Covid-19: Rio chega a 80% da população total com o esquema vacinal completo

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Após 11 meses de intensa campanha, com postos lotados, pausas e antecipações no calendário de vacinação, a cidade do Rio alcançou, no fim da tarde desta terça-feira, a marca de 80% da população total imunizada contra a Covid-19 com esquema vacinal completo. Celebrado por autoridades e especialistas, o número já foi até mesmo considerado uma das condições para a realização, a nível nacional, de grandes festas como o réveillon e o carnaval — duas celebrações que têm o Rio como um de seus palcos mais famosos.

Nos últimos tempos, contudo, novos dados científicos sobre o coronavírus, bem como as cepas recém-surgidas, levaram estudiosos a crer que talvez o nível de cobertura vacinal ideal contra a Covid-19 seja ainda maior — o que não esvazia, reforçam eles, a importância da marca conquistada pelo município rumo ao controle da pandemia. Afinal, o que essa notícia representa para a população? Chegamos ao “número mágico” da proteção coletiva?

Para a médica Isabela Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm), ainda não é o caso.

— Sem dúvidas, é uma marca importante. Na prática, ela significa uma proteção bastante adequada. Mas não podemos dizer que se trate de um “número mágico”, especialmente por causa da variante Ômicron, que é neutralizada com três doses da vacina. Hoje, é lugar-comum a necessidade da terceira dose, que aumenta em mais de 20 vezes a proteção — pontua.

Na avaliação do epidemiologista Guilherme Werneck, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro comitê científico estadual, a cobertura vacinal conquistada pelo município é “extraordinária”, mas não indica que a pandemia foi controlada.

— Não podemos minimizar. É uma marca extraordinária, considerando todas as dificuldades que enfrentamos em torno da disponibilidade de vacina. No entanto, temos evidências que colocam essa marca num contexto na qual ela não é suficiente para podermos ficar tranquilos. Não há um consenso em relação a isso, mas já se comenta que a meta deve ficar acima de 90%, porque sabemos que as vacinas contra a Covid-19, embora protejam muito contra internação e morte, não têm alta efetividade para infecções — salienta o médico.

Inicialmente, epidemiologistas acreditavam que uma cobertura vacinal de 75% seria determinante no combate ao coronavírus. A marca se baseava, contudo, em dados do começo da pandemia, quando as cepas mais transmissíveis ainda não tinham surgido.

De lá para cá, a chamada taxa de transmissão básica do vírus (R0) — que indica quantas pessoas um infectado pode contaminar, assumindo que todos os seus contatos próximos ainda não foram infectados e não estão vacinados — subiu de 2,5 para 5, aproximadamente. Além disso, evidências posteriores apontaram que a imunidade assegurada pelas vacinas cai com o passar do tempo. A consequência disso é que, para evitar a transmissão, a cobertura vacinal tem de ser mais alta, e precisa ser mantida em níveis elevados.

Secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz destaca que a marca de 80% era a meta principal da campanha de vacinação.

— Para muitos, esse era o número máximo que conseguiríamos atingir sem vacinar as crianças. Mesmo antes de chegarmos ao patamar de 70%, por exemplo, já tinha ficado comprovado que a vacina confere imunidade coletiva e individual. Hoje, temos um número baixíssimo de casos de Covid-19, mesmo com todos os eventos sendo realizados há semanas — diz.

Segundo Soranz, a prefeitura sempre trabalhou com um objetivo de vacinar completamente ao menos 66% da população total da cidade, um número a partir do qual, na avaliação dos técnicos da Secretaria municipal de Saúde (SMS), a queda nos indicadores da pandemia começaria a ser observada.

— Com essa conquista, elevamos a média de cobertura vacinal do estado inteiro. E isso é fruto de muitos anos de investimento de um programa nacional de imunização forte, de um Sistema Único de Saúde (SUS), e também da adesão incrível dos cariocas — afirma.

Nesta segunda-feira, o comitê científico do município recomendou que, nesse momento, a prefeitura do Rio não deve estabelecer nenhuma restrição à folia do próximo ano, considerando o cenário epidemiológico atual. Em seu parecer, o grupo se baseou justamente na proximidade do patamar de 80%, entre outros fatores.

"O CEEC (Comitê Científico de Enfrentamento à Covid-19) fundamentado no cenário epidemiológico favorável, (número de casos, número de casos internados, % de positividade de testes) com 80% de cobertura vacinal atual, na análise dos dados de todos os eventos com aglomeração no país e no Rio de Janeiro, e sustentado pelas evidências científicas disponíveis, recomenda a SMS que não estabeleça, nesse momento, nenhuma restrição à realização do Carnaval Carioca”, diz a ata da reunião.

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