Covid-19: Paciente morre no RS após receber nebulização com hidroxicloroquina sem autorização da família

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Médico receitou nebulização com hidroxicloroquina (AP Foto/John Locher)
Médico receitou nebulização com hidroxicloroquina (AP Foto/John Locher)
  • Lourenço Pereira foi submetido ao tratamento, apesar de a hidroxicloroquina ter sido descartada no combate à Covid-19 pela OMS

  • Médico responsável pelo tratamento defendeu o uso e disse que tratou-se de uma "tentativa" de salvar o paciente

  • Família de Lourenço apresentou denúncia ao Ministério Público e pediu que o caso seja investigado

Um homem de 69 morreu na cidade de Alecrim, no Rio Grande do Sul, após receber nebulização com hidroxicloroquina. Lourenço Pereira estava com Covid-19 e teve o tratamento prescrito pelo médico Paulo Gilberto Dorneles.

De acordo com informações do jornal Zero Hora, o caso aconteceu em março. Lourenço realizou quatro sessões de nebulização com hidroxicloroquina diluída, apesar de a família do paciente não ter autorizado o uso do medicamento.

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A hidroxicloroquina é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), apesar de já ter sido descartada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em casos de Covid-19, por não funcionar contra o vírus. Para piorar, pode causar efeitos adversos no paciente, como taquicardia.

Por isso, os familiares de Lourenço fizeram uma denúncia ao Ministério Púbico, exigindo investigação do caso. Eles alegam que o quadro do paciente piorou depois do uso do medicamento.

O idoso descobriu a doença quando andava de bicicleta em Alecrim, no dia 19 de março. Encaminhado a um hospital da região, realizou as sessões de nebulização com hidroxicloroquina no dia seguinte.

“O pai me mandou um áudio dizendo que se sentia pior. Isso foi no sábado (20)”, contou a filha de Lourenço, Eliziane, ao Zero Hora. Diante desta piora, o médico Paulo Gilberto Dorneles receitou a ingestão de um comprimido de hidroxicloroquina por dia via oral.

Presidente Jair Bolsonaro tem defendido o uso do medicamento (Sergio Lima/AFP via Getty Images)
Presidente Jair Bolsonaro tem defendido o uso do medicamento (Sergio Lima/AFP via Getty Images)

Em 22 de março, o idoso não resistiu às complicações da doença e morreu. A certidão de óbito aponta Covid-19 e doença pulmonar obstrutiva crônica como as causas da morte, mas a família tem certeza que a piora em seu quadro se deu pelo uso do remédio.

“O que pretendemos é buscar justiça para tudo o que ocorreu com o meu pai no período da internação, para que outras pessoas não passem por tratamentos experimentais. Não teríamos autorizado, sobretudo por sabermos que essa conduta médica não tem base legal”, disse Eliziane.

Médico se exime de culpa e defende uso do remédio

Entrevistado pelo jornal, Paulo Gilberto Dorneles garantiu que a morte de Lourenço não teve ligação com o uso de hidroxicloroquina e defendeu o uso do remédio como “tentativa” de salvar um paciente.

“Usamos uma dose ínfima, quase um placebo. Não alterou em nada o quadro. Usamos como tentativa enquanto aguardávamos leito de UTI. Eu com o paciente ruim, sem leito de UTI… Tu sabes o que é trabalhar no Interior, sem condições? Então, a gente usou, foi feita a tentativa, mas em dosagem ínfima porque a gente não tinha segurança da validade”, declarou.

Lourenço estava à espera de uma vaga na UTI (Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
Lourenço estava à espera de uma vaga na UTI (Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)

Dorneles garantiu que uma doença pulmonar já existente em Lourenço foi determinante para o óbito. “O problema dele não foi o comprimido. Ele teve uma piora progressiva e nós fazemos o que está ao nosso alcance. Ele tinha só 40% do pulmão funcionando antes de pegar a Covid-19.”

Outros casos

Esta não é a primeira vez que um paciente com Covid-19 morreu após o uso de remédios do “kit Covid”, defendido por Bolsonaro. Justamente no Rio Grande do Sul, três pessoas morreram após uso da hidroxicloroquina inalável apenas no Hospital Nossa Senhora Aparecida, em Camaquã, entre os dias 22 e 24 de março.

Já jornal Estadão revelou no fim do mês passado que cinco pacientes estavam na fila de espera por um transplante de fígado após serem submetidos a tratamentos com o tal “kit”, que conta ainda com ivermectina e azitromicina. Eles foram diagnosticados com hepatite medicamentosa.

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