Covid-19: 373 mil deixaram de se vacinar no estado, e 288 mil estão atrasados para a segunda dose, diz estudo

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Embora a capital do Rio de Janeiro avance no cronograma de vacinação contra a Covid-19, o estado ainda tem 373 mil pessoas com 60 anos ou mais que não se vacinaram, o equivalente a 12,4% da população idosa fluminense. Trata-se do terceiro pior desempenho de cobertura vacinal para a primeira dose entre idosos do Brasil. Além disso, o Rio tem a sétima maior proporção de atrasados para a segunda dose do país: 9,7% das pessoas com 60 anos ou mais não voltaram para tomar a injeção de reforço dentro do prazo adequado — um contingente de 288 mil pessoas.

Os dados foram extraídos de um estudo desenvolvido pelos pesquisadores Guilherme Werneck e Lígia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mário Scheffer, da Universidade de São Paulo (USP), cuja versão mais recente o GLOBO exibe em primeira mão. De acordo com a pesquisa, que mede os índices de cobertura vacinal de todo o Brasil, a maior parte dos atrasados para a segunda dose tomou uma injeção inicial de CoronaVac (7,7%), fórmula amplamente ministrada nas fases iniciais da campanha e, por consequência, nas faixas etárias mais avançadas.

O Rio tem a segunda maior proporção de atrasados para a dose de reforço da CoronaVac do país. O vácuo na imunização completa com a vacina do Instituto Butantan é sensível na capital, onde 71% das pessoas que não tomaram a segunda dose da vacina foram imunizadas com a primeira da CoronaVac. Segundo informações da Secretaria municipal de Saúde, compartilhados na entrevista coletiva de divulgação do 26º boletim epidemiológico nesta sexta-feira, 89.865 pessoas estão com a segunda dose atrasada.

O déficit vacinal nos mais idosos é realçado por outras informações reunidas pelos pesquisadores. O Estado do Rio tem o menor desempenho do país na cobertura vacinal de pessoas com 80 anos ou mais: apenas 84% desse público foi imunizado com pelo menos uma dose e 74% recebeu a segunda. O RJ também tem a menor cobertura vacinal entre pessoas de 70 a 79 anos (88%).

Os números podem sofrer a influência do atraso da digitação dos dados pelos municípios, um problema que a Secretaria estadual de Saúde (SES) diz enfrentar desde o início da pandemia, como o GLOBO já noticiou. Eles foram retirados, contudo, do OpenData SUS, plataforma que alimenta o vacinômetro federal, o LocalizaSUS. A própria SES já disse à reportagem, no início de junho, que, de todos os sistemas oficiais de contagem de vacinados, este tende a ser o mais atualizado.

— Houve um problema específico no Rio no início da vacinação, principalmente com as cidades da Baixada Fluminense. O Rio teve uma desorganização singular, a gente sabe disso. Estamos carregando esse legado ruim — afirma Lígia Bahia, autora do estudo. — Por que essas pessoas não foram vacinadas? Porque precisavam de acompanhante para ir, ou porque, em virtude de outras limitações, acabaram ficando de fora diante desse calendário acelerado. Não houve resgate dessas pessoas, nem vacinação em casa.

Na capital, de acordo com a SMS, a maior parte dos atrasados não voltou ao posto porque se esqueceu da data de retorno. No entanto, para Lígia Bahia, é uma ilusão acreditar que esse número se deve unicamente à negligência da população em relação ao cronograma:

— Há primeiro um problema estrutural, que é o baixo número de vacinas. Mas na verdade a própria dinâmica da campanha contribuiu um pouco para esse número, porque um calendário que separa um dia por idade é muito cruel. Quando a data da vacinação de uma determinada pessoa passa e a ela não se vacinou, ela tem uma sensação de perda: "Ih, perdi".

Segundo ela, o praxe em outras campanhas de imunização — que foi adotado no caso da Covid-19 em outros países — é a vacinação por grupos etários.

— Aqui no Brasil se estabeleceu esse outro tipo de cronograma, que é vanjatoso do ponto de vista publicitário, porque dá uma sensação de "avanço": "Prefeito tal avançou mais uma vez". O que se há de fazer é estabelecer critérios para o resgate dessas pessoas que não voltaram para tomar a segunda dose — diz a especialista.

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