Covid-19: comitê de notáveis acenou a Witzel sobre necessidade de lockdown no Rio

Arthur Leal
Rio tem registrado maior movimento nas ruas, como em Copacabana

RIO – O comitê de notáveis, que assessora o governo estadual sobre o enfrentamento do coronavírus, enviou ao gabinete de Wilson Witzel, através do secretário estadual de Saúde Edmar Santos, duas notas técnicas, onde recomendaram, não só a manutenção do isolamento por mais tempo, como também medidas de maior restrição, lockdown - isolamento completo. A análise foi preparada após reuniões nesta quarta-feira, um dia antes de Edmar sinalizar, em entrevista à TV Globo, a favor de lockdown no Estado do Rio, que vivencia a saúde em colapso e à beira do caos. Witzel decidiu, no entanto, publicar decreto estendendo o distanciamento até o dia 11 de maio. Ao EXTRA, afirmou não cogitar o fechamento completo, neste momento.

– O que escrevemos, em nossas recomendações enviadas ao governador, é que não há possibilidade alguma de volta à normalidade neste momento. Temos a constatação, também, de que a única forma de não haver o caos completo no sistema de saúde é com o isolamento completo, lockdown – afirmou Mário Roberto dal Poz, professor associado do Instituto de Medicina Social da UERJ, e membro do comitê de notáveis, que assessora o governo estadual.

O plano enviado a Witzel pelo comitê baseia-se na utilização de bandeiras (níveis) que apontam para o grau de gravidade da situação da pandemia (verde, amarela, laranja e vermelha), e prevê um plano de contingenciamento junto aos municípios e a estabelecimentos essenciais de forma personalizada. Hoje, o grupo de profissionais acredita que o Rio está na classificação vermelha.

–  Considerando os indicadores aos quais temos acesso, a única possibilidade de reduzir um pouco a pressão na rede de saúde é um isolamento social muito maior do que temos hoje. É preciso montar um mecanismo especial para o acesso a supermercados, farmácia, com algum controle. Em alguns lugares do mundo isso foi feito através de preenchimento de documento e a pessoa só saía com o papelzinho na mão. É realmente necessário que só estejam abertos os estabelecimentos que realmente são essenciais, e numa situação em que haja controle. Hoje você ainda encontra técnicos de telefonia nas ruas, pessoas que não podem transitar na areia mas vão pra orla etc – concluiu Dal Poz.

Para Edimilson Migowski, infectologista professor da UFRJ, além do isolamento completo, outros dois pontos devem ser observados para tentar frear o caos na rede de Saúde do estado.

– Eu acredito que há três frentes neste momento que devemos nos atentar para combater esse crescimento no número de casos e mortes, que vem criando pressão sobre a rede de saúde. A primeira frente é efetivamente ampliar ou inaugurar por completo os hospitais de campanha, o que ainda não foi feito. Muita gente está morrendo já nas UPAs, o que significa que não está escoando estes doentes para os hospitais preparados. O segundo ponto é adotar o lockdown e tentar monitorar rigidamente os locais de maior fluxo de pessoas, como as comunidades e bairros mais pobres.

O outro ponto destacado por Migowski é tratar as pessoas que estão apresentando os primeiros sintomas com os remédios indicados, e não mandá-las para o isolamento em casa. Muitos estão morrendo em casa – opina. Nós, responsáveis pela rede de saúde em geral, erramos quando não investimos na formação rápida de médicos já em janeiro quando vimos que o problema chegaria. Não se compra intensivistas como se compram materiais

Chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica do Instituto Evandro Chagas, o médico Fernando Bozza diz que a tendência é que o cenário atual piore e que a curva, do jeito que está, continue imprevisível. Para ele, o lockdown é uma saída possível no cenário atual.

– Nós precisamos caminhar para intensificar as medidas de isolamento social. O que nós estamos observando, e os dados mostram, é que com a migração da epidemia para as periferias e pequenas cidades, a taxa de transmissão está ainda mais elevada, e o sistema de Saúde sob estresse e capacidade de testagem ainda ineficiente. Adotar o lockdown, obrigar de fato as pessoas a ficarem em casa, com multas, fechando estabelecimentos, é de fato uma medida que ajudará na questão de diminuir a transmissão, e tudo leva a crer que é o que precisará ser feito nos próximos dias.

Para Bozza, nesse momento, não só no Rio, como no Brasil, de forma geral, não há qualquer apontamento para uma situação de controle ou estabilização.

– Há dificuldade em fazermos qualquer tipo de projeção sobre quando será o pico da pandemia, por exemplo – opinou.

Para ele, a mudança de comportamento dos cariocas já influi nos resultados.

– Nas últimas semanas, houve flexibilização progressiva por parte da população, muito em função das sinalizações confusas vindo do Planalto, e da chegada da doença em áreas mais carentes onde as pessoas não tem a opção do home office, por exemplo. Este combo de coisas acabou fazendo com que a epidemia tomasse uma nova dinâmica. No momento de apertar mais, as pessoas flexibilizaram.