismo é cada vez maior ao redor do mundo, o que provoca uma fuga em massa de estrangeiros de Tóquio.

O Japão lutava nesta quinta-feira para tentar resfriar os reatores da central nuclear de Fukushima, mas o pessimismo é cada vez maior ao redor do mundo, o que provoca uma fuga em massa de estrangeiros de Tóquio.

Sem o sistema de resfriamento, os funcionários da central utilizaram diversos meios para encher as piscinas de resfriamento das barras de combustível usadas.

Os trabalhos prosseguirão na sexta-feira para tentar restabelecer de forma parcial a alimentação de energia elétrica da central nuclear de Fukushima-1, com o objetivo de retomar o funcionamento das estações de bombeamento de água, segundo a agência de notícias Kyodo.

As equipes técnicas da empresa que administra a central, Tokyo Electric Power (Tepco), trabalharam boa parte desta quinta-feira para reativar as estações de bombeamento que abastecem com água o sistema de resfriamento dos reatores e enchem as piscinas de armazenamento de combustível usado.

A Tepco não conseguiu concluir a operação nesta quinta-feira, como era esperado inicialmente.

O terremoto de 9 graus de magnitude e o tsunami de 11 de março afetaram os motores que permitem o funcionamento das estações de bombeamento.

O balanço oficial do terremoto e tsunami, seis dias depois da catástrofe, chegou a 5.178 mortos e 8.606 desaparecidos. Mas apenas na cidade de Ishinomaki, o número de desaparecidos alcança 10.000 pessoas, segundo autoridades locais.

O número de feridos é de 2.285, enquanto mais de 88.000 casas e edifícios foram destruídos, total ou parcialmente.

As autoridades nipônicas também precisam enfrentar a crescente impaciência de 500.000 desabrigados, ante a escassez de água potável e alimentos, apesar da mobilização sem precedentes de 80.000 soldados, policiais e socorristas no devastado nordeste.

A maior preocupação é a crise nuclear, a mais grave no planeta desde Chernobyl (Ucrânia, então URSS), em 1986.

Nesta quinta-feira, pela primeira vez, quatro helicópteros do Exército japonês conseguiram lançar jatos d'água sobre os reatores mais danificados, especialmente o número 3.

O objetivo era fundamentalmente encher a piscina de combustível usado que foi avariada por uma explosão e uma série de incêndios.

A empresa Tokyo Electric Power (Tepco) informou que não tinha condições de determinar a quantidade de água que entrou na piscina, já que os funcionários não conseguiam observar o local.

Especialistas estrangeiros consideram que a piscina do reator 4 está praticamente seca, o que pode provocar níveis "extremamente elevados" de radiação, segundo o presidente da Autoridade Americana de Regulamentação Nuclear (NRC), Gregory Jaczko.

A fusão do combustível pode provocar a emanação de partículas radioativas, provocando assim uma catástrofe como a de Chernobyl.

Os funcionários da Tepco, que opera a central de Fukushima, ajudados por bombeiros e policiais, pretendiam alcançar a piscina com a ajuda de um caminhão-tanque equipado com um canhão d'água. Mas, segundo a televisão pública NHK, isto não foi possível devido ao nível elevado de radiação.

A Tepco espera restabelecer nas próximas horas a corrente de energia elétrica da central nuclear de Fukushima, o que permitiria ativar as bombas para resfriar os reatores e encher as piscinas.

Os sistemas de resfriamento falharam na sexta-feira, depois do terremoto de 9 graus de magnitude, o mais forte da história do Japão, seguido por um tsunami que devastou a costa nordeste do país.

O presidente americano Barack Obama ofereceu o envio de mais especialistas nucleares ao Japão, em uma conversa telefônica com o primeiro-ministro japonês, Naoto Kan. A França também propôs uma cooperação.

O Instituto Francês de Radioproteção e Segurança Nuclear (IRSN) afirmou na quarta-feira que as 48 horas seguintes seriam cruciais.

Diante da ameaça de um acidente nuclear de grandes proporções, muitas embaixadas recomendaram a seus cidadãos que se afastem da região e sigam para o sul, na área de Osaka, ou que deixem o Japão.

Grã-Bretanha, Alemanha, Suíça, Itália e Austrália também aconselharam seus cidadãos a deixar o norte e a região de Tóquio. França, Bélgica e Rússia enviarão aviões para retirar as pessoas que desejam deixar o Japão.

O governo da China pediu às autoridades nipônicas informações "pontuais e precisas" para acalmar a opinião pública preocupada com a eventual chegada ao país de emissões radioativas.

A embaixada americana estabeleceu uma zona de risco de 80 km ao redor da central nuclear.

As autoridades japonesas fixaram até o momento um perímetro de segurança de 30 km, e o governo afirmou que as radiações além da zona de exclusão de 20 km "não representam perigo imediato para a saúde".

Por precaução, 10.000 pessoas do município de Fukushima serão submetidas a testes de radioatividade em 26 centros médicos.

Enquanto no exterior reina uma inquietação que se aproxima do pânico, a população nipônica, sobretudo em Tóquio, se mostra surpreendentemente serena e disciplinada, à espera de novas instruções do governo.

Os ventos provavelmente continuarão sendo favoráveis nas próximas horas, empurrando para o Oceano Pacífico os resíduos radioativos da central nuclear.

Um frio intenso e as nevascas reduziram ainda mais as condições de vida e de trabalho para os 500.000 desabrigados do terremoto e do tsunami e dos 80.000 socorristas mobilizados no nordeste.

Para piorar a situação, um corte de energia elétrica em grande escala pode afetar a região leste do país caso o consumo não seja reduzido, advertiu o ministério da Indústria.

No campo econômico, o iene atingiu um novo recorde desde a Segunda Guerra Mundial na comparação com o dólar. Os investidores especulam sobre uma eventual repatriação em massa de fundos pelas seguradoras japonesas.