Covid-19 ultrapassa mortes por infarto, diabetes e pneumonia em 2020

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BRASÍLIA — Não há doença mais mortal na história recente brasileira que a Covid-19. Levantamento do GLOBO, com base em dados do DataSUS, mostra que o número supera os óbitos provocados por infarto, diabetes e pneumonia (por micro-organismo não especificado). Juntas, três das doenças mais mortais do país vitimaram 190.242 pessoas ao longo do ano passado. Segundo o consórcio da imprensa, do qual o GLOBO faz parte, 194,9 mil brasileiros morreram no ano passado em decorrência da Covid.

A Covid-19 não está registrada entre as 1.375 causas de mortes que constam do DataSUS, vinculado ao Ministério da Saúde. A doença aparece no sistema do governo entre os casos de mortes causadas por "vírus não especificados". No total foram 210.369 mortes classificadas nessa categoria. A diferença entre os números do DataSUS e do consórcio da imprensa pode ser atribuída a outros vírus.

A enfermeira e epidemiologista Ethel Maciel pondera que é mais difícil controlar uma doença crônica, já que envolve múltiplos fatores e causas, do que uma infecciosa, a qual se pode mitigar ao reduzir a transmissão:

— A Covid-19 é a doença infecciosa mais mortal da pandemia, ocupou o lugar que era da tuberculose. É um impacto grande quando a gente considera que a doença infecciosa mata mais que a doença crônica que mais mata — afirma a professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que conclui: — Quando você tem uma doença infecciosa que causa mais mortes que as crônicas, já é muito grave.

Com 1.552.740 mortes em 2020 — o equivalente à população de Goiânia —, o Brasil registrou 202.939 óbitos a mais que no ano anterior. Desse total, a Covid-19 representou 12,5% dos óbitos ao longo de dez meses de doença no país. A elevada taxa se deve ao descontrole da pandemia num cenário em que não havia vacinas, e a adesão a medidas não farmacológicas (uso de máscaras, distanciamento social e ventilação de ambientes) estava aquém do necessário.

Depois da Covid-19, vieram infarto (5,7%), diabetes (3,5%) e pneumonia (2,9%) no ano passado. Enquanto as três doenças representaram as maiores causas de mortes em 2019, a categoria de doenças virais ocupou a 617ª posição, com 60 óbitos.

A projeção, contudo, é que o coronavírus assuma um protagonismo ainda maior até o fim de 2021:

— Neste ano, deve chegar praticamente a um terço do total de mortes. Com 400 mil mortes (a mais no total em 2021), vai ficar em um terço do total de mortes. A Covid-19 terá sido responsável, no final deste ano, por quase 50% no número de mortes — prevê o médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Claudio Maierovitch.

Estatísticas da Covid são subnotificadas

A Covid-19 também matou 6,72 vezes mais que disparos por arma de fogo e outros armamentos — com 28.977 óbitos—, segundo estatísticas do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) dentro do DataSUS. Há, ainda, um agravante: a pasta notificou a primeira morte em 12 de março, um dia após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar que a doença passou de epidemia para pandemia. Enquanto isso, há registros das demais causas em todos os meses do ano.

Especialistas avaliam que, apesar dos números alarmantes, as estatísticas que envolvem a pandemia são subnotificadas, sobretudo no Brasil, que não tem programa de testagem em massa.

— Já se sabe que boa parte das pessoas volta a ser internada nos 60 dias seguintes por várias causas: cardíacas, neurológicas e a própria Covid... E uma parte delas morre também. Então, existe um número que não é conhecido de pessoas que podem ter morrido por outras causas, mas que tem relação com adoecimento prévio por Covid — pondera Maierovitch.

Além disso, há as mortes por dano colateral da Covid-19 — pessoas que não receberam atendimento para outras enfermidades devido à sobrecarga hospitalar, por exemplo —, esses números também podem incluir sequelas da doença:

— Parte desses óbitos que ocorreram dessas outras causas também decorreram do contexto que a gente chama de sindemia (neologismo que une sinergia e pandemia). São as outras consequências que a pandemia nos traz — afirma Jonas Brant, coordenador de Atenção e Vigilância em Saúde (CoAVS) e professor de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB).

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Saúde não se manifestou até a conclusão desta reportagem.

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