Corte Eleitoral confirma Lacalle Pou como novo presidente do Uruguai

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - A Corte Eleitoral uruguaia anunciou nesta quinta-feira (28) a vitória do candidato do Partido Nacional (blanco), Luis Lacalle Pou, 46, nas eleições presidenciais.

Após quatro dias de uma contagem minuciosa dos chamados "votos observados", a oposição volta ao poder no Uruguai por uma diferença de cerca de 1% dos votos —o escrutínio final será divulgado até sábado (30).

O órgão, no entanto, afirmou que a distância entre Lacalle Pou e o candidato da centro-esquerdista Frente Ampla é irreversível.

"Meu reconhecimento e agradecimento a todos os homens e mulheres que estiveram defendendo os votos e a democracia em cada mesa nos últimos dias", disse Lacalle Pou, por meio de uma rede social.

O candidato governista, Daniel Martínez, reconheceu a derrota também pelo Twitter e disse que pretende se reunir com o vencedor nesta sexta (29). Com a mudança, a Frente Ampla deixa o poder após 15 anos.

Lacalle Pou chega à Presidência em sua segunda tentativa -na primeira, em 2014, perdeu no segundo turno para o atual presidente, o socialista Tabaré Vázquez.

Advogado, terá como principal desafio combater a insegurança, grande preocupação dos uruguaios, e impulsionar a economia, que ficou praticamente estagnada em 2019.

Liberal na economia, Lacalle Pou faz parte de um partido criado para defender os interesses do campo. A legenda possui uma ala progressista e outra mais conservadora, à qual pertenceu seu pai, Luis Alberto Lacalle, presidente de 1990 a 1995.

Lacalle Pou se situa um pouco mais à esquerda que o pai e afirmou que não irá rever ou pedir a revogação das leis de direitos civis aprovadas durante o governo da Frente Ampla, como o matrimônio homossexual e as leis da maconha e do aborto.

A vice-presidente eleita, Beatriz Argimón, 58, é presidente do partido Nacional e uma conhecida ativista da participação das mulheres na política, além de ativista dos direitos humanos e da família.

O presidente Tabaré Vázquez, que já havia telefonado para Lacalle Pou no domingo para parabenizá-lo, colocou a chefia da transição para o novo governo sob a responsabilidade de sua vice-presidente, Lucía Topolansky, mulher do ex-presidente José "Pepe" Mujica. Topolanksy se reunirá nesta sexta-feira com Argimón para organizar os primeiros passos. A posse de Lacalle Pou e Argimón será no dia 1º de março.

Em nota, o Itamaraty informou que o presidente Jair Bolsonaro telefonou hoje a Lacalle Pou, "fez votos de pleno êxito" e convidou-o a visitar o Brasil.

A eleição deste ano foi a mais apertada dos últimos 20 anos no Uruguai. No total, Lacalle Pou conquistou 1.168.019 votos, contra 1.139.353 de Martínez, diferença de apenas 28.666 votos.

Devido à margem apertada entre os dois candidatos, a Corte Eleitoral do Uruguai decidiu no domingo (24) adiar o anúncio do vencedor para analisar os chamados “votos observados”.

Nessa categoria, entram os eleitores que votaram em uma zona eleitoral diferente de onde estão registrados ou que não são encontrados nos cadastros nos locais de votação e, por isso, têm os dados anotados para serem verificados posteriormente.

A lei estabelece que esses votos sejam registrados de modo separado, para que depois a Justiça Eleitoral possa confirmar a identidade destes eleitores, incluí-los no cadastro e, assim, validar seus votos.

Na reta final do pleito, as pesquisas de intenção de voto mostravam uma tendência de diminuição da margem entre os candidatos, embora dentro da margem de erro.

Antes, no entanto, essa margem apontava para uma vitória de Lacalle Pou por 5 a 7 pontos percentuais. Levantamentos internos dos partidos, no sábado anterior ao voto, já mostravam que a diferença teria caído para 3 pontos.

A uma semana da eleição havia 6% de indecisos. Segundo o analista político Daniel Chasquetti, parte deles, assim como parte dos eleitores de Lacalle Pou, "pode ter se assustado com a radicalização da mensagem do general Guido Manini Ríos, na qual chamava os militares a não votarem na Frente Ampla".

O vídeo de tom agressivo foi divulgado na quinta-feira (21), durante o período em que era proibido fazer propaganda política. O ex-general, de direita, foi candidato no primeiro turno e, no segundo, apoiou Lacalle Pou.

O presidente eleito, no dia das eleições, advertiu Manini Ríos e afirmou que "coisas assim não podem ocorrer no Uruguai".

Ao longo desta semana, veio a punição mais grave. Nem Manini Ríos nem ninguém de seu partido, que obteve 10% dos votos no primeiro turno, ocupará um ministério no novo governo.

Das outras três legendas que formam a coalizão opositora que derrotou a Frente Ampla, quem deve ter maior participação é o também tradicional Partido Colorado, que possui uma linha liberal-conservadora e outra mais progressista, a chamada linha batllista, por conta do legado de seu mais importante líder, Batlle y Ordoñez.

Os colorados devem ainda assumir pastas-chave, como o ministério do Interior e a Secretaria da Presidência. ​

O ministro das Relações Exteriores será Ernesto Talvi, terceiro colocado no primeiro turno. Na quarta-feira (27), ele aceitou o convite de Lacalle Pou para o posto.

Na política externa, o presidente eleito afirmou durante a campanha que o Uruguai integrará o Grupo de Lima e respaldará a pressão do conjunto de países das Américas para que Nicolás Maduro deixe o poder.

Logo após a confirmação da vitória de Lacalle Pou, o autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, parabenizou o colega numa rede social.

"Conte com toda a nossa disposição para trabalhar unidos por nossos povos. Sabemos que contamos com seu apoio na luta pela restauração democrática que lideramos na Venezuela", escreveu o oposicionista.

Nos últimos anos, o Uruguai se recusou a apoiar sanções ou a pressionar mais duramente a cúpula do país caribenho.

Mais afinado com o México neste tema, e agora com a Argentina do presidente eleito Alberto Fernández, o Uruguai sob a gestão de Tabaré Vázquez pregou o respeito à soberania venezuelana. Tampouco se refere ao regime de Maduro como uma ditadura.

Já no Cone Sul, ainda está incerta qual seria a relação de Lacalle Pou com o governo brasileiro. Após o primeiro turno, ele se recusou a receber o apoio expressado por Jair Bolsonaro.

“O Uruguai, por sorte, não decide o que os brasileiros pensam, decide apenas o que acontece e o que precisam os uruguaios”, disse o agora eleito à época.

Ainda assim, ideologicamente, está mais alinhado ao brasileiro por ser a favor de flexibilizar as regras de comércio do Mercosul com outros países.