Covid-19: por que não vai dar para 'viver com o vírus', segundo um dos maiores epidemiologistas da França

REUTERS - STEPHANE MAHE

Ex-diretor-geral da Agência de Saúde Pública da França e um dos especialistas mais respeitados do país, o epidemiologista francês William Dab desmistificou, em entrevista a Franceinfo, a possibilidade, popularizada recentemente pelo presidente francês, Emmanuel Macron, de "viver com o vírus". Contra argumentos, nada melhor do que fatos: estudos mostram que a recorrência de infecções, mesmo leves, mudam a estrutura do cérebro e aumentam riscos de infarto, AVC, além de problemas renais.

Em plena sétima onda da Covid-19 na França, os especialistas e serviços hospitalares aguardam agora o tão temido pico de hospitalizações, no meio da temporada de verão no Hemisfério Norte. Em uma época típica de férias, espaços que são, incontestavelmente, os grandes vilões da contaminação são palco de alta frequentação: aeroportos, estações de trem, rodoviárias.

O que terá que mudar em nossas vidas a longo prazo para viver em segurança com a Covid-19? Para saber a resposta, o site da rádio francesa Franceinfo entrevistou o epidemiologista francês William Dab, que foi diretor-geral de Saúde Pública na França entre 2003 e 2005. Segundo ele, nada está "muito normal" no país, mesmo com a maior parte das restrições já tendo chegado ao fim.

"Quando olho para os números neste momento [13 de julho, data da entrevista], estamos em 1.500 internações hospitalares por dia, 130 internações na UTI por dia, e quase 80 mortes diárias... Eu não chamo isso de um retorno ao normal", afirma. "O cenário favorável seria que se estabelecessem variantes contagiosas, mas menos agressivas. O pior cenário possível seria se uma variante mais contagiosa surgisse e conseguisse contornar a imunidade adquirida através da vacinação, ou por infecções anteriores. Não podemos antecipar tendências para o futuro a partir de observações do passado com este vírus - sabemos que com a Covid-19 não funciona assim, é completamente imprevisível."

Para Dab, "viver com o vírus" é um "slogan vazio". "É claro que viveremos com o vírus, pois não conseguiremos destruí-lo. Ninguém espera conseguir uma imunidade do rebanho contra um vírus com tal potencial de mutação. Mas o que isso significa? Que não fazemos nada por causa do fatalismo? Ou, pelo contrário, que devemos voltar às medidas que restringem as liberdades individuais? Acho que podemos ser mais inteligentes", pondera o especialista.

Segundo ele, a "pedagogia" adotada pelo governo francês em relação à pandemia neste momento é bastante deficiente. "Antes de tudo, é preciso dizer que a pandemia não acabou, que ela continua sendo uma ameaça séria e que não podemos permanecer passivos. E devemos explicar às pessoas como adaptar seu comportamento para proteger a saúde e dar-lhes os meios para fazê-lo", diz. William Dab acredita que haja ações simples que possam ser executadas para diminuir os riscos.

"Temos ferramentas individuais, como a vacinação. Não sei porque não estamos recebendo mais doses de reforço, muito menos vacinando crianças, quando mostramos que somos capazes de realizar uma verdadeira mobilização na França", critica Dab.

Na França, a quarta dose ainda está disponível apenas para idosos e grupos de risco, ao contrário do Brasil. "Depois há as medidas de restrição. Não acho complicado explicar às pessoas que há circunstâncias em que o risco de contaminação será maior, como em lugares lotados e fechados - estações de trem, aeroportos, aviões, trens, transporte público. Neste caso, não se trata de uma restrição insuportável pedir às pessoas que usem uma máscara", avalia.

Por que não se pode "baixar a guarda"

O epidemiologista lembrou em entrevista à Franceinfo que "há estudos que mostram que ser infectado duas, três vezes, aumenta o risco de problemas cardíacos, pulmonares, de AVC ou problemas renais. No entanto, não ouço as autoridades [francesas] advertindo a população de que a Covid-19 não é uma infecção benigna". "Scanners de cérebros infectados mostram que o vírus muda certas estruturas nos hemisférios cerebrais. Isto é temporário ou prenuncia complicações mais sérias? Ainda não sabemos nada sobre isso. As pessoas precisam estar cientes desta incerteza. Se não lhes dissermos, eles não incluirão este risco em sua decisão de se protegerem ou não", contemporiza o especialista.

"Finalmente, é preciso lembrar que existem centenas de milhares de pessoas na França cuja imunidade está enfraquecida, particularmente pacientes com câncer cuja quimioterapia é imunossupressora. Eles merecem ser protegidos. Isto deve ser considerado ao decidir se se deve ou não usar uma máscara", considera. "Se este raciocínio altruísta não for suficiente, há também uma razão egoísta para fazê-lo: sabemos que é também nestas pessoas imunossuprimidas que novas variantes são mais prováveis de surgir", sublinha Dab.

Sobre os efeitos colaterais de algumas vacinas, o médico francês lembra que "é verdade que a vacina tem efeitos adversos, tais como a miocardite. Mas nenhum produto de saúde tem sido tão bem monitorado quanto este", afirma. "Quase todos os casos são benignos, e sabemos que, com a vacina, o risco é 10 vezes menor do que o de uma miocardite após uma infecção por Covid-19. Portanto, a vacina reduz o risco de miocardite em 10. Isso é bom de se levar em consideração", diz, num país que tradicionalmente reúne uma boa parcela da população antivacina.

"Se você espera que uma vacina seja 100% eficaz em todas as áreas, você não tomará nenhuma vacina contra nenhuma doença, isso não existe", afirma. "Estamos todos aguardando ansiosamente os resultados dos testes em andamento de vacinas bivalentes, que incorporam uma cepa da ômicron. Esperamos que, em algum momento entre outubro e novembro, estas vacinas estejam disponíveis, e nos dêem proteção extra. Também temos que estar cientes de que uma nova variante pode mudar completamente o jogo. Mas o cenário de novas vacinações para aumentar nossa imunidade uma ou duas vezes ao ano não pode ser descartado", afirma William Dab.

Problemas de saúde após contaminação

Em abril de 2021, um estudo inicial de três pesquisadores da Universidade de St Louis, nos Estados Unidos, publicado na revista Nature, identificou uma miríade de problemas de saúde que afetavam com mais frequência as pessoas que tinham tido Covid-19. Usando um grande banco de dados de registros de saúde de veteranos militares do país, os autores compararam quase 5 milhões de pessoas não infectadas com 77.000 pessoas que testaram positivo para o vírus no 30º dia após a infecção.

Cinco meses depois, eles tinham mais problemas respiratórios e também sofriam mais problemas no "sistema nervoso e neurocognitivo, saúde mental, metabólico, cardiovascular, gastrointestinal, mal-estar, fadiga, dores musculoesqueléticas e anemia" do que pessoas com um perfil semelhante que nunca haviam testado positivo. Mesmo os pacientes que não haviam sido hospitalizados demonstravam mais riscos de desenvolver sequelas.

Desde então, este banco de dados tem sido utilizado para vários estudos pela mesma equipe, incluindo um sobre riscos cardiovasculares, publicado em fevereiro de 2022 na Nature. "Ele mostra um risco multiplicado por 1,5 ou 2 para todos os eventos", não apenas as inflamações cardíacas que são bem conhecidas em pacientes Covid-19, observou Ariel Cohen, ex-presidente da Sociedade Francesa de Cardiologia à Franceinfo.

Em pessoas que testam positivo, o risco de AVC é multiplicado por 1,52 no ano seguinte à infecção, o risco de embolia pulmonar por 2,93, e o de síndrome coronariana aguda por 1,72.

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