Covid-19: enquete aponta que 72% das pessoas negras têm medo de sair de máscaras

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Pesquisa foi realizada no Twitter do Alma Preta; psicólogo fala sobre efeitos. Foto: Blavity News
Pesquisa foi realizada no Twitter do Alma Preta; psicólogo fala sobre efeitos. Foto: Blavity News

Texto / Aline de Campos | Edição / Simone Freire

Os impactos da pandemia do Covid-19, o novo coronavírus, na realidade da população negra brasileira tem suas diversas nuances. Pesquisa do Alma Preta realizada pela sua rede social Twitter apontou que 72% das pessoas negras que responderam à enquete se sentiam correndo risco de ataques raciais ao usar máscaras de proteção para transitar pela cidade.

Nos comentários da publicação, depoimentos e relatos de situações variadas. Tenho medo, “principalmente quando passo por policiais”, disse um internauta. Outro, relatou que desistiu de usar óculos para proteção com medo de também ser atacado pela polícia: “pensei nisso na hora que ia colocar os óculos”.

Leonardo Pinto, de 37 anos, participante da enquete no Twitter, falou à nossa reportagem sobre sua preocupação. Morador do centro do Rio de Janeiro, diz que mesmo evitando sair, às poucas vezes em que precisa ir a supermercados e farmácias, percebe olhares de incômodo e medo direcionados à ele por fazer uso de máscara de proteção.

E os depoimentos pela internet de multiplicam. No Rio de Janeiro, por exemplo, no início do mês de abril, um jovem de São Gonçalo denunciou uma abordagem discriminatória a qual foi submetido enquanto fazia compras em uma da loja de conveniência. Ele usava um moletom da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde cursa Relações Internacionais, e uma bandana como máscara para proteger-se contra o novo coronavírus.

Ao adentrar o estabelecimento foi abordado por um segurança que se dirigiu à ele de modo agressivo. “Ele me constrangeu porque gritou comigo no meio da loja”, relatou o garoto em suas redes sociais. “Só quem é negro entende”, frisou.

Mundial

Nos Estados Unidos, a população negra tem registrado taxas desproporcionalmente altas de infecção e mortalidade pelo novo coronavírus. E a realidade com as máscaras de proteção parece não ser diferente da do Brasil. O professor universitário Aaron Thomas publicou , em suas redes sociais, parte de seu artigo publicado no Boston Globe em 5 de abril. Lá, ele descreve como o medo de perder a vida pelo racismo pode ser ainda maior que contrair o Covid-19.

“Eu pensei que poderia usar uma das minhas bandanas antigas como máscara. Mas então minha voz de autoproteção me lembrou que eu, um homem negro, não posso entrar em uma loja com uma bandana cobrindo a maior parte do meu rosto, se também espero sair dessa loja vivo”, disse.

Saúde mental

Os receios não são à toa. No Brasil, 75% das vítimas de homicídio são negras, de acordo com o Atlas da Violência, divulgado em 2019. No estado do Rio de Janeiro, de acordo com informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no mesmo ano, a população negra teve 2,7 mais chances de ser vítima de assassinato do que os brancos.

Estes dados, somado as manifestações de racismo em tempos de pandemia, levantam uma discussão sobre os impactos na saúde mental de negros e negras. “Se pensarmos a relação do Covid-19 com a população negra, o que temos visualizado é justamente algo que atinge todas e todos, mas que a redistribuição dessa vulnerabilidade é desigual”, diz o psicólogo Paulo Vitor Palma Navasconi.

Também professor de Psicologia no Centro Universitário Cidade Verde (UNIFCV), em Maringá (PR), e membro do coletivo Yalodê-Bada, Paulo alerta para uma importante reflexão sobre o possível aumento de inúmeros efeitos, sobretudo, psicológicos diante da pandemia.

“A intensificação da sensação de medo, de perseguição, crises de ansiedade, dentre outras sensações decorrente de uma realidade que já vivenciavam no seu cotidiano, agora, torna-se mais presente, e, assim, ao sair de suas casas terão que enfrentá-lo. Haja vista que, para a maioria dos negros do país, é preciso sair de casa e trabalhar para sobreviver”, destaca. Para o psicólogo, este momento de pandemia deixa claro que o racismo se atualiza e se expressa de diferentes maneiras.

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