Covid-19: quase 20% dos mortos pela doença no Brasil são do estado do Rio

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Foto: REUTERS/Sergio Moraes
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  • Mesmo com país apresentando melhoras nos índices, RJ sofre para frear número de óbitos

  • Transmissão descontrolada da variante Delta pode ser uma das razões para o cenário atual

  • Especialistas alertam para situação, que pode se repetir em outras regiões do país

Enquanto o Brasil registra os menores números diários de mortes confirmadas por Covid-19 desde dezembro passado, o Rio de Janeiro segue uma tendência contrária: a média móvel de óbitos pela doença no estado teve uma alta de 33% em relação a duas semanas atrás, de acordo com a última atualização do boletim de consórcio de veículos da imprensa. Nesta segunda-feira, a média nacional chegou à marca de 671 notificações por dia, ao passo que, no Rio, o indicador ficou em 120. Em outras palavras, quase 20% das mortes por Covid-19 contabilizadas no Brasil atualmente acontecem no Rio de Janeiro.

Variante Delta, alta transmissão, necessidade de terceira dose da vacina: são várias as possíveis explicações para o cenário. O fato é que os números do Rio, na visão dos cientistas, podem antecipar um agravamento que afetará o resto do país em questão de semanas ou meses. Para o epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz (Icict/Fiocruz), a cidade do Rio, ao lado de Manaus, no Amazonas, exerce historicamente uma função de “farol” da pandemia no Brasil. De modo geral, movimentos acentuados nos indicadores nacionais da Covid-19 foram detectados, em primeiro lugar, na capital fluminense.

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— O aumento no número de mortes agora se observa tanto na cidade quanto no estado. E o Rio de Janeiro tem diversas particularidades. Temos um adensamento populacional muito grande, especialmente nas favelas, que sofrem com condições de vida mais precárias e menos recursos de Saúde Pública. Temos muita gente junta, e muita gente circulando, o que favorece muito o contágio da doença — explica o pesquisador. — Em alguns locais, as circunstâncias de habitação são difíceis, tornando impossível não se aglomerar. Além disso, o Rio tem um sistema de transporte público ineficiente, que cria aglomerações. O vírus se vale da desigualdade social para se disseminar. São problemas de base que, numa pandemia, acabam causando uma dificuldade ainda maior.

Segundo Xavier, um outro ingrediente se soma à perigosa combinação de fatores que compõem o atual panorama fluminense: o turismo.

— O Rio é um grande destino turístico. Com a flexibilização das restrições em todo o Brasil, muita gente está começando a viajar e vindo para o estado, o que é um outro agravante. No entanto, antes de chegarmos a uma conclusão sobre as causas desse novo panorama, precisamos olhar com cuidado para saber quem de fato está morrendo. A Fiocruz, por exemplo, já detectou um aumento mais acentuado nos óbitos entre os idosos.

Por efeito da vacinação, pessoas com 60 anos ou mais, que têm mais chance de adoecer gravemente e morrer por Covid-19, chegaram a ser minoria dos óbitos pela doença no estado no fim de maio, apontam dados da Subsecretaria de Vigilância em Saúde compilados pelo GLOBO. Agora, contudo, a presença do grupo entre as vítimas da pandemia parece retornar a patamares anteriores à vacinação. Na semana epidemiológica 31, correspondente ao início de agosto, idosos foram 75% dos mortos por Covid-19 no estado. Uma semana antes, a proporção era de 73% e, duas semanas antes, de 67%. Essa alta progressiva pode resultar também do aumento de cobertura vacinal entre os mais jovens, cuja participação nas mortes caiu em virtude da vacina.

Os números oficiais apontam que os óbitos por Covid-19 crescem até mesmo entre os imunizados com as duas doses, o que reforça a necessidade de uma terceira dose em públicos específicos. Vale ressaltar, porém, que os não vacinados são a grande maioria dos internados com a doença no estado. Na semana epidemiológica 31, considerando todas as faixas etárias, pessoas sem qualquer dose da vacina representaram 65% das hospitalizações por Covid no estado. Na semana anterior, essa parcela foi de 69%. Os dados das semanas posteriores à 31 foram excluídos da análise por estarem mais sujeitos ao represamento de informações.

Na linha de estudos internacionais que apontam a importância do esquema vacinal completo, os números da Subsecretaria de Vigilância em Saúde mostram que a efetividade dos imunizantes no Rio de Janeiro é maior em quem tomou a segunda dose. Na primeira semana de agosto, o grupo contabilizou 354 hospitalizações pela doença, enquanto aqueles que tomaram só a primeira dose da vacina somaram 521 internações. Entre as semanas epidemiológicas 28 (meados de julho) e 31 (início de agosto), um período de um mês, pessoas com uma dose da vacina representaram 33% do total de internados, enquanto imunizados com as duas doses corresponderam a 21% das hospitalizações.
Apesar da queda gradual na proteção conferida pelas vacinas — sobretudo nos mais idosos, que se vacinaram há mais tempo e que estão naturalmente mais sujeitos ao fenômeno da imunossenescência, que é a perda da capacidade imunológica do organismo em decorrência do envelhecimento —, os números oficiais reiteram que o maior fator de agravamento e morte por Covid-19 no Rio hoje ainda é a não vacinação.

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— O efeito da vacinação fica claro quando vemos os indicadores atuais frente à variante Delta, que é muito mais contagiosa. Se tivéssemos o cenário que temos hoje sem nenhuma proteção de vacina, provavelmente enfrentaríamos números tão difíceis quanto os que tivemos com a P1, ou Gamma, que fez aquele estrago no início do ano — avalia Xavier.

Variante Delta

Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images
Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images

A própria Secretaria estadual de Saúde considera que o recente aumento do número de casos no Rio de Janeiro pode se espalhar num futuro próximo para outras partes do Brasil, um fenômeno que a pasta já atribui à ação da variante Delta. Ao contrário do que mostram os cientistas da Fiocruz, porém, a secretaria diz que a alta na quantidade de ocorrências ainda não se refletiu nos índices de internações e óbitos.

— A gente já vê um aumento importante no número de novos casos de Covid-19. Pelo fato de o Rio ter sido o primeiro estado com uma circulação mais intensa dessa variante, existe a possibilidade de essa tendência de transmissão começar a se alastrar para o resto do Brasil. E a gente pode observar, nos próximos dias ou nas próximas semanas, essa mesma tendência: um aumento de casos em outros estados da Federação. A gente não sabe ainda como vai ser o comportamento dessa nova variante, se eventualmente a gente vai ter um aumento de solicitações de internação — disse o secretário Alexandre Chieppe.

Fazendo coro aos epidemiologistas que acompanham os números da pandemia do Rio, Diego Xavier salienta a influência do alto nível de transmissão no panorama de agravamento que se desenha no estado

— A pior variante é a variante da circulação. Não existe variante neozelandesa, porque na Nova Zelândia a transmissão é controlada. No Brasil, especialmente no Rio, é muito comum que os pais deixem os filhos com os avós para trabalhar. Se não houver cuidado nessa dinâmica, o número de mortes entre idosos pode aumentar muito. Sem contar outros aspectos da flexibilização que vemos hoje: shows, festas, casas noturnas... Daqui a pouco vai ter a linhagem Delta 2, linhagem Omega, vai faltar letra. Por isso a tentativa da prefeitura de criar um passaporte sanitário é válida.

A polêmica do passaporte

O chamado “passaporte da vacina”, medida da Prefeitura do Rio que restringe a circulação de não vacinados contra a Covid-19 pela cidade, tem sido objeto de briga política e também de informações enganosas sobre as vacinas contra a Covid-19 desde a última sexta-feira, quando foi publicado em decreto. 

Pelo decreto, a vacinação a ser comprovada corresponderá a primeira dose, segunda dose ou dose única, variando de acordo com a idade da pessoa e a respectiva data de imunização estipulada no cronograma da cidade. Quem perdeu a data da segunda dose não poderá entrar nos estabelecimentos determinados pelo decreto, mesmo que tenha tomado a primeira dose.

Outros dois decretos também publicados na sexta-feira estabelecem a mesma obrigatoriedade. O morador do Rio deverá estar com a vacinação contra a Covid-19 em dia para poder realizar cirurgias eletivas não emergenciais e para receber o auxílio financeiro por meio do Cartão Família Carioca.

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