Covid-19: 83% das amostras de pacientes do Rio desde janeiro são da variante de Manaus, mais transmissível

Arthur Leal
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O avanço de uma nova variante da Covid-19, batizada de P1, descoberta em Manaus, no Amazonas, pode ser um dos fatores que têm contribuído para o aumento no número de casos e internações, sobretudo na cidade do Rio. Cientistas e autoridades públicas alertam que a mutação tem mais poder de transmissão que o vírus original ou outras cepas em circulação, o que pode ter efeito devastador se somado ao desrespeito às regras sanitárias. Desde janeiro, de 210 genomas colhidos de pacientes no estado para análise nos laboratórios da Fiocruz ou Noel Nutels (Lacen-RJ), 176, ou seja, 83% deles, foram identificados com a linhagem amazônica.

O recesso no Rio quer, além de evitar o colapso das UTIs da capital, conter o avanço da P1. A variante prevalece entre as amostras analisadas, seguida da B.1.1.7, do Reino Unido, também mais contagiosa, encontrada em sete infectados que tiveram o material examinado. Outras análises ainda aguardam resultado do sequenciamento feito pela Fiocruz e pela Fundação Ezequiel Dias (Funed-MG).

As amostras colhidas para análise de pacientes com Covid-19 em hospitais, UPAs e postos de saúde, com base em alguns critérios, como quantidade de carga viral ou evolução do quadro de saúde, são distribuídas semanalmente aos laboratórios especializados. Eles acompanham o avanço do vírus em território nacional para o Ministério da Saúde.

— O número de amostras identificadas nos ajuda a entender que há hoje uma variante que tem predominado nos testes nos últimos dias, que é a P1. Uma cepa que os dados indicam ter uma capacidade de transmissão maior que exige um trabalho contínuo de vigilância epidemiológica — afirmou o médico da Subsecretaria de Vigilância em Saúde da Secretaria estadual de Saúde, Alexandre Chieppe.

No Rio, predominante

A prefeitura constatou que 183 casos dessas novas variantes analisadas por laboratórios de referência são de casos ocorridos na capital. Desses, 145 eram moradores do Rio de pelo menos 16 bairros diferentes, das zonas Norte, Sul e Oeste, o que ajuda a ilustrar o quanto a nova mutação já se espalhou pelo município. Apenas sete delas não estavam com a P1, mas com a britânica B.1.1.7.

Analisando os boletins epidemiológicos do município, é possível observar o crescimento na incidência da P1 na cidade do Rio: em 18 de fevereiro, o relatório mencionava três casos da variante; em 25 de fevereiro, seis casos; em 3 de março, 11; no dia 10, 42 casos; e no dia 18, 53. Até ontem, o total chegava a 176 casos. Chama atenção o fato de que, entre os residentes na cidade, em 96% dos casos, a transmissão se deu de forma comunitária.

— Esses números cresceram muito. Isso mostra que temos a circulação da variante P1, assim como em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e inicialmente em Manaus. E ela já é muito predominante, a que mais circula, porque apareceu em 83% dos casos que foram verificados — comentou o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. — O principal fator para o aumento de casos, nessa velocidade que estamos observando é o avanço da variante P1.

No Estado do Rio, levando em consideração apenas os números da Fiocruz, aos quais O GLOBO teve acesso, o número de pacientes detectados com a variante P1 subiu de 2, em janeiro, para 37 em fevereiro, um aumento de 1.750%. Com isso, a variante de Manaus já supera a incidência da mutação P2, de origem no próprio Rio e de transmissibilidade menor.

— O que estamos detectando a cada semana é um aumento crescente no número de testes positivos para a variante P1 entre as amostras analisadas. Com base nesses dados, a gente espera um aumento ainda maior da circulação da P1 nas próximas semanas aqui no Rio. Até por isso, a Secretaria municipal de Saúde está nesse esforço para tentar fechar vários setores da cidade, para que diminua a circulação dessa variante — contou a virologista e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e de Sarampo, que tem comandado as pesquisas genômicas na instituição. — Esse fenômeno é o mesmo que foi visto em outros estados brasileiros. O vírus começa a circular numa porcentagem baixa, mas rapidamente começa a predominar nas amostras.

Contágio veloz

Uma moradora de Campo Grande — um dos bairros que aparecem na lista de pacientes identificados com a nova cepa amazônica — conversou com a equipe do GLOBO e contou que, logo após o carnaval, passou a conviver com uma situação dramática que, na opinião de especialistas, está ligada às características da variante amazônica. Rapidamente, o marido, que pegou Covid de um colega de trabalho, transmitiu a doença para ela e toda família, incluindo o filho de 2 anos do casal.

— O meu marido voltou de férias e foi trabalhar, logo depois da Quarta-Feira de Cinzas. Um colega do trabalho, que já estava começando a ter sintomas, foi trabalhar. Na quinta, eles tiveram um contato muito rápido, porque ele alertou que estava se sentindo mal. Em poucos dias, meu marido já estava com sintomas também. Não demorou muito e, das dez pessoas da equipe dele, oito testaram positivo para Covid. E olha que lá (uma indústria) eles usam máscara e óculos de proteção — relatou a mulher que prefere não se identificar. — Todos testamos positivo. Por conta da forma que se deu o contágio, que foi muito veloz, a médica nos disse que, muito provavelmente, tratava-se da nova variante. Em mim, o vírus segue perdurando, são mais de 20 dias com sintomas. Meu filho teve febre e enjoo — concluiu, citando sintomas de coronavírus que não são muito comuns em crianças, normalmente assintomáticas.

Vacina e isolamento são armas

Para detectar qual variante contaminou um paciente com Covid-19, é necessário um teste de sequenciamento genético, feito apenas em laboratórios de referência. A pessoa infectada pela nova cepa, na absoluta maioria das vezes, não fica sabendo, ou sequer tem conhecimento que seu genoma foi testado, porque, segundo os cientistas, não há relevância clínica. A virologista Marilda Siqueira, da Fiocruz, observa que pouco se sabe ainda sobre essas mutações, mas que é fundamental estudá-las, sobretudo do ponto de vista estratégico de combate à pandemia.

— O estudo dessas amostras serve para um diagnóstico situacional, não individual, e é assim no mundo inteiro. O estudo molecular é uma ferramenta muito importante para entendermos melhor o cenário epidemiológico e traçarmos estratégias. É para entendermos se aquela mutação influencia na capacidade de o vírus causar doenças mais graves ou não, na eficácia das vacinas e se um paciente que já tem anticorpo para Covid é capaz de se proteger dessa variante, por exemplo — explica.

A pesquisadora acrescenta que a mutação é um fenômeno normal entre os vírus, que são micro-organismos que seguem um padrão evolutivo. Segundo ela, o desrespeito às recomendações de isolamento, por exemplo, podem contribuir para o surgimento de novas linhagens:

— As cepas mais recentes vão substituindo as mais antigas em circulação, e o vírus vai modificando seu genoma para ter uma eficiência maior e se preservar na natureza. Se continuarmos com essa alta transmissibilidade no Rio, a chance de aparecerem novas mutações mais contagiosas é grande.

Marilda explica que, além do respeito às regras sanitárias, o rápido avanço da vacinação é crucial para deter o aparecimento dessas variantes.

— As vacinas são muito importantes nesse momento, porque interrompem a transmissão e funcionam contra todas as variantes — avalia.