Covid-19: O Brasil já enfrenta uma segunda onda? Cientistas respondem a dez perguntas

Rafael Garcia
·3 minuto de leitura
Ilustração Editoria de Arte

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Ilustração Editoria de Arte

SÃO PAULO — Diante de uma provável "segunda onda" da Covid-19, o Brasil precisa guiar sua ação estratégica respondendo a muitas perguntas duras. Em encontro virtual promovido pela Faculdade de Medicina da USP com participação do GLOBO, os cientistas Paulo Lotufo e Márcio Bittencourt se juntaram a Ricardo Schnekenberg, da Universidade de Oxford, para responder a algumas delas.

Veja abaixo o que esses e outros especialistas dizem sobre os principais pontos relacionados ao recrudescimento da pandemia no país:

O que é a segunda onda de uma epidemia de Covid-19? A do Brasil já começou?

Não existe uma definição técnica, científica e formal, ainda, para caracterizar quando a primeira onda de uma epidemia cessa e quando a segunda começa. A maior parte dos especialistas consultados pelo GLOBO afirma que prefere usar essa expressão no caso de lugares que conseguiram reduzir a primeira onda a praticamente zero, depois viram a chegada de uma segunda.

Essa queda drástica não ocorreu na maior parte do Brasil, que reduziu o número diário de casos e mortes a um nível ainda alto, depois voltou a vê-lo crescer. Essa dinâmica, além disso, precisa ser vista de forma regionalizada no Brasil, onde a epidemia se distribui de maneira heterogênea.

A discussão sobre segunda onda, por outro lado, preocupa cientistas porque pode desviar o foco sobre o que é mais importante agora: o volume da pandemia voltou a aumentar, não importa o nome dado ao fenômeno.

— A distinção entre primeira e segunda onda é um preciosismo acadêmico sem relevância prática para a população, que está novamente exposta ao vírus — diz o médico Ricardo Schnekenberg, pesquisador da Universidade de Oxford que trabalha na análise de dados e construção de modelos para entender a epidemia.

Como sabemos se o número de casos (e mortes) está subindo ou descendo?

Para ler a tendência da Covid-19 no Brasil, os epidemiologistas olham diferentes conjuntos de dados. Alguns, como monitoramento de sintomas em uma população de pacientes, são rápidos de aferir, mas pouco precisos. Nem todos os que apresentam “síndrome gripal”, que é o conjunto de sintomas que caracterizam a gripe ou a Covid-19, terão sido infectados pelo coronavírus.

Os dados de mortes registradas por Covid-19 são o oposto: mais precisos, porém demoram a se consolidar. Em geral, um caso da doença que foi grave o suficiente para matar foi confirmado por um teste em algum momento, e as mortes têm menos subnotificação que casos leves. Quando um gestor público espera um sinal de aumento nos óbitos por Covid-19 para tomar uma decisão, porém, é tarde demais, porque a transmissão comunitária já está mais intensa.

Outros tipos de dados ficam num plano intermediário, como o monitoramento de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) e o monitoramento de internações novas. Há dados ricos sobre internações em São Paulo, por exemplo, mas muitos municípios não têm estrutura para levantá-los em tempo real.

— Em São Paulo a gente está vendo um aumento de internações e precisa agir como se fosse uma coisa importante mesmo que o sinal seja ruidoso e que talvez a gente esteja avisando demais — diz Márcio Bittencourt, epidemiologista do Centro de Pesquisa Clínica da USP. — Precisamos agir logo, porque o que fazemos agora leva duas a três semanas para ter um efeito perceptível na pandemia.