Corrupção, confinamento e violência policial indignam Chipre

Paul RAYMOND
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A crise de saúde, as terríveis perspectivas econômicas e os escândalos de corrupção geraram no Chipre um sentimento de "frustração generalizada", com protestos em massa e até mesmo um episódio incomum de repressão policial na ilha mediterrânea.

"O clima é bastante explosivo (...) muitas pessoas não confiam mais no Estado", diz o advogado Achilleas Demetriades, defensor dos direitos humanos, após a implantação em 13 de fevereiro da tropa de choque e um canhão d'água para dispersar manifestantes reunidos na capital, Nicósia.

A pandemia de covid-19 teve um efeito devastador na economia da ilha turística e, de acordo com Anastasia Demetriadou, uma musicista de 25 anos, a falta de apoio do governo fez com que alguns tivessem de escolher entre "pagar as contas ou se alimentar".

A jovem tornou-se um símbolo depois de quase perder a visão durante um protesto.

A repressão daquele dia alimentou a ira dos cipriotas, fartos de meses de confinamento e do escândalo dos "passaportes dourados" - emitidos para milhares de investidores estrangeiros, um programa suspeito de ter favorecido a corrupção e a lavagem de dinheiro.

Este dispositivo - um passaporte em troca de um investimento de 2,5 milhões de euros (3 milhões de dólares) na ilha - criticado pela União Europeia, da qual a República de Chipre faz parte, foi abolido em novembro após uma investigação da rede Al-Jazeera sobre supostos abusos que forçaram a renúncia do presidente do Parlamento, Demetris Syllouris.

A emissora transmitiu imagens de funcionários públicos, incluindo Syllouris, supostamente tentando ajudar um empresário fictício com ficha criminal a obter um passaporte cipriota.

O jornal Phileleftheros afirma que o ex-presidente do Parlamento recebeu 100.000 euros (121.500 dólares) mais uma pensão mensal de 5.000 euros (6.000 dólares) e uma ajuda para cobrir despesas.

Para piorar a situação, a poderosa Igreja Ortodoxa demoliu sem autorização quatro edifícios históricos perto da nova catedral no centro histórico de Nicósia.

- "Inaceitável" -

"Há muita corrupção no Chipre (...) os eleitores não vão mais às urnas porque não confiam mais no governo", lamenta Anastasia Demetriadou.

Apesar da presença de crianças e cadeirantes na manifestação do dia 13, que reuniu centenas de pessoas apesar das restrições, os policiais usaram seus cassetetes e o canhão d'água, que primeiro direcionaram aos pés da musicista e depois para sua cabeça.

Ainda não se sabe como seu olho vai evoluir, mas ela tem certeza de que quer levar a Polícia à Justiça.

Questionados pela AFP, a Polícia e o Ministério da Justiça não quiseram comentar. Uma investigação está em andamento.

O advogado Achilleas Demetriades diz que nunca viu tamanha repressão em três décadas. "Houve um uso desproporcional e injustificado da força", considera.

A resposta dos cipriotas foi proporcional: na semana seguinte, cerca de 5.000 pessoas protestaram pacificamente em Nicósia, no que foi uma das maiores manifestações dos últimos anos, constataram jornalistas da AFP.

A polícia manteve-se à distância e não foram vistos canhões de água ou agentes do choque.

A maioria dos manifestantes usava máscara e os organizadores pediram que mantivessem distância uns dos outros.

Chipre, com menos de 900.000 habitantes, registrou cerca de 33.400 casos de covid-19, incluindo 230 mortes. A detecção é maciça, mas a campanha de vacinação está lenta devido a atrasos no fornecimento de doses na União Europeia.

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