COVID-19, uma inimiga com muitos aliados

Por Pierre-Henry DESHAYES
Ilustração da COVID-19

A COVID-19 é uma "inimiga da humanidade", nas palavras da Organização Mundial da Saúde (OMS), e o mundo se mobilizou para derrotá-la. Mas a doença tem muitos aliados no dia a dia.

O vírus é transmitido sobretudo por via respiratória, mas também por contato físico e a linha de frente geralmente está em casa, nos objetos da vida diária.

Do botão do elevador ao vaso sanitário, tudo pode ser considerado um inimigo, enquanto outros objetos provocam suspeitas injustificadas.

* Os grandes inimigos

"Qualquer objeto ou superfície que tenha sido tocada ou contaminada por tosse, saliva ou excrementos pode ser infeccioso", destaca Amandine Gamble, pesquisadora do Laboratório Lloyd-Smith da Universidade da Califórnia.

Um estudo publicado na semana passada na revista americana NEJM mostra que o novo coronavírus sobrevive por até dois ou três dias em superfícies de plástico ou aço inoxidável, e até 24 horas em papelão.

Como os dados não foram obtidos em condições experimentais, não significa que a quantidade de vírus que permanece é suficiente para continuar sendo contagiosa.

"É preciso ter cuidado sobretudo com os objetos e as superfícies que entram em contato com muitas pessoas, como as mesas das cafeterias, as barras de metal nos transportes públicos, as maçanetas da portas, os botões dos elevadores e os interruptores das áreas comuns", ressalta a pesquisadora.

"Como não é possível evitar por completo tocar nestes objetos e superfícies (por exemplo no caso das pessoas que vivem em edifícios ou quando fazemos compras) é importante lavar as mãos e evitar tocar no rosto para não infectar-se, assim como tossir no cotovelo ou espirrar em um lenço para evitar infectar os outros", completa.

Para Brandon Brown, epidemiologista da Universidade da Califórnia, o inimigo é o o que usamos no exterior e transportamos para o interior".

"Em uma loja, podemos pegar nossa carteira depois de tocar em superfícies ou outros objetos (infectados) e depois retirar dinheiro, cartão, nossa identidade, e tudo isso pode ser exposto", explica.

* Os inimigos insidiosos

Não se descarta que a SARS-CoV-2 (nome científico do novo coronavírus que provoca a doença COVID-19) possa ser transmitido por via fecal, segundo um estudo publicado na revista Nature em 13 de março por cientistas chineses, que detectaram rastros do vírus em mostras retais de crianças.

"Se for confirmado o vetor fecal, também será necessário desconfiar dos vasos, algo que pode parecer contraintuitivo para uma doença respiratória, mas que já foi observado no passado com o o coronavírus que originou a epidemia de Síndrome Respiratório Aguda Grave (Sars) em 2002-03", afirma Amandine Gamble.

"As determinações neste caso são higienizar o vaso sanitário com frequência e, sobretudo, abaixar a tampa antes de dar a descarga para evitar dispersar as gotículas infectadas", disse.

Não se sabe se o vírus detectado no estudo está suficientemente intacto para ser infeccioso. Isto só pode ser confirmado por meio de cultivo.

O telefone celular também pode ser um inimigo.

"Usamos nossos telefones celulares o dia todo, em casa, no trabalho (você deveria estar em casa), na loja comprando suprimentos: há muita exposição", explica Brandon Brown.

François Balloux, professor de Biologia de Sistemas Informáticos na University College de Londres, discorda ao ser questionado sobre operações para desinfetar os celulares.

"Não faria mal, mas a menos que compartilhemos nossos telefones com outras pessoas, não é óbvio para mim como desinfetá-los poderia nos proteger ou limitar a disseminação da COVID-19".

* Os falsos inimigos

Como está exposto ao contato manual, muitos podem suspeitar que o teclado do computador é um ninho de vírus, principalmente porque é feito de plástico e possui muitos espaços.

Mas alguns pesquisadores consideram que seu papel na propagação do vírus é menor, ou inclusive zero, se for considerado que seu proprietário, geralmente o único usuário, lava as mãos ao chegar em casa ou no trabalho.

Brandon Brown afirma que a água de torneira e os pratos quentes também são inofensivos.

"A água de torneira é tratada e a limpeza é feita de forma centralizada, não representa perigo no que diz respeito a COVID-19", afirma.

"A respeito da comida, caso os alimentos crus comprados tenham o vírus, este morrerá depois que você cozinhar o alimento", explica.