Covid já matou mais de 72 mil pacientes fora de leito de UTI

Cíntia Cruz
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RIO - RIO - Um levantamento da Fiocruz mostra que, do início da pandemia até janeiro, mais de 72 mil pessoas morreram de Covid-19 sem dar entrada em um leito de UTI. Os dados são do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe).

O estudo considerou pacientes que chegaram a ser internados em hospitais, mas que morreram antes da transferência para uma unidade de terapia intensiva.

De acordo com a pesquisa, encomendada pela Folha de S.Paulo, a qual O GLOBO também teve acesso, a equipe do programa Monitora Covid-19 identificou 72.264 óbitos que ocorreram sem a necessária assistência hospitalar.

O pesquisador Diego Xavier, autor do levantamento, acredita que o Brasil vive atualmente o momento mais crítico da pandemia e que, dentro de um mês, o cenário será ainda mais grave.

— O pior cenário possível se confirmou. Os casos foram capilarizados no país pelas eleições, férias e festas de fim de ano - explica. - Nas férias, houve um agravante, com pessoas transitando de avião para várias regiões. Isso fez com que as variantes se espalhassem mais rapidamente. Hoje todo o sistema de saúde está em colapso, sem alternativa de remanejamento de pacientes. Como os dados de fevereiro ainda não estão consolidados, só teremos uma noção do tamanho da tragédia daqui a um mês.

Os dados mostram também que 22.712 pacientes internados morreram pela doença, mas não há informação se estavam ou não em leitos de UTI. Com isso, o número de óbitos fora da terapia intensiva pode ultrapassar os 90 mil.

— Acredito que, nesta análise, estamos subestimando os impactos. Se considerarmos os que morreram em casa e nem chegaram a uma unidade de saúde, o número é pior — avalia Xavier.

Estados das regiões Norte e Nordeste estão entre os que têm maior percentual de óbitos de pacientes que aguardavam um leito de UTI. Em primeiro lugar, segundo o levantamento, está Roraima, com 63,8%. Em seguida, Sergipe com 51,7%, seguido por Amazonas, com 49,2%.

Xavier avalia que a saída, além do aumento do número de leitos, é conter o aumento de casos da doença. Para isso, entre as medidas necessárias, estão a intensificação da fiscalização de medidas de isolamento social:

— Não adianta só ampliar leitos porque não há recursos humanos para supri-los, O responsável por este atendimento é um especialista que demora anos para se formar - ressalta. - O leito sem pessoal especializado é uma cama. E cama a gente tem em casa. Se os governantes deixarem crescer o número de casos, não será possível atender os casos que se agravam, e ainda corremos o risco de gerar novas variantes, que surgem onde a doença está descontrolada.

O pesquisador da Fiocruz avalia que a população se cumprirá as medidas de distanciamento social se for fiscalizar e eventualmente punida:

- Já passou do momento de contar com o bom senso das pessoas. O poder público precisa intensificar a fiscalização.