Cotado para assumir Itamaraty, Serra é visto por colegas como 'bolsonarista linha dura' e suscetível ao clã presidencial

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A trajetória profissional do embaixador Luís Fernando Serra, principal cotado para assumir o Itamaraty no lugar de Ernesto Araújo, ganhou novos rumos há pouco mais de três anos, quando, como embaixador na Coreia do Sul, ciceroneou o então deputado federal Jair Bolsonaro e seus filhos, Eduardo, Carlos e Flávio durante um périplo do clã pela Ásia. Comenta-se no Itamaraty que a sintonia entre o embaixador e a família Bolsonaro foi tão boa que, uma vez eleito, o presidente o teve com favorito para comandar a pasta de Relações Exteriores.

Serra chegou a se reunir duas vezes com Eduardo durante a transição entre os governos Michel Temer e Bolsonaro. Era dado como certo, mas o escolhido foi Araújo, que pediu demissão nesta segunda-feira.

Serrinha, como é conhecido entre os colegas, foi enviado para a embaixada do Brasil na França —para muitos, um prêmio de consolação. Se voltar a Brasília, não terá que mostrar apenas aos congressistas e a outros críticos da política externa brasileira que foi a melhor escolha neste momento. Um de seus principais desafios seria convencer seus próprios colegas que o presidente não trocou seis por meia dúzia.

O embaixador cotado para ministro das Relações Exteriores não é "olavista" — denominação dada aos discípulos do escritor Olavo de Carvalho, mas é considerado bolsonarista linha dura e chamado, por alguns colegas, de "viúva do regime militar".

Embaixadores já aposentados que o tiveram como subordinado no posto de ministro-conselheiro, entre outros, o definem como um "bom profissional", mas lamentam que ele tenha se tornado, nos últimos dois anos, "um bolsonarista radical, o que não é um bom sinal".

No Itamaraty, espera-se uma continuidade se ele assumir. O embaixador cumpriria à risca as orientações do Palácio do Planalto, só que com um estilo mais moderado e sem presença assídua nas redes sociais.

Antes de chegar a Paris, o embaixador, que ingressou no Itamaraty em 1972, chefiou as embaixadas do Brasil em Gana (seu primeiro posto com embaixador, entre 2006 e 2011), Burkina Faso, Singapura e Coreia do Sul. Faltando pouco para sua aposentadoria, a embaixada na França era, para muitos, uma despedida da carreira com broche de ouro.