Costureiras de áreas pobres de Duque de Caxias produzem máscaras sustentáveis e voltam a ter renda fixa

Marcos Nunes
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Dulcilene (de rosa) com a costureira Tamires

Mãe de três crianças, com idades entre 5 e 13 anos, e de um jovem de 23, a costureira Elaine Cristina Silva de Jesus, de 45, ficou sem chão quando seu filho mais velho perdeu o emprego, logo após o início da pandemia do novo coronavírus. O valor de um salário mínimo recebido pelo marido, que é aposentado e ainda faz bicos para aumentar a renda da família, era insuficiente para cobrir todas despesas da casa. A ajuda que Elaine precisava receber para sair do aperto veio em meio ao combate à Covid-19. Ela foi convidada a integrar um time, que atualmente conta com oito costureiras de áreas pobres da Baixada Fluminense, para produzir máscaras caseiras, vendidas por R$ 10 pelo Atelier BZZ, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio.

 

A parceria entre a loja e as costureiras, que sofreram brusca diminuição de renda familiar por perda de emprego de maridos e filhos, é fruto da união entre dois projetos sociais: um de sustentabilidade e outro de empoderamento feminino.

Um deles é o By Comunidades, da costureira e empreendedora social Dulcilene Mendes Aragão, de 58 anos, que capacita mulheres em vulnerabilidade na Baixada Fluminense, na área de moda. O outro é o Transformando Vidas, que também ajuda mulheres da Baixada e é tocado pela designer Rosane Lopes, dona do Atelier BZZ. Desde março, cerca de 20 mil máscaras foram vendidas, dez mil para uma empresa da região. De quebra, deram uma renda mensal entre R$1,2 mil a R$ 1,5 mil às costureiras.

 

— Para mim foi uma bênção que caiu do céu. Recebi o convite da Dulce e aceitei logo. Como ela estava precisando de mais gente, indiquei minha mãe e minha sobrinha, que também são costureiras e estavam precisando de renda. Minha sobrinha, por exemplo, tem cinco filhos — contou Elaine.

Feitas de materiais como algodão, tricoline, linha e elástico, as máscaras podem ser lavadas e têm duas camadas de proteção. Fabricadas nos modelos anatômico (que fica mais justo no rosto) e retangular, elas são vendidas em caixinhas plásticas que trazem instruções de uso e de como lavar.

— As caixinhas são um dos nossos diferenciais. São feitas de plástico reciclável. A máscara de modelo retangular, por exemplo, ainda tem opção de colocação de um filtro de café, caso o usuário queria uma proteção extra — explica a designer.

 

As oito costureiras que trabalham na parceria são de Duque de Caxias. Todas de áreas pobres em bairros como Campos Elíseos, Saracuruna e Centenário. Segundo Dulcilene Aragão, uma delas, que estava em maior dificuldade, recebeu uma máquina de costura para começar a produção.

— Montamos uma oficina para ela, com uma máquina que recebemos de doação. Agora ela tira o sustento dali. Nosso objetivo é fazer com que mulheres sobrevivam com o trabalho dentro da própria comunidade — disse Dulcilene.

 

Ex- funcionária da Organização Mundial da Saúde (OMS), Rosane Lopes já trabalhou em países da África e da América Latina, durante períodos de disseminação de epidemias, como a gripe suína. Numa dessas oportunidades, esteve no Haiti, onde trabalhou após um terremoto. Ela conta que a experiência acumulada ajudou a perceber que as máscaras seriam necessárias no Brasil.

— Trabalhei na área de comunicação nesses países. Pela experiência acumulada, percebi que as máscaras seriam necessárias ainda em março. Entramos em contato com as costureiras e compramos online o material necessário para a confecção das máscaras. Quando o governo recomendou o uso, já estávamos com a produção praticamente pronta. Produzimos inicialmente mil unidades, que acabaram em três ou quatro dias. Ficamos surpresos com o resultado — afirmou a designer.