Covid-19: Crivella anuncia respiradores chineses só na próxima semana e consultas à distância com médicos afastados

Luiz Ernesto Magalhães
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Marcelo Crivella: coletiva foi dada na tarde desta quarta-feira no terminal de cargas do Aeroporto do Galeão

Em meio ao agravamento da pandemia do novo coronavírus no Rio, o prefeito Marcelo Crivella disse, em coletiva nesta quarta-feira, que o primeiro lote de insumos com 300 respiradores, dois milhões de máscaras, 70 carrinhos de anestesia e outros artigos comprados na China, que serão empregados no tratamento de pacientes do Covid-19, só chegarão ao Brasil na próxima semana, dias 7 e 9 de maio. Os respiradores são tidos como essenciais para que as UTIs do Hospital Ronaldo Gazolla, em Acarí, e do hospital de campanha do Riocentro operem em plena capacidade. O prazo original divulgado pelo município informava que esses aparelhos chegariam ainda nesta semana.

As declarações do prefeito foram dadas no terminal de cargas do Galeão, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, onde Crivella acompanhou a chegada de dez tomógrafos, 110 aparelhos de raios e 20 autoclaves - aparelhos de esterilização - também importados da China. Outro lote de tomógrafos já havia chegado na semana passada. Prioritariamente, esses aparelhos serão empregados em exames de imagens para confirmar o diagnóstico de coronavírus. Parte desses equipamentos será usado na estruturação de uma nova central de imagens no Hospital Pedro II (Santa Cruz).

A prefeitura inicialmente esperava pegar uma ‘’carona’’ em voos patrocinados pelo governo federal para trazer os aparelhos, comprados no fim do ano passado para reequipar a rede pública, antes do Covid-19 fazer as primeiras vítimas na China. Mas o acordo não foi adiante e a prefeitura fretou aeronaves da Latam para trazer os equipamentos. As aeronaves fretadas só decolarão do Brasil para a China (com escalas em Amsterdã, na Holanda, na ida e na volta) nos dias 4 e 6 de maio. Segundo o prefeito, o Ministério das Relações Exteriores garantiu que a rota é segura para que os aparelhos não sejam arrestados.

Com 5.555 casos de Covid-19, sendo 456 óbitos confirmados até a terça-feira e leitos de UTI praticamente esgotados na rede pública, Crivella já anunciou que vai prorrogar a quarentena na cidade por tempo indeterminado, mantendo fechado parte do comércio e escolas. As medidas restritivas, que venceriam nesta quinta-feira, continuarão até que a rede de saúde tenha capacidade de absorver os pacientes.

— Temos um grupo científico formado por médicos, diretores de hospitais e professores da UFRJ e da Academia Nacional de Medicina. Todos são unânimes em afirmar que não podemos relaxar no isolamento social, sobretudo para preservar os idosos e as pessoas com comorbidade. Ainda não estou com o hospital de campanha pronto e já perdemos mais de 400 vidas na cidade do Rio de Janeiro. Como eu vou enfrentar o dilúvio sem uma arca? Além disso, quem tem que sair, deve usar máscara. Estamos plantando sacrifícios para colher vidas — reiterou Crivella, que voltou a não dar prazo para suspender as restrições.

Crivella anunciou também que os médicos e outros profissionais de saúde que estão afastados da rede pública por terem adoecido com o novo coronavírus vão exercer a chamada telemedicina. O programa começará pelo Hospital Souza Aguiar, onde um consultório já passa por adaptações para receber a plataforma.

— Os médicos vão conversar de suas casas com os pacientes pelo computador. Serão profissionais clínicos — revelou.

Por falta de respiradores, o hospital de campanha do Riocentro será aberto parcialmente na próxima sexta-feira (1) , provavelmente com apenas 100 dos seus 500 leitos programados. Desse total, 80 de clínica geral e 20 de CTI. Ao todo, esta unidade do Riocentro foi projetada com cem vagas de CTI, que dependem dos respiradores. O Hospital de Acari tem 203 de seus 380 leitos projetados para atender UTIs, mas hoje funcionam cerca de cem, por falta de equipamentos. Um outro lote com 400 respiradores, também comprados na China, tem chegada prevista para depois do dia 20 de maio.

Também há dificuldades para recrutar pessoal para o hospital de campanha pela Empresa Pública de Saúde, que está admitindo profissionais por contratos temporários de seis meses. Nessa quarta-feira, o prefeito admitiu que precisará deslocar profissionais de outras unidades para completar os quadros.

— Temos algumas clínicas de saúde da família que estão com pouca atividade, devido ao coronavírus e ao afastamento social. Graças a Deus não teremos problemas de pessoal no hospital de campanha — acrescentou Crivella.

Na semana passada, a prefeitura chegou a entrar na Justiça para tentar receber 80 tomógrafos que comprou em 2019 de uma empresa em São Paulo, também em concorrência pública. O caso acabou num imbróglio jurídico já que a Magnamed argumenta em juízo que em fevereiro venceu o prazo para a prefeitura honrar o contrato. Antes desses voos fretados pela prefeitura chegarem ao Rio, para o próximo sábado está prevista a chegada de 20 respiradores e 40 monitores da China de carona em uma aeronave da Vale do Rio Doce.

Crivella disse que parte dos equipamentos que virão na semana que vem e não forem usados no Gazolla e no Riocentro serão destinados a outros hospitais da prefeitura, que também poderão abrir leitos de UTIs para Covid, havendo vagas para receber pacientes que precisem de cuidados intensivos. Eles devem equipar os Hospitais Pedro II (Santa Cruz), Evandro Freire (Ilha do Governador) e o Miguel Couto (Gávea).

— Equipando o Gazolla e o hospital de campanha, sobrarão cerca de cem equipamentos para os nossos (outros) hospitais. Com a pandemia, as cirurgias eletivas foram suspensas,  e, graças a Deus, os óbitos por violência e acidente de trânsito e trabalho diminuíram. Poderemos atender à população — disse o prefeito, que anunciou também que as duas unidades de referência terão um sistema de tablets para que os pacientes e parentes possam ter contato, em ligações via Whats App. Ao todo, serão 30 aparelhos no Gazolla e 70 no hospital de campanha.

Crivella disse ainda que poderá emprestar os respiradores que chegam no fim do mês de maio para unidades federais e hospitais de campanha abrirem mais leitos de UTI no Rio. A prefeitura já está fazendo a intermediação para contratar profissionais de saúde e abrir mais leitos nos hospitais de Bonsucesso e Clementino Fraga Filho (Fundão).

Bispo licenciado da Igreja Universal, Crivella fez outras citações bíblicas além da arca de Noé para defender o isolamento social.

— A fé tem que ser inteligente. Às vezes, as pessoas falam: 'tenho fé em Deus, vou para a rua'. Você lê a bíblia e vê lá que, no deserto, as mulheres quando estavam em seu período de menstruação não podiam ter relações porque não podiam ter acesso a banho, meu Deus. O homem não cortava o prepúcio... Quando iam para a guerra e tocavam em um defunto, tinham que ficar 30 dias fora do arraial. Porque Deus dava essa regra para a gente. Porque a fé é inteligente. Então, temos que cuidar do nosso corpo e da nossa saúde. Posso não sentir nada, mas prejudicar alguém que seja diabético, um idoso... Não sei mais que argumentos usar. Agora é hora de construir a arca, não de fazer dilúvio — acrescentou o prefeito.