Covid-19: Sociedade de Infectologia diz que uso de cloroquina deve ser feito 'prioritariamente em pesquisa clínica'

Evelin Azevedo
Ministério da Saúde liberou prescrição de cloroquina para todos os estágios de Covid-19.

RIO - A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) elaborou um documento para comentar as orientações do uso universal da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19. A entidade médica recomenda que as substâncias sejam usadas no tratamento no âmbito da pesquisa clínica, já que os medicamentos, até o momento, não apresentaram eficácia contra o novo coronavírus.

"Os estudos clínicos atuais com cloroquina ou hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, permitem concluir que tais medicamentos, até o presente momento, não mostraram eficácia no tratamento farmacológico de Covid-19 e não devem ser recomendados de rotina", diz uma parte grifada do documento. "Recomendamos que o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina com a finalidade de tratamento da Covid-19 seja feito prioritariamente em pesquisa clínica".

No entanto, a entidade diz que se o médico desejar prescrever a medicação ao paciente acometido pela Covid-19, poderá fazê-lo, sendo recomendado que "compartilhe com o paciente a falta de evidência científica de sua eficácia à luz dos conhecimentos atuais e seu potencial risco de dano, principalmente cardíaco, e com a assinatura de um termo de consentimento". Alguns estudos mostraram um potencial malefício da cloroquina, que pode causar alteração cardiológica, verificada em exames de eletrocardiograma. Esta alteração está associada a uma maior chance de arritmias ventriculares, potencialmente fatais, destaca o comunicado.

A organização que representa os infectologistas brasileiros afirmou no comunicado que, neste momento, existem quase 1.600 estudos clínicos sobre a doença cujo o objetivo é avaliar medicamentos com capacidade de conter o vírus. A entidade afirma que as avaliações sobre a Covid-19 são dinâmicas e que por isso, as recomendações podem ser modificadas à medida que novos conhecimentos científicos são publicados.

A SBI afirmou que os estudos clínicos mais importantes são os randomizados e com grupo controle (uma parte dos pacientes recebe o tratamento padrão e também o experimental, enquanto outro recebe apenas o padrão).

"Sem esses estudos, corremos o risco de administrar medicamentos para centenas de milhares de pacientes, sem sabermos se os pacientes foram beneficiados, prejudicados ou se nada mudou na evolução", descreve a diretoria da SBI no documento.

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A entidade explica como que o remédio pode ser considerado eficaz contra a Covid-19. Levando em consideração números apresentados em um estudo publicado na revista científica Jama, 81% dos pacientes apresentarão forma leve ou moderada da doença, 14% terão pneumonia grave e necessitarão hospitalização e 5% serão acometidos pela forma crítica, necessitando cuidados de terapia intensiva. Acredita-se que a taxa de letalidade é de 3%, ou seja, espera-se que 97% dos pacientes sintomático se curem mesmo sem um tratamento antiviral. "Portanto, se um protocolo for implantado para o uso universal de hidroxicloroquina + azitromicina, por exemplo, a todos os pacientes sintomáticos, a eficácia poderá ser aferida, se a taxa de cura for superior a 97%". Além disso, precisará se avaliar ainda "se a taxa encontrada foi relevante e não resultado de uma situação aleatória".