Covid-19: morre idosa que se infectou após cirurgia ortopédica no Hospital Adão Pereira Nunes, em Caxias

Rodrigo de Souza
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Morreu na manhã da última quarta-feira (21) a dona de casa Sonia Bias da Silva, de 64 anos, que estava internada no CTI de Covid-19 do Hospital Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, onde a paciente deu entrada há cerca de um mês para uma cirurgia ortopédica. O sepultamento aconteceu neste domingo (25). Sonia sofreu com a escassez de remédios sedativos e bloqueadores neuromusculares do chamado “kit intubação”, tendo sido medicada com um coquetel improvisado, como o EXTRA contou no dia 15 de abril. Para o estudante em técnica de enfermagem Carlos Eduardo Silva, filho da paciente, Sonia foi infectada no próprio hospital e morreu em decorrência da falta de medicamentos; agora, ele pretende acionar a Justiça para apurar as circunstâncias de internação e morte da mãe.

Tudo começou com um tombo. No dia 25 de março, Sonia caminhava na calçada quando tropeçou num buraco e machucou o ombro. Carlos logo a levou ao Hospital Municipal de Belford Roxo, onde os médicos disseram que Sonia teria de passar por uma cirurgia ortopédica de razoável complexidade, para a qual a unidade não estava equipada. Eles recomendaram que Carlos levasse a mãe para o Hospital Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias.

Ele seguiu a orientação. Exames de imagem realizados no Adão Pereira Nunes ainda naquele dia apontaram uma luxação de terço proximal do úmero. O laudo médico produzido em 26 de março informou que Sonia teria de passar por uma cirurgia eletiva, “uma vez que não apresenta risco iminente à vida ou perda do membro”. O documento dizia ainda que Sonia, diabética e hipertensa, estava em “bom estado geral”, com picos de pressão e glicose que foram de pronto remediados.

Segundo Carlos, a aposentada acabou sendo operada só seis dias depois de dar entrada na unidade. Devido à pandemia, o hospital impediu que Carlos acompanhasse o processo de perto. O estudante chegou a recorrer ao plantão noturno da Defensoria Pública, que só aceita casos em que há risco iminente à vida ou à integridade de um cidadão. A DPRJ enviou um ofício ao Adão Pereira Nunes que requisitava a entrada de Carlos na unidade, citando trechos da legislação que respaldam a presença de acompanhantes de idosos nos hospitais, mesmo durante a pandemia.

Em resposta, a OS que gere o hospital, a Associação Mahatma Gandhi, enviou uma nota assinada pelo gestor da unidade, o médico Carlos Fontes Rodrigues, segundo a qual Sonia se encontrava “sob os cuidados médicos do setor de ortopedia, que não permite acompanhante por falta de espaço livre”, e as enfermarias operavam ao limite da capacidade. “Neste momento, por conta da segunda onda da Covid-19, estamos restringindo alguns setores para preservar o paciente e seus familiares de uma possível infecção”, completou a nota.

Sonia teve alta no dia seguinte à operação, diz Carlos. Ao buscar a mãe no hospital, ela estava “completamente apagada, em estado quase vegetativo”, conta o estudante:

— O hospital não nos informou nada. Só nos entregou ela em uma maca para levarmos para casa. Nós a trouxemos de volta porque achávamos que aquilo era efeito dos sedativos e ia passar em breve, mas não passou.

Pouco após a cirurgia, ainda no dia 1º de abril, Sonia chegou a enviar para Carlos um áudio de WhatsApp. Com a capacidade de fala sensivelmente comprometida, a aposentada contou ter sentido muita dor quando os médicos “puxaram” seu braço, e que, para aplacar seu desconforto, eles chegaram a lhe dar “muito diazepam”. Segundo especialistas, esta função não é desempenhada por nenhum ansiolítico, mas por analgésicos e soníferos como midazolam e morfina — fármacos à época escassos em unidades públicas de saúde do Rio.

— Eles puxaram muito meu braço, gritei muito, gritei muito. Minha pressão, glicose, tudo subiu. Eles me deram um monte de diazepam para ficar grogue para puxar meu braço para tentar aliviar a dor — disse Sonia.

Dias após voltar para casa, a aposentada ainda se encontrava em estado de letargia. Ela, que costumava ser ativa, bem disposta e jovial, agora balbuciava palavras desconexas, não conseguia andar e ficava desacordada a maior parte do tempo. No dia 3, Carlos chamou a Samu. Segundo ele, equipe da ambulância constatou que o nível de glicose no sangue de Sonia estava a 518mg/dL, cinco vezes mais do que a concentração limítrofe. Os profissionais medicaram a aposentada e recomendaram que ela permanecesse em casa, pois melhoraria em breve, conta Carlos. Mas Sonia não se recuperou.

No dia 5, Carlos retornou com a mãe ao Adão Pereira Nunes, onde, segundo ele, os médicos confirmaram que a paciente estava em estado grave. Os exames mostraram que ela estava com o sangue “muito ácido, a diabetes completamente descompensada”, conta Carlos. O homem acredita que algum problema não revelado pelo hospital aconteceu durante a cirurgia ortopédica:

— Não faz muito sentido uma pessoa entrar com uma fratura no braço, operar e voltar no estado em que ela voltou. E sem retornar ao estado normal por nada. Pode ser que ela tenha se intoxicado com diazepam. Mas não sei, porque o hospital não me informou.

Para completar, uma tomografia feita naquele mesmo dia apontou que Sonia estava com 25% de um pulmão comprometido, o que levou a médica do plantão a classificá-la como caso suspeito de Covid-19. O teste RT-PCR foi realizado horas depois, mas o resultado, positivo, só saiu no dia 11. Data em que Sonia foi submetida à intubação orotraqueal no CTI reservado à Covid-19, depois de piorar por seis dias consecutivos.

— Acredito que minha mãe se infectou durante a internação da cirurgia. Ela sempre foi muito cautelosa, usava máscara sempre, desinfectava os alimentos e as roupas. Aqui em casa, sempre respeitamos todos os protocolos — diz Carlos.

Antes de ser intubada, num momento de lucidez, Sonia fez uma videochamada com os dois filhos, com a ajuda dos enfermeiros do hospital. Nela, a idosa disse que se sentia bem e não tinha falta de ar nem febre, embora estivesse com “muita tosse”. Ela também relatou o medo da intubação e falou que não queria morrer.

— Minha boca está seca. Não posso beber água. A saturação (de oxigênio) não está subindo. Eu vou ser intubada. Estou com medo de morrer. Tenho medo de não sair — disse.

Dois dias depois, uma médica do hospital entrou em contato com Carlos para dizer que o estado de sua mãe tinha se agravado ainda mais, em decorrência da falta de medicamentos específicos para a intubação. Segundo ele, Sonia chegou a “chocar”, jargão médico para uma redução brusca dos parâmetros vitais: a pressão arterial da paciente chegou a 6 por 4.

Desde então, Carlos começou a percorrer estabelecimentos à procura de midazolam, fentanil e bloqueadores neuromusculares, como atracúrio e roncurônio:

— A sedação por diazepam não é a ideal, e por isso está leve. Minha mãe pode acordar, o que causará muita dor nela e pode prejudicar seu estado, já muito grave. Estou brigando com todo mundo para cuidarem dela. Estou desesperado — disse então o estudante de técnica de enfermagem.

Carlos conta que Sonia começou a receber as medicações adequadas no dia 15 de abril, após a publicação da reportagem do EXTRA que contou o drama de pacientes com Covid-19 intubados sem os recursos necessários para a sedação. Mas foi tarde demais, diz ele. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES), Sonia sofreu uma parada cardiorrespiratória às 6h40 da última quarta-feira.

A SES diz que a equipe médica do Hospital Adão Pereira Nunes chegou a realizar manobras de ressuscitação, mas não foi possível reverter o quadro. “Cabe esclarecer que, durante todo o processo de internação, a paciente foi acompanhada pela equipe médica, recebendo assistência compatível a seu caso clínico, considerando doença pré-existente e complicações da Covid-19”, pontua a pasta, por nota.

Quanto ao procedimento cirúrgico ortopédico, a direção do hospital afirma que as condutas médicas, que incluem a prescrição de medicamentos, “foram tomadas a fim de garantir a qualidade e a segurança na assistência”.

A SES diz ainda que informações clínicas de evolução do quadro eram passadas aos familiares, e que a direção da unidade permanece à disposição para outros esclarecimentos que forem necessários.

“A direção do HEAPN se solidariza com a família da paciente e com as de todas as demais vítimas da Covid-19. E reitera que sua equipe continua prestando a melhor assistência a todos os pacientes atendidos na unidade”, completa a nota.