Covid-19: O que os povos indígenas podem ensinar ao mundo pós-coronavírus

Para os representantes indígenas, é o vínculo com a “memória ancestral” que garante aos povos nativos uma consciência plena de preservação, por exemplo, num país que queima seu patrimônio natural e se habitua a recordes de desmatamento (CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

Por Nathan Fernandes (@nathanef)

“Para nós, indígenas, isso é uma repetição da história. A única diferença é que nós não estamos sozinhos desta vez”, afirma, em um vídeo no YouTube, o xamã Vernon Foster, ao falar sobre a pandemia do novo coronavírus. Para o nativo norte-americano da nação Klamath/Modoc, que estudou psicologia e ciências sociais na Universidade de Minnesota, a necessidade de mudar hábitos e absorver novos costumes frente a uma ameaça desconhecida só é novidade para quem nunca teve suas tradições atropeladas. 

No Brasil, saberes ancestrais que já habitavam o território antes da chegada dos europeus são frequentemente menosprezados. Em 2018, por exemplo, logo após ser eleito, o presidente Jair Bolsonaro desumanizou indígenas isolados, ao declarar: “Na Bolívia, temos um índio que é presidente. Por que no Brasil temos que mantê-los reclusos em reservas, como se fossem animais em zoológicos?". Em 2019, em uma live, afirmou que o cacique kayapó Raoni Metuktire, um dos maiores nomes do ambientalismo mundial, forte candidato ao Nobel da Paz, em 2020, estaria sendo cooptado por líderes estrangeiros para falar mal da política ambiental brasileira. Já em janeiro, durante uma de suas lives semanais no Facebook, o governante afirmou que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”, deixando escapar seu sentimento de superioridade moral, e defendendo a não demarcação de terras.

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Mas, para muitos representantes de etnias indígenas, o modelo acelerado de produção atual — que flerta com o abismo e ameaça levar a sociedade para o buraco em momentos de crise como este — exige uma mudança urgente de direcionamento. Uma das alternativas é uma abertura maior para a compreensão desse conhecimento nativo, que rejeita os mitos neoliberais da exploração sustentável e do individualismo como base da sociedade. Os mesmos mitos que estão sendo expostos agora pela pandemia de Covid-19. 

“O que aprendi ao longo dessas décadas é que todos precisam despertar, porque, se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados de ruptura ou de extinção dos sentidos de nossas vidas, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar nossa demanda”, escreveu o líder indígena Ailton Krenak, em “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” (Companhia das Letras), ampliando o coro ao xamã Vernon Foster.

Para Krenak, o consumismo desenfreado substitui a experiência de viver em uma terra cheia de sentido. “Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor?”, questiona. “A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus objetivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos.” 

O cacique Raoni Metuktire fala com jornalistas durante encontro em fevereiro de 2020 (SERGIO LIMA/AFP via Getty Images)

Mãe não se negocia

Para os representantes indígenas, é exatamente esse vínculo com a “memória ancestral” que garante aos povos nativos uma consciência plena de preservação, por exemplo, num país que queima seu patrimônio natural e se habitua a recordes de desmatamento — em janeiro, só a Amazônia registrou um aumento de 108% no alerta de desmatamento, comparado ao mesmo mês do ano anterior, a maior porcentagem desde 2016, quando o índice passou a ser medido.

Segundo Sônia Guajajara (a primeira mulher indígena do Brasil a concorrer à vice-presidência da República, na chapa de Guilherme Boulos, do PSOL, em 2018), é comum ver, por exemplo, pessoas não-indígenas comprarem terras como investimento para vender depois de um tempo. Um ato impensável para os Guajajara, etnia que vive na região do Maranhão. 

“Para a gente, a nossa terra é nossa mãe. E mãe não se negocia”, afirma. “Essa é uma relação milenar. Somos conectados com a água, os animais, as florestas, os encantados. Mas essa conexão parece ter se perdido entre os não-indígenas. Ao perdê-la, eles começam a tratar a terra como uma mercadoria que pode ser destruída, como se a vida deles não dependesse da terra. Como é possível não relacionar o ar que se respira com a preservação das florestas, por exemplo?” 

Enquanto para muitos não-indígenas, o consumo, a pressa e o individualismo são divindades a serem louvadas — a ponto de criarem uma separação entre humanidade e natureza —, para os povos nativos, manter as histórias vivas são uma forma de lembrá-los do contrário (CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)

Se para os Guajajara, a terra é uma mãe, para os Krenak, o rio Doce (que eles conhecem como Wutu), é um avô. “Ele é uma pessoa, não um recurso, como dizem os economistas”, escreve Ailton Krenak. “Quando nós falamos que o nosso rio é sagrado, as pessoas dizem: ‘Isso é algum tipo de folclore deles’. Quando dizemos que a montanha está mostrando que vai chover e que o dia vai ser próspero, eles dizem: ‘Não, uma montanha não fala nada’. Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial extrativista.”

Essa consciência não é algo que brota no nada. Ela nasce no campo fértil das histórias que contam as origens das 225 nações habitantes do território que se convencionou chamar de Brasil. Segundo a cosmologia Kaingang, etnia que vive na região sul, por exemplo, seus membros descendem dos gêmeos ancestrais Kamé e Kairu. “Eles surgem de dentro de uma montanha. Então, cada um desce por um lado e, assim, vão formando todas as coisas: a vegetação, os animais, tudo o que a gente conhece”, explica a antropóloga Joziléia Daniza Kaingang, da Universidade Federal de Santa Catarina. 

“Quando chegam ao pé da montanha, eles já estão com seus corpos e pensamentos forjados, estão preparados. Os Kamé, então, vão formar a metade guerreira do nosso povo; os Kairu vão ser a metade das lideranças políticas e espirituais. A junção dessas duas partes é que dá origem ao nosso povo.”

De acordo com a antropóloga, é a partir do conhecimento de histórias do tipo que os Kaingang desenvolvem uma relação mais íntima com o território em que vivem. “Quando você vem de dentro da terra, você adquire outra percepção. Por isso, nossa relação com ela é sagrada”, afirma. 

O fim do mundo foi cancelado

Enquanto para muitos não-indígenas, o consumo, a pressa e o individualismo são divindades a serem louvadas — a ponto de criarem uma separação entre humanidade e natureza —, para os povos nativos, manter as histórias vivas são uma forma de lembrá-los do contrário. “Os mitos de criação de mundo, independente do povo, formam um elo de compreensão, que mostra que todos os seres humanos, por mais separados que pareçam estar, têm a mesma origem: a natureza”, explica o escritor, terapeuta e ambientalista de origem tapuia Kaká Werá.

Mas, se para os indígenas essa conexão sutil é óbvia, para quem foi educado tendo como base o espesso pensamento científico ocidental parece haver uma muralha que impede sua compreensão. No livro “A Águia e o Colibri” (Arapoty Livros), Kaká Werá e Roberto Crema reúnem a essência de duas tradições milenares: a tupi-guarani e a tolteca — do povo pré-colombiano que habitou o México entre os séculos 10 e 12. Werá evoca este conhecimento para explicar a dificuldades dos ocidentais em compreender as subjetividades indígenas.

“Segundo os tolteca, nós temos três tipos de atenção. A primeira é aquela que capta o que pode ser tocado, mensurado. É o que sustenta a lógica materialista”, explica. Como acreditavam os tolteca, grande parte das pessoas está focada nesse tipo de atenção, que desconsidera coisas que não podem ser validadas racionalmente. 

“Só que existe a segunda atenção, que é o mundo das sensações, dos sentimentos, das dimensões sutis da vida, que podem ser percebidas através dos sonhos, das ideias, da imaginação, do subconsciente”, diz. Apesar de todas as pessoas serem igualmente capazes de desenvolver os dois tipos de atenção, segundo Werá, apenas uma parte desenvolve mais a segunda. “Os xamãs são especialistas nesse tipo de atenção. As plantas de poder, por exemplo [como ayahuasca, jurema, tabaco] são veículos que despertam a consciência para isso.”

Por fim, há a terceira atenção, a qual poucos têm acesso. “Ela é a percepção clara de que não existe separação entre os mundos. É a fusão com o todo, com o inimaginável. É por ela que se conectam os grandes mestres da humanidade”, explica. 

De acordo com Kaká, a dificuldade de compreender a subjetividade indígena — ou qualquer tipo de subjetividade — nasce de um foco exagerado na primeira atenção. 

“Para os tolteca, essa primeira atenção gera distorções, um exagero na crença de que a realidade é estritamente material. Mas isso é só uma crença, porque tudo o que acontece no mundo das formas é sustentado por algo que não tem forma. É da crença exagerada na primeira atenção que vem a vontade de ter, de acumular. O medo vem daí. Isso porque o mundo das formas da primeira atenção é finito, ele tem passado, presente e futuro, ele acaba. Isso gera uma insegurança enorme e várias questões psíquicas, como a ansiedade. É o que nos faz também querer fugir da morte a qualquer custo, eliminamos a morte como parte natural do processo e passamos a ter medo de envelhecer. Tudo porque essa distorção não nos deixa entender que as formas passam. E elas passam porque a primeira atenção não é real. Então, existe uma dor da civilização nesse lugar, uma angústia. E as pessoas resolvem essa angústia brigando, acumulando, dominando povos e culturas...”

Em seu livro, Ailton Krenak escreve que, em 2018, quando um presidente que considera os indígenas uma sub-raça ascendeu ao poder no Brasil, perguntaram a ele: “Como os índios vão fazer diante de tudo isso?”. Ao que o escritor respondeu: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa”. 

Agora, diante de uma crise sanitária sem precedentes que afeta o sistema econômico e bagunça a sociedade a ponto de fazê-la cogitar sobre o fim do mundo, os não-indígenas têm a chance de aprender a reagir como os povos nativos reagiram durante todo esse tempo: expandindo sua subjetividade e compartilhando suas histórias. “O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida”, escreve Krenak. Segundo ele, é por essa razão que se prega o apocalipse, como uma possibilidade de nos fazer desistir dos nossos sonhos. “Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim do mundo.”