Corridas de rua voltam a acontecer depois de paralisação causada pela pandemia

Bia Martins emociona-se até hoje ao se lembrar de uma corrida de anos atrás. A corredora partiu mais de uma hora depois dos outros competidores e, sozinha, cruzou a linha de chegada sob os aplausos e apoio do público. Seu tempo sequer foi registrado, mas aquela imagem está cravada em sua memória. São essas recordações que a coordenadora de marketing, de 42 anos, espera voltar a construir com a retomada das provas de rua pelo país. Ela já está preparada para os 10km da Maratona do Rio —ainda tem 5km, 21km e os 42km —, que acontecerá entre os dias 12 e 15 de novembro.

Cancelada em 2020 e adiada este ano por causa da pandemia, a Maratona do Rio será o primeiro grande evento de corrida do país a voltar presencialmente. Com algumas restrições e protocolos específicos por causa da pandemia, claro. Por isso, ainda não haverá tanto calor humano como Bia gostaria. O público não poderá comparecer e as arenas serão cercadas por grades para evitar o contato com os pedestres ocasionais. Mas são esperados um total de 20 mil corredores para os três dias de evento, um número abaixo dos 15 mil diários das últimas edições.

— Não é a mesma coisa fazer as provas virtuais. Foi bom para manter a forma, para não ficar parada, mas falta o calor humano. O atleta não corre só pela corrida, tem o objetivo de terminar a prova e o encontro com os amigos. A motivação que isso dá é diferente — conta Bia, que ficou totalmente isolada por seis meses por ser grupo de risco. — Tenho duas cirurgias no coração e, naquele primeiro momento, fiquei bem reclusa. Aos poucos, comecei a correr no condomínio e fui retomando o condicionamento.

Tanto os corredores quanto trabalhadores da organização terão de estar com a imunização completa. Caso alguém não tenha tomado a segunda dose, será necessária a apresentação de um teste de PCR ou antígeno negativo feito nos últimos três dias. Nos locais fechados e de maior concentração de pessoas, as máscaras serão obrigatórias, como na largada e na chegada. Durante as provas, será opcional.

Como vem acontecendo na Europa e nos Estados Unidos, o calendário vai sendo retomado à medida que a vacinação avança e há liberações das autoridades locais. Ainda este mês, haverá a Corre da Reserva, dia 21, que será beneficente, com distâncias de 2km a 15km. As velhas conhecidas estão de volta em dezembro, como a Volta da Pampulha (18km), em Belo Horizonte, no dia 12, e a tradicional Corrida de São Silvestre (15km), em São Paulo, no último dia do ano. Edições especiais da Meia Maratona e da Maratona de São Paulo também estão garantidas em fevereiro e abril de 2022, respectivamente.

— Nós estávamos há muito tempo sem a prova a física da Maratona do Rio, os corredores estavam aflitos e ansiosos vendo que outras provas ao redor do mundo estavam sendo confirmadas. Felizmente, o avanço da vacinação no Brasil e no Rio foi essencial para que pudéssemos realizar o evento neste ano — disse João Traven, diretor da Maratona do Rio.

Das seis Maratonas Majors, apenas a de Tóquio não será realizada este ano. Berlim, Londres, Chicago e Boston retornaram entre setembro e outubro. A de Nova York será em 7 de novembro. Como as de lá, o modelo virtual (o atleta pode correr em qualquer lugar) será mantido. Foi ele que manteve as marcas ativas com os atletas.

— Mantivemos o contato com nosso público nesses 18 meses, tivemos corrida virtual de cada evento. Podemos dizer que supriu a ausência da rua. Vamos manter essa opção para as pessoas que não poderão estar presentes — disse Thadeus Kassabian, CEO da Yescom, que organiza a Volta da Pampulha e a Meia Maratona de São Paulo, entre outras corridas.

Cuidados na volta

A ansiedade dos atletas amadores pelo retorno das provas é visível tanto nas interações com as organizadoras dos eventos quanto nos consultórios médicos. Correr longas distâncias requer tempo e preparo especializado. Ou o corpo irá cobrar o preço pelo excesso de esforço.

Principalmente daqueles que, ao contrário de Bia, cujo objetivo da corrida é estritamente pela saúde, se preocupam mais com a performance. Durante a pandemia, sem uma meta clara, raramente foram mantidas a intensidade e a constância dos treinamentos.

— Essa foi, e ainda é, uma questão difícil, pois depois de tantas mudanças de datas e cancelamentos, manter o foco para realizar um ciclo de treinamento completo para uma prova específica era praticamente impossível. Na nova realidade, a ansiedade me pegou de jeito e com ela a gula tomou conta de mim, muitos quilos vieram junto e ainda luto contra o peso extra. Então, ainda acho difícil melhorar meu tempo na Meia Maratona do Rio deste ano, mas vamos ver o quê acontece — diz Cristiano Soares, fotógrafo de 41 anos.

A recomendação do ortopedista Sergio Mauricio é simples: corra somente o que seu corpo está preparado, sem se preocupar com o tempo. Qualquer alteração no ritmo de treinamento, diz ele, é o suficiente para perder o condicionamento físico necessário nas grandes distâncias. Assim como mudanças na alimentação e no sono.

— Quem não teve essa disciplina na pandemia, sugiro que encare a prova como um “iniciante” temporário e ouça os sinais do corpo. Faça a prova apenas para cruzar a linha de chegada.

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