Covid-19: enquanto casos aumentam no Brasil, spas de luxo reabrem; infectologistas são contra

Talita Duvanel

Em 24 de abril, o spa Kurotel, localizado em Gramado, a cerca de 1h50m de Porto Alegre, reabriu depois de mais de um mês fechado. Na mesma noite, o Brasil confirmou 3.704 mortes por Covid-19. Cinco dias depois, quando o país chegou a 5.513 óbitos causados pelo novo coronavírus, o Rituaali Clínica & Spa (em Penedo, a pouco mais de 2h do Rio) fez a mesma coisa: recebeu sua primeira leva de hóspedes após quase seis semanas sem funcionar.

Registrados como atividades de saúde (o que garante a legalidade de suas operações mesmo com a restrição de diversos negócios), ambos fazem parte de um exclusivo rol de spas cujos pacotes para sete dias, em tempos de pandemia, podem chegar a R$ 17.990 (para duas pessoas, no Rituaali) e a R$ 19.729 (para duas pessoas no Kurotel, já efetuado o desconto dado no mês de maio). Enquanto cientistas e autoridades discutem a melhor forma de reabrir serviços, principalmente num momento em que a curva de infecções se mostra em ascendência, esses espaços já se adiantaram e abriram as portas. Para quem ainda tem grana para gastar, mesmo com os revezes econômicos provocados pelo coronavírus, as promessas soam tentadoras: aumento de imunidade — por meio de programas alimentares, regulação de sono e atividades físicas — e alívio de estresse e ansiedade.

“A maioria dos clientes que recebemos (até agora) estava trabalhando de casa, em momentos tensos, com medo da situação e sentindo o impacto da quarentena na saúde mental e física. São pessoas que perceberam que não estão conseguindo se alimentar legal nem dormindo bem”, explica a nutróloga e diretora técnica do Rituaali, Tammy Reis.Mariela Silveira, diretora médica do Kurotel, fala em regular estilo de vida para o enfrentamento da Covid-19. “Nosso objetivo é fortalecer a pessoa para que ela passe (pela pandemia) da melhor forma possível. Por isso achamos importante fazer a abertura”, diz Mariela.

A presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia no Rio de Janeiro, Tania Vergara, pensa diferente. “Discordo de que essa volta seja adequada. As pessoas têm que entender que a quarentena é o que precisamos agora. Uma boa alimentação e um sono regular melhoram a imunidade, mas você precisa mesmo se internar para isso neste momento?”, pondera Tania. A infectologista Lessandra Michelin, professora da Universidade de Caxias do Sul, concorda. “O fato de ir a um spa para fazer alimentação correta e terapias não garante esse aumento. Não há como dosar. Até porque esse estímulo tem que ser feito a longo prazo”, diz Lessandra.Quanto às propostas de controle de estresse e ansiedade, Tania recorre ao argumento da telemedicina. “Psicólogos, psiquiatras e médicos do mundo todo estão fazendo atendimento on-line justamente para evitar contato.”

Os dois spas garantem funcionar com número reduzido de hóspedes para minimizar encontros, e eles passam por uma entrevista médica não presencial para detalhar pormenores da saúde. Todos os funcionários são testados para Covid-19, assim como os clientes, que precisam se submeter a exames pelo menos 15 dias antes do check-in e se comprometer a fazer um isolamento até a data da partida. E como garantir que, após a análise, o futuro hóspede cumpriu o combinado? “É uma aposta”, diz Tammy. “Não assumimos que existe risco zero. O que estamos fazendo são medidas de proteção aqui dentro.” Mariela, do Kur, segue o mesmo caminho: “Não tenho 100% de certeza de que não vai chegar ninguém (infectado). Mas vamos ajudar mais estando abertos do que fechados. Trabalhamos sendo medicina de prevenção e estilo de vida”.

Lessandra Michelin acredita que a prevenção está mais dentro de casa do que fora. “É nossa responsabilidade social a não aglomeração. Por isso que, como médica, eu só posso dizer: ‘Fique em casa, procure fazer seu esporte dentro do domicílio e tente sair o menos possível’. Mesmo com teste negativo, a pessoa pode ter o vírus e estar transmitindo-o, por isso a importância do isolamento.