Covid-19: casal de idosos se reencontra após ficar internado e separado quase 20 dias no Pedro Ernesto

Ludmilla de Lima

RIO — Referência para casos mais graves de Covid-19, o Hospital Universitário Pedro Ernesto, em Vila Isabel, foi tomado pela emoção na tarde desta terça-feira durante a alta de um casal de idosos que estava há quase 20 dias internado em enfermarias separadas. Casados há 48 anos, Almir e Marlene Belmonte, ambos com 68 anos, passaram as últimas semanas conversando apenas pelo celular e se vendo somente ao longe. É que os dois estavam no 5º andar da unidade, mas ele na enfermaria masculina, e ela na feminina. Por causa da doença, não podiam ter contato físico. O máximo que podiam fazer era mandar coraçõezinhos com as mãos um para o outro.

A saída deles nesta terça do hospital foi acompanhada de muitos aplausos pelas equipes. Os dois, declaradamente apaixonados, contaram que foi a primeira vez, nesses quase 50 anos juntos, que ficaram assim afastados. Antes de deixar a enfermaria, Marlene contava em lágrimas:

— A gente nunca se separou. E tem mais de 13 dias que não toco nele — dizia a dona de casa, com a voz embargada. — Com essa doença agora vivi a pior fase da minha vida, por causa dessa separação nossa, que nunca tinha ocorrido desde que ficamos noivos. Primeiro vem Deus na minha vida, depois ele.

Motorista da Vigilância Sanitária municipal, Almir contava antes da alta que seu coração estava "saltitando". No dia 10 deste mês, ele levou a mulher à tenda para atendimento de suspeitos de coronavírus no Pedro Ernesto. Marlene apresentava febre, dor de cabeça e dificuldade para respirar. Eles, que se autodefinem como "cristãos evangélicos", moram no Cachambi e têm uma filha e uma neta, de apenas oito meses. Os dois são hipertensos.

— Ela foi atendida na tenda e ficamos na fila para poder levá-la ao consultório e o médico fazer avaliação. Quando verificaram a oxigenação viram que ela precisava ser internada. Naquela sexta-feira, garanto a você, não acreditava que ela voltaria mais, porque estava muito mal. E a gente sabe dos problemas do sistema de saúde desse país — afirma Almir, que agora é só elogios à equipe do Pedro Ernesto, para onde retornou três dias depois apresentando sintomas. — Eu nunca tive febre de 40 graus. Estou com 68 anos, e o máximo que tive até então foi febre de 39. Eu tremia igual vara verde. Mas  fui muito bem atendido por uma equipe muito bem preparada. O Pedro Ernesto não deve nada aos melhores hospitais particulares.

Durante o tempo de internação, os enfermeiros também faziam a ponte entre os dois:

— Ao longo do dia a equipe sempre levava recados e passava um pouco de informação sobre o quadro de um para o outro — afirma a enfermeira Andreia Fontes da Paz, responsável pela primeira enfermaria dedicada ao novo coronavírus no hospital.

Pais de  Marcelle e avós de Anna, os dois, que ajudavam a filha na criação da menina, não veem a hora de poderem pegar a neta no colo. No entanto, Almir e Marlene também não poderão sequer se abraçar ou beijar nos próximos dias: a recuperação envolve um certo afastamento dos dois mesmo estando na mesma casa. Tanto que não houve abraço hoje no reencontro no hospital.

— Você imagina o que é ficar longe dela durante a internação a uma distância de 12, 13 metros sem poder tocá-la, fazer carinho nela. Ela fazia um coraçãozinho para mim, dava um adeus de longe. Mas ali eu tinha certeza que iríamos sair dessa - lembra Almir, que acredita ter pego o vírus pela mulher, que, por sua vez, teria sido infectada durante compras no mercado. - Nós fizemos de tudo para evitar essa Covid-19. Lavávamos roupas e sapatos quando chegávamos em casa, esterilizávamos tudo. Não somos de aglomeração, assistimos aos cultos pela televisão. Esse vírus é demoníaco, brabo demais.

Na enfermaria ainda, antes de rever o marido, Marlene, muito emocionada, recordava os últimos dias.

— Sentia muita falta de ar, não comia nada. Pensei q não ia mais voltar pra casa. Senti muito medo — confessa, aconselhando. — Quem ainda evita usar máscara, que use. E que todos esperem em casa isso tudo passar, porque vai passar. Esse vírus não é de Deus.