Covid-19: tudo o que você precisa saber sobre o aumento de testes positivos e a vacinação no Brasil

Dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) e da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) mostram que a taxa de testes positivos para a Covid-19 cresceu 228% e 524% no último mês nas farmácias e laboratórios do país, respectivamente. Com isso, no momento, cerca de 20% dos testes feitos nas unidades confirmam um diagnóstico para a doença, percentual que chegou a ser inferior a 7% há pouco tempo, ainda no início de outubro.

Especialistas explicam que o aumento da positividade acende um alerta, já que a baixa procura pela testagem, até mesmo por pessoas sintomáticas, leva a números oficiais que podem não representar a realidade da doença. Nesse contexto, a chegada da subvariante BQ.1 da Ômicron no Brasil, o anúncio de novas versões das vacinas e a possibilidade do retorno de máscaras pode despertar uma série de dúvidas

Para respondê-las, o GLOBO conversou com a pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai; o médico infectologista Gerson Salvador, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), e o infectologista Unaí Tupinambás, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Desde o final de 2021, a variante Ômicron da Covid-19 tem passado por mutações de forma mais acentuada que as cepas anteriores, criando sublinhagens que apresentam capacidade elevada de provocar casos de reinfecção, mesmo em pessoas imunizadas.

A mais recente delas, a BQ.1, foi identificada em ao menos 65 países, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em muitos provocando novas ondas, como na França e Alemanha. Recentemente, ela foi detectada também no Brasil.

— Nós percebemos que a Europa vivenciou nos últimos dois meses um aumento de casos e óbitos, mas em alguns países esta onda já está passando. Muito provavelmente teremos aumento de casos e infelizmente de óbitos também aqui no Brasil nas próximas semanas. Porém, é pouco provável que seja um cenário mais dramático, semelhante ao de janeiro deste ano, ou março e abril do ano passado — avalia Tupinambás.

Salvador, do Hospital da USP, lembra que essa não é a primeira vez que surgem variantes na pandemia que levam o vírus a ter uma facilidade maior de se reproduzir e contaminar o indivíduo, e diz que os casos de fato estão aumentando. Porém, afirma que o crescimento não tem sido acompanhado de variações significativas no número de hospitalizações e óbitos ainda.

— Quando uma subvariante com maior capacidade de reprodução vai se tornando majoritária, existe uma tendência de esses fenômenos se repetirem em outros locais. Então não teria motivo para a BQ.1 não se tornar dominante aqui. E tudo indica que vamos ver sim uma nova onda. Nós passamos semanas sem fazer quase nenhum diagnóstico, e agora, de duas para cá, estamos vendo um grande volume de casos. Mas felizmente a grande maioria são leves. Pessoas imunossuprimidas e aquelas sem o esquema vacinal completo que estão em maior risco — diz o infectologista.

Isabella, da SBIm, explica que, embora novas subvariantes da Ômicron tenham demonstrado maior capacidade em escapar dos imunizantes e provocar reinfecção, as vacinas, desde que com todas as doses indicadas, continuam até agora altamente eficazes em prevenir desfechos graves da doença e óbitos.

— À medida que temos variantes, elas vão escapando da vacina, é natural. Felizmente, elas escapam no sentido de provocar doença leve, mas continuam evitando casos graves e mortes. Com a BQ.1 não temos ainda dados, mas tudo indica que sim, a proteção contra forma grave se manterá — esclarece a especialista.

A maior circulação do vírus cria um cenário em que o uso de máscaras volta a ser indicado em determinadas situações para evitar a chance de contágio. Isso porque, embora a vacinação tenha reduzido a gravidade da doença, ainda há riscos como a Covid longa – persistência dos sintomas após a infecção –, além da alta disseminação facilitar com que o vírus chegue a pessoas mais vulneráveis.

Por isso, os especialistas são unânimes na indicação da proteção facial para pessoas imunossuprimidas, idosos, gestantes e puérperas – grupos que naturalmente têm mais probabilidade de agravamento. Já para a população geral, orientam adotar o item em ambientes fechados sem ventilação, aglomerações e transportes públicos.

Além das máscaras, e da importância de manter a vacinação em dia, outro ponto importante destacado é buscar a testagem em caso de sintomas respiratórios, e isolar-se quando o resultado for positivo.

— Os sinais têm sido muito dores de garganta e sintomas leves que lembram resfriados, então a testagem é muito importante — diz Salvador.

De acordo com o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, do Ministério da Saúde, o único grupo elegível a uma quinta dose, ou terceiro reforço, são os imunossuprimidos acima de 40 anos. Isso porque aqueles com quadros que afetam o sistema imunológico devem receber uma dose adicional do imunizante, e a pasta da Saúde orienta um esquema de quatro doses para toda população com mais de 40 anos.

No contexto de novos casos, porém, algumas cidades, como Rio de Janeiro e Niterói, liberaram a quinta aplicação para todos no período de 10 meses após a última dose, hoje contemplando um grupo restrito de pessoas que tiveram acesso à quarta dose em janeiro ou antes. Os especialistas, no entanto, afirmam que não há benefícios comprovados por evidências científicas em aplicar reforços além dos já orientados pelo ministério

— Sair fazendo mais reforços não é o adequado, isso não tem eficácia comprovada. O que vale é o recomendado pelo Ministério da Saúde. Quinta dose para todo mundo não tem evidência. Não tem evidência também que faça mal, mas o que precisamos agora não é isso, mas sim melhorar a cobertura atual — diz a vice-presidente da SBIm.

Os especialistas chamam atenção que apenas duas doses não protegem contra formas graves da doença, e o país tem uma baixa cobertura com a terceira dose, em cerca de 50%, aquém do desejado especialmente entre os mais jovens. Além disso, pedem que a vacinação de bebês a partir de seis meses seja ampliada a todos, hoje restrita a apenas àqueles com comorbidades pelo Ministério da Saúde.

Em nota, a pasta afirma que "a Câmara Técnica Assessora em Imunizações mantém as discussões referentes às alterações e ampliações do esquema vacinal para novos grupos, de acordo com as evidências científicas e o cenário epidemiológico, que são acompanhados diariamente".

Há duas opções em análise pela Anvisa, uma na qual a parte da Ômicron é composta pela subvariante BA.1 e outra que é de BA.4 e BA.5. Segundo a Pfizer, o novo reforço induziu uma produção de anticorpos quatro vezes maior contra a Ômicron em pessoas com 55 anos ou mais em comparação a uma dose da vacina original.

— O Ministério da Saúde está conversando com os fabricantes sobre essa vacina, porque é ela que a gente precisa agora e torce para que chegue ao país — diz a vice-presidente da SBIm.

Os especialistas afirmam que, embora elas não envolvam a sublinhagem da Ômicron BQ.1, a expectativa é de que ainda assim elas ofereçam uma melhor proteção contra a subvariante quando comparada às aplicações originais. Elas já são utilizadas em outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, indicadas como um reforço no período de quatro meses da última dose.

— Nós precisamos incorporar no Brasil a vacina bivalente, como já está em outros países. Elas são fundamentais, vão agregar eficácia e efetividade. Mas é importante lembrar que mesmo as vacinas originais já diminuem o risco de hospitalização e mortes. Então quem não está com o esquema atual atualizado não deve ficar esperando, mas sim buscar o posto de saúde — orienta Salvador, da USP.

Procurada, a Pfizer afirma que há um contrato vigente com o governo federal para entrega de doses que permite à pasta solicitar a troca por unidades das vacinas atualizadas. Em nota, o Ministério da Saúde confirmou que o atual acordo "contempla a entrega de vacinas com cepas atualizadas, desde que aprovadas pela Anvisa". Em relação à Pfizer, esclarece que há cerca de 30 milhões de doses a serem recebidas.