Covid-19: Bolsonaro distorce fala de Angela Merkel sobre lockdown na Alemanha

Gabriel Melloni
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Bolsonaro distorceu fala de Merkel para atacar novamente o lockdown (Andressa Anholete/Getty Images)
Bolsonaro distorceu fala de Merkel para atacar novamente o lockdown (Andressa Anholete/Getty Images)
  • Bolsonaro conversou com seus apoiadores e voltou a criticar o lockdown

  • Para isso, porém, distorceu uma fala de Angela Merkel sobre o recuo da medida na Alemanha

  • Presidente afirmou que o governo "está funcionando, mas isso não aparece"

Jair Bolsonaro (sem partido) distorceu uma fala da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para atacar novamente os pedidos por lockdown no Brasil. Em rápido encontro com seus apoiadores nesta quinta-feira, em Brasília, o presidente repercutiu a decisão do país europeu de recuar após anunciar medidas mais rígidas de isolamento.

“A Angela Merkel ia fazer um lockdown rigoroso lá, mas cancelou. E pediu desculpas. Ela falou, segundo a imprensa, que os efeitos do ‘fechar tudo’ são muito mais graves do que os efeitos do vírus”, declarou.

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Merkel, de fato, desistiu de promover o confinamento total durante o feriado da Páscoa e chegou a pedir desculpas ao povo alemão em pronunciamento na última quarta. Ao contrário do que disse o presidente, porém, a explicação não tem relação com os “efeitos do fechar tudo”, e sim com o curto período para implantação das medidas.

"A ideia foi um erro. Havia boas razões para optar por ela, mas ela não pode ser implementada suficientemente bem nesse curto período de tempo", disse ela. “Esse erro é somente meu. Lamento profundamente e peço desculpas a todos os cidadãos.”

Angela Merkel voltou atrás na decisão de intensificar o lockdown alemão (AP Photo/Markus Schreiber)
Angela Merkel voltou atrás na decisão de intensificar o lockdown alemão (AP Photo/Markus Schreiber)

Ainda durante o contato com seus seguidores, Bolsonaro afirmou que “o governo está funcionando, mas isso não aparece”.

O presidente tem repetidamente criticado a adoção de lockdown no país e chegou a argumentar que o confinamento é característico de “governadores de esquerda”, ignorando nações como Reino Unido e a própria Alemanha, lideradas por políticos de direita e que, ainda assim, aderiram à medida.

Araraquara decretou lockdown, colhe benefícios e também tem dados distorcidos

No Brasil, algumas cidades também implementaram o sistema de lockdown. No interior de São Paulo, Araraquara optou pelo confinamento no fim de fevereiro, após registrar agravamento da pandemia com a circulação da nova variante do coronavírus.

Passado um mês, a cidade registrou diminuição de casos e internações, se levados em consideração os números do fim de fevereiro, e até mortes, em comparação com os registros do início de março.

Prefeita Suéllen Rosim descartou ser
Prefeita Suéllen Rosim descartou ser "negacionista" - Foto: Divulgação/Prefeitura de Bauru

Mesmo assim, também teve os dados distorcidos por políticos contrários ao lockdown. Em entrevista ao UOL, a prefeita de Bauru, Suéllen Rosim, chegou a afirmar que a medida “não funciona” e usou Araraquara como argumento. Admiradora confessa de Bolsonaro, ela alegou que é “realista, não negacionista”.

“(O lockdown) não funcionaria em Bauru. Araraquara é prova disso. Os casos diminuíram, mas o número de mortes segue subindo. É um novo quadro com essas cepas. Não tenho dificuldade em tratar a realidade”, argumentou, erroneamente.