A covardia de Trump com os filhos dos imigrantes é um alerta quem se encanta com delírios autoritários

Por Matheus Pichonelli
Se pudessem, 62% dos jovens brasileiros iriam embora do país. Os números, publicados no início da semana pelo Datafolha, correspondem a 70 milhões de pessoas com 16 anos ou mais, e coincidem com o índice de desemprego e a ausência de perspectivas por aqui.

Segundo o Ipea, 47% dos brasileiros entre 18 e 30 anos não estudam e 34% não estudam nem trabalham – 28% estão desempregados e o restante nunca trabalhou.

Quando questionados, boa parte dos jovens (14%) afirma ter o desejo de se mudar para os Estados Unidos, a “terra das oportunidades”.

A nação mais rica do Planeta, que fracassou na guerra às drogas na América Latina e ajudou a espalhar conflitos com a guerra ao terror no mundo árabe, é a nação do pleno emprego. Apenas 3,9% dos americanos hoje encontram-se sem trabalho. É para lá que imigrantes de diversas origens, afetados por diversos conflitos em seu país, como a violência do tráfico no México, tentam chegar.

Em 2016, Donald Trump se elegeu presidente dos EUA com um discurso vulgar, fama de predador e uma promessa cínica: “America First”. Como se em algum momento da história recente os representantes do país tivessem pensado em qualquer coisa se não o próprio umbigo.

Após décadas com o bedelho em cada canto do globo, os americanos decidiram dar a um ex-apresentador de TV de narcisismo patológico a missão de concretizar o delírio de erguer um muro de concreto e outro retórico sobre a refundação de um Estado-nação que, sob risco, se protege, se cerca e se dedica apenas do próprio quintal.

Acordos multilaterais, como os tratados de livre comércio com países vizinhos e a declaração final da cúpula do G7, foram revistos. Estudos e alertas sobre aquecimento global foram ignorados. Os EUA abdicaram de seus esforços e responsabilidades assumidas nas convenções do clima.

E, em meio uma guerra comercial com a China prestes a ser detonada, o país resolveu abandonar, a exemplo de Irã, Coréia do Norte e Eritreia, o Conselho de Direitos Humanos da ONU em razão de seu viés “anti-Israel”.

Não é uma guinada apenas simbólica. Nem (dessa vez) uma simples bravata.

Aos poucos, os efeitos da tentação autoritária, que por aqui promete arrastar fiéis fervorosos na eleição de outubro, começam a ser percebidos, e suas implicações éticas têm agora um rosto: o rosto dos filhos de imigrantes separados dos pais e detidos em galpões divididos por grades que formam uma espécie de gaiola gigante, conforme registra a repórter Estelita Hass Carazzai, da Folha de S.Paulo.

Oito dessas crianças, de um total de 2.000, são brasileiras. Elas pagam a pena por terem nascido em países afetados pelos conflitos de um jogo em que só alguns ganham e seguirão ganhando.

Nessas horas vale retomar a leitura de Eduardo Galeano. “A divisão internacional do trabalho significa que alguns países se especializaram em ganhar e outros em perder”, escreveu o uruguaio em As Veias Abertas da América Latina.

As imagens das crianças separadas dos pais aos prantos correram e comoveram o mundo, mas não parece mover as sobrancelhas ou a testa alaranjada do gestor antipolítico que confunde o próprio país com uma propriedade privada.

Nessa brincadeira, o paredão não elimina concorrentes, mas destinos humanos.

Sob Trump, o “sonho americano” virou um pesadelo de tintas macabras desenhadas por uma crise humanitária. E, isolados, os EUA se apequenam diante do mundo.

A receita do fiasco deveria servir de alerta aos que se encantam com as bravatas e delírios autoritários made in Brazil dos que sonham ser Donald Trump quando crescer.