Covid-19 avança e causa temor de segunda onda

Ana Letícia Leão, Célia Costa, Dimitrius Dantas, Felipe Grinberg e Leticia Lopes
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Foto: Gabriel de Paiva / Extra
Foto: Gabriel de Paiva / Extra

Um repique que ainda não se sabe se pode virar uma segunda onda. Os números preocupam. Levantamento aponta que o Rio de Janeiro foi a cidade do país que mais teve aumento de mortes por Covid-19 nas duas semanas que antecederam o dia 17 de novembro. Foram 505 mortes no período contra 404 óbitos ocorridos em São Paulo, que sempre apresentou os piores índices. O Rio só fica atrás em números de casos, que voltaram a disparar: nos mesmos dias, mais 15.476 pessoas na capaital paulista foram infectadas contra 8.045 pacientes cariocas.

No município do Rio, que, pelos parâmetros científicos, ainda não teria saído da primeira onda, especialistas tentam entender esse novo pico, num cenário de desmonte dos hospitais de campanha e de flexibilização do controle sanitário.

O pesquisador Wesley Cota, da Universidade Federal de Viçosa (MG), destaca que o deslocamento da mancha do coronavírus, que há alguns meses era mais forte nas regiões Norte e Nordeste, não ocorre por acaso:

— A onda epidêmica se move novamente para as regiões Sul e Sudeste. É natural e esperado que a epidemia atinja com mais intensidade lugares diferentes em momentos diferentes, como acontece agora com as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, e essa incidência depende do comportamento social das pessoas em cada cidade, por exemplo, pelo nível de isolamento social e restrições adotados e uso de máscaras.

Na cidade do Rio, a taxa de ocupação de leitos de UTIs para pacientes com Covid bate recorde, alcançando 97% das 251 vagas disponíveis, o que pressiona grandes unidades, muito procuradas pela população, como o Hospital Miguel Couto, na Gávea. Em toda a rede SUS no município — que inclui vagas estaduais e federais —, 80% estavam ocupadas ontem. Em 18 de outubro, na Grande São Paulo, 40,5% das UTIs estavam com pacientes. Ontem, o número saltou para 43,1%.

Com Rio e São Paulo puxando de novo os números da doença para cima, fica difícil separar o que é medo da população e o que é crescimento do contágio. Fato é que a Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica constatou aumento de 30% do número de exames para detecção da Covid-19 no país nos últimos 15 dias. Também há, no mesmo período, aumento de 25% no volume de resultados positivos para o coronavírus.

Números crescentes

O Estado do Rio soma mais 224 mortes por Covid e 2.387 novos casos confirmados ontem, atingindo o maior índice diário de óbitos desde 30 de junho. A média móvel de mortes é de 104, aumento de 88% em relação a duas semanas atrás. Já a média móvel de casos é 1.6785, ficando 103% superior.

Dados consolidados ontem à noite pelo consórcio de veículos de imprensa sobre a pandemia mostram que o país registrou 754 mortes pela Covid-19 nas últimas 24h, chegando a de 167.497 óbitos desde o começo da pandemia. Com isso, a média móvel de mortes no Brasil nos últimos sete dias foi de 584, a maior desde 11 de outubro e um aumento de 49% em comparação a 14 dias atrás. Como na véspera, é de novo a maior alta registrada desde maio. A média móvel de mortes cresceu em 14 estados e a de casos, em 20.

Necessidade de novos leitos

Cientistas acham que algumas cidades, como o Rio de Janeiro, se precipitaram ao desmontar o aparato de atendimento aos doentes e oferta de vagas. O fechamento de hospitais de campanha, que ainda ficaram no meio de denúncias de corrução, é um dos alvos principais. A providência imediata, na opinião de Ligia Bahia, especialista em saúde pública da UFRJ, é preparar os hospitais e abrir leitos:

— O que está acontecendo é resultado da decisão caótica e absurda de abrir bares, restaurantes, permitir festas. Ao mesmo tempo em que as aglomerações foram permitidas, fechamos leitos. Não acredito que consigam reabrir os hospitais de campanha, mas é preciso montar uma retaguarda. É preciso fortalecer a atenção básica, aumentar a testagem e fazer o rastreamento de casos.

O infectologista Roberto Medronho fala em “repique da primeira onda”.

— Pode ser um alarme falso? Pode, mas não acredito que seja apenas uma flutuação. Na dúvida, não podemos arriscar — diz.

A desmobilização da rede hospitalar como um todo é um fator de risco. Marcos Junqueira do Lago, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Uerj, cita como um grave erro a desmobilização ocorrida na rede hospitalar.

— A gente ainda não saiu da primeira onda. Na Europa, fizeram um lockdown rigoroso e assim conseguiram frear a disseminação. Aqui no Brasil a primeira onda foi muito forte nos meses, houve uma diminuição do número de mortes, mas não conseguimos interromper a transmissão. A média móvel de mortes mais baixa chega a 300 mortos por dia, o que é um patamar altíssimo. Com esses números, não poderia haver desmobilização e nem o fechamento de hospitais de campanha. Todos os especialistas alertaram para o recrudescimento — analisa Lago.

Para frear contágio

A microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, Natália Pasternak, ressalta os alertas dados para que as autoridades de saúde não promovesse o desmonte dos hospitais de campanha antes de uma vacina.

— Nos preocupa a possibilidade de ocorrer aqui uma segunda onda tão forte como na Europa. Ainda não estamos na mesma situação. Para frear a disseminação do vírus vamos precisar de novo da mudança de comportamento das pessoas. Temos que conseguir conscientizar a população de que o controle da Covid-19 é colaborativo. É preciso usar máscaras, evitar festas e qualquer aglomeração — alerta a virologista.

No país, a região Sul é a que tem maior taxa de transmissão. Segundo dados do Info Tracker, que monitora o avanço dos casos, a taxa média dos três estados do Sul alcançou 1,8 ontem, bem acima da média do Brasil, que é de 1,15. A ferramenta é do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria, desenvolvida por professores da USP e Unesp com base nos registros das autoridades de saúde.

— Acima de 1, há descontrole na transmissão do vírus — explica Wallace Casaca, um dos cientistas responsáveis.

Outro indicador ruim para a região é o tempo médio de internação. Lá, cada doente fica internado por 23 dias, quatro a mais do que a média brasileira. Na região Sudeste, por exemplo, essa média é de 18 dias.

Hospital do Riocentro ficará aberto

O prefeito Marcelo Crivella, diante dos números, apenas anunciou que o hospital de campanha do Riocentro, que fecharia em dezembro, ficará aberto enquanto houve demanda. Já o governo de São Paulo afirmou que não há indícios de novo pico da doença e não respondeu sobre possível endurecimento da quarentena.

Apesar do recrudescimento da doença, Hubert Alqueres, do Conselho Estadual de Educação, não acha que seja o caso de suspender as aulas, que estão voltando gradativamente:

— O problema não está dentro da escola.

De acordo com Percival Maricato, presidente do conselho estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo, a situação é de extrema preocupação.

— Os proprietários de bares e restaurantes tomaram dinheiro em banco, deixaram de pagar tributos, suspenderam contratos com fornecedores. O desastre continua para o setor, e ainda temos que pagar os empréstimos — comenta, reconhecendo que um repique do coronavírus pode ser devastador também para a economia.