Covid-19: sem vacina e com aumento de casos, prefeituras reabrem hospitais de campanha

Ana Letícia Leão e Dimitrius Dantas
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Em meio a uma escalada de casos e óbitos relacionados à Covid-19, algumas cidades do país voltaram a investir na utilização de hospitais de campanha. É o caso de Belém, Fortaleza, Recife, Teresina e Varginha (MG). No entanto, apesar de avaliarem o aumento da oferta de leitos como uma medida necessária, especialistas apontam que a reabertura desse tipo de estrutura também revela como as autoridades brasileiras falharam ao lidar com a pandemia do novo coronavírus.

Para o epidemiologista Lúcio Botelho, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dez meses após a chegada da doença ao país, o momento era para que prefeituras e governos estaduais estivessem se preparando para a aplicação de vacinas, e não focados na montagem de estrutura de internação.

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— O porão e o primeiro piso estão inundados e queremos consertar o telhado. Há um novo aumento significativo dos casos e, agora, com a capacidade de leitos esgotada. Isso leva à necessidade de abertura de leitos. Resta saber por que o fim do isolamento foi feito desta forma, com tantos alertas? E onde buscarão o pessoal com qualificação para o atendimento aos doentes agora? — questiona o epidemiologista.

Exaustão após meses de trabalho

Para Diego Xavier, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict) da Fiocruz e do MonitoraCovid, a situação é bem diferente da do início da pandemia, quando os casos cresciam, mas havia recursos e equipes motivadas para lidarem com a doença. Segundo ele, neste momento, não apenas os recursos estão escassos como as equipes de saúde estão exaustas após meses de trabalho.

— É uma sensação de desânimo que existe entre os profissionais de saúde, ainda mais com o desrespeito que estamos vendo ao isolamento social. Mas não é só a exaustão: muitos profissionais de saúde morreram — afirmou.

Segundo Xavier, o ideal seria que as prefeituras e os governos estaduais tivessem investido em estruturas permanentes no início da pandemia, sobretudo em cidades de médio porte. O pesquisador lembra que, mesmo nos piores momentos da pandemia, houve falta de leitos no país. Segundo dados do Sivep-Gripe, pelo menos 33% dos pacientes internados morreram fora de uma UTI.

— Hoje, observamos que a doença está aumentando substancialmente em vários lugares ao mesmo tempo. Estamos em um momento da pandemia em que o movimento do vírus é sincronizado no mundo inteiro. Está disparando na Inglaterra e no Brasil — disse.

Em Fortaleza, Belém e Teresina, as prefeituras optaram pela manutenção do funcionamento dos hospitais de campanha em meio ao recrudescimento dos casos de Covid-19. No Recife, por outro lado, a Prefeitura determinou há duas semanas a reutilização dos equipamentos dos hospitais de campanha nos hospitais da cidade como forma de aumentar a oferta de leitos para pacientes com a doença. E em Varginha, no sul de Minas Gerais, a Secretaria Municipal de Saúde propôs manter o decreto de estado de emergência de saúde pública por mais 60 dias, contando a partir de 1º de janeiro, justamente para conseguir manter as estruturas de atendimento.

Reabilitação preventiva

Em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, o hospital de campanha foi reativado em novembro "preventivamente", segundo a prefeitura. Atualmente, a ocupação total de leitos de UTI na cidade é de 60% e, em enfermarias, de 61,2%. Em Araraquara, cidade com 208 mil habitantes a 277 km da capital, a estrutura montada em abril do ano passado segue em atividade, com 14 dos 51 leitos totais ocupados. Em toda a cidade, a ocupação total de UTI para Covid é de 30% e 34% no caso de enfermarias.

Na capital paulista, apesar do aumento de internações nos últimos dois meses, a prefeitura e o governo de São Paulo afirmam que por enquanto não há previsão de reabertura dos hospitais de campanha. Os hospitais do Pacaembu, do Anhembi e do Ibirapuera foram fechados em setembro, mês em que os números da pandemia deram uma trégua. No entanto, pouco tempo depois, as internações voltaram a subir. Segundo o mais recente boletim da Secretaria estadual de Saúde, 12.530 pessoas estão internadas com Covid em todo o estado, que está com 65% de ocupação de UTIs. Já na região metropolitana da capital, a taxa é um pouco maior, 66,7%.