Covid-19: França atinge pico de infecções da sétima onda, mas hospitais continuam sob tensão

REUTERS - VIOLETA SANTOS MOURA

Em seu último relatório de 62 páginas, publicado nesta quarta-feira (19), o Conselho Científico francês, criado para ajudar o governo a gerenciar a crise sanitária no país, lista uma série de recomendações para a gestão da epidemia nos próximos meses. Nesta sexta-feira (22), o presidente do órgão, Jean-François Delfraissy, disse que a sétima onda de infecções, provocada pelas variante BA.5 da ômicron, atingiu seu pico, mas os hospitais deverão continuar sentindo o impacto das contaminações.

De acordo com o imunologista francês, que deixará o cargo no fim do mês, há uma defasagem entre as infecções e as internações pela Covid-19 de cerca de 15 dias. "O impacto continuará nos hospitais. Nós já estávamos cientes disso desde junho. Em algumas regiões francesas, como no sudoeste ou na Riviera Francesa, a situação poderá continuar tensa, por conta do movimento da população nas férias", explicou Delfraissy em entrevista à rádio francesa France Info, nesta quinta-feira (21).

No documento intitulado "Vivendo com as Variantes", consultado pela RFI, o grupo de 16 cientistas franceses lembra que a pandemia não acabou e que é necessário antecipar os diferentes cenários para prevenir situações mais drásticas, como o lockdown no início da epidemia. O Conselho Científico deixará de existir a partir de 31 de julho com o fim do estado de emergência sanitária na França. Em mais de dois anos, o grupo realizou cerca de 300 reuniões.

O relatório divide a crise sanitária em três momentos, desde o seu início. Em 2020, a população teve de ficar trancada e medidas de restrições, como o toque de recolher, pontuaram o cotidiano. Já o ano de 2021 foi marcado pela descoberta das vacinas e a chegada de novas variantes. 2022 marca a era ômicron e gera incertezas sobre como será a evolução do SARS-CoV-2. Uma das conclusões apontada pelos cientistas é que o vírus não desaparecerá e novas ondas ocorrerão com regularidade, motivadas pelo aparecimento de novas cepas.

Mais contagioso e menos grave?

Uma das hipóteses mais otimistas e plausíveis, escrevem os cientistas, é de que o vírus evolua se tornando cada vez mais contagioso, mas provoque menos formas graves, se aproximando de um resfriado comum. Mas é difícil saber quando isso acontecerá e de que maneira: a emergência de uma variante mais perigosa também não pode ser descartada. O vírus circula livremente nas populações e isso cria um ambiente propício para a aparição de outras cepas. "Uma evolução mais benigna da ômicron não é dada como certa. A intensidade da circulação do SARS-CoV-2 dependerá da qualidade, da especificidade e da duração da imunidade na população", diz o documento.

Nos próximos anos, a tendência é que o vírus se mantenha em um patamar elevado de circulação, com ondas epidêmicas mais acentuadas durante o outono e o inverno, duas estações que favorecem a transmissão. A boa notícia, lembram os cientistas franceses, é que os dados atuais mostram que a imunidade contra as formas graves, após três vacinas, se mantém eficaz e estável, ainda que não impeça a infecção.

O Conselho Científico francês ressalta que pessoas mais velhas e com fatores de risco deverão ter acesso a reforços regulares. De acordo com o órgão, uma nova campanha de vacinação poderá ser lançada no outono no hemisfério norte, em setembro. Resta saber com qual vacina: Moderna e Pfizer preparam imunizantes com cepas da ômicron BA.1, mais eficazes do que a vacina atual e que estariam disponíveis dentro de alguns meses. A grande expectativa, entretanto, envolve os imunizantes que protejam contra a BA.4 e a BA.5, sem data prevista de lançamento.

O Conselho Científico também imagina três cenários para o outono francês. O primeiro envolve variantes que já estão em circulação da cepa ômicron, o que não implicaria em um grande impacto nos hospitais e, desta forma, não exigiria a adoção de medidas mais drásticas pelo governo. O segundo cenário, considerado provável, envolve o aparecimento de uma nova subvariante da linhagem ômicron. Neste caso, o retorno da máscara em locais como no transporte público, por exemplo, seria necessário

Por fim, o cenário 3, também possível, é o de que uma variante totalmente diferente apareça e obrigue as autoridades à imposição de novas medidas restritivas, como a generalização da obrigatoriedade do uso da máscara, retorno do isolamento obrigatório de casos positivos e campanhas de testes.

O Conselho propõe, na conclusão, mais atenção em relação à qualidade do ar, com a aquisição e instalação de sensores de CO2, testes nas escolas para evitar surtos e o monitoramento das águas de esgoto, que permitiriam antecipar o aparecimento de uma nova cepa. O documento chama também a atenção para o impacto da Covid longa e das sequelas provocadas pelas infecções, além do efeito da epidemia sobre a saúde mental dos franceses, "cujo impacto é indiscutível" e deve ser levado em conta nas decisões.

(Da RFI)

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