Covid-19: Morre Lourdes Catão, aos 93 anos, símbolo da alta sociedade carioca

Ludmilla de Lima

RIO — Em 2008, Lourdes Catão assumiu a autoria do livro Sociedade Brasileira, espécie de guia da aristocracia do Rio, que começou a ser publicado nos anos de 1950. Era ela quem decidia quem podia entrar e quem devia sair do livro, antes sob a responsabilidade de sua irmã, Helena Godim. Festeira, ela seguia como um símbolo de uma época de ouro da alta sociedade carioca. Às vésperas do seu aniversário de 93 anos, no último 12 de março, ela promoveu um jantar em seu apartamento duplex no térreo do Edifício Biarritz, na Praia do Flamengo, a um colecionador de arte português de passagem pela cidade. Mesmo com idade avançada, mantinha uma agenda social.

No dia do seu aniversário, a filha, Bebel Klabin, promoveu um encontro dela com um grupo de mais de dez amigas. Na última quinta-feira, no entanto, Lourdes deu entrada no Hospital CopaStar com sintomas da Covid-19. A socialite, que estava internada, não resistiu à doença, falecendo no Dia das Mães.

Maria de Lourdes Prazeres Catão casou aos 18 anos com o empresário de Santa Catarina Álvaro Catão, com quem teve três filhos: além de Bebel, Álvaro e Antônio, sendo que este faleceu em 2004 de um câncer de pele.

E foi a doença do filho que a trouxe de volta ao Rio, após Lourdes viver duas décadas em Nova York, onde atuava como decoradora.

— Ela tinha uma carreira, era uma decoradora de peso. Fez casas de campo incríveis ao redor de Nova York e também apartamentos em Manhattan — diz o amigo Márcio Roiter, fundador do Instituto Art Déco. — Ela tinha um gosto eclético. Misturava art déco, peças da China, móveis franceses do século XIX... Não tinha medo de cores. Sua marca era um batom vermelho Yves Saint Laurent. Gostava de uma festa e teve uma vida incrível.

A vida de Lourdes Catão é, de fato, cinematográfica. Nas décadas de 1950 e 1960, frequentou as mais badaladas festas da sociedade brasileira ao lado do marido. Mas, em 1972, surpreendeu ao se divorciar para viver uma paixão pelo playboy francês Gaubin-Daudé. Viveu com ele em Paris e em Nova York, onde decidiu permanecer mesmo após a separação.

Antes do seu retorno ao Rio, fez tremer de novo o high society com uma revelação: após a morte de Álvaro, no fim dos anos de 1990, e do irmão dele, Francisco, em 2001, confirmou que Álvaro Luiz era filho do cunhado e não do ex-marido.

No Rio, recebia amigos com frequência em seu apartamento e no jardim do Biarritz, um ícone da arquitetura art déco. Enquanto autora do livro Sociedade Brasileira, que assumiu após a morte da irmã, precisou se modernizar, incluindo nomes como os das atrizes Christiane Torloni e Maitê Proença. E se envolveu numa polêmica: alguém teria pago R$ 20 mil a um integrante da lista que havia prometido a sua inclusão na publicação. Lourdes dizia não saber do episódio, assim como o jornalista Jeff Thomas, que teria cobrado o valor, sempre chamou de mentirosa a história.

Ela tinha uma visão crítica em relação à “aristocracia” atual. Em 2014, declarou ao Globo:

— A sociedade mudou de hábitos. Empobreceu mesmo... Não dão mais festas como antigamente. E as celebridades são mais conhecidas das pessoas — afirmou na época, explicando como fazia a seleção dia nomes do guia. — Não importa mais tanto o sobrenome e sim se a pessoa circula, se é vista e tem um comportamento elogiado pelos outros integrantes do livro.