Covid 'derrubou' 22 aviões da Chape em um só dia. Isso te choca?

Matheus Pichonelli
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Kelvia Andrea Goncalves, 16, is supported by her aunt Vanderleia dos Reis Brasao, 37, as she reacts during the burial of her mother Andrea dos Reis Brasao, 39, who passed away due to the coronavirus disease (COVID-19) at Delphina Aziz hospital, at the Parque Taruma cemetery in Manaus, Brazil, January 17, 2021. REUTERS/Bruno Kelly     TPX IMAGES OF THE DAY
Familiares choram por vítima da Covid-19 no cemitério Parque Taruma, em Manaus. Foto: Bruno Kelly/Reuters

Exato um ano depois de registrar o primeiro caso de contaminação por coronavírus em solo nacional, o Brasil atingiu o recorde de óbitos nas últimas 24 horas desde o início da pandemia. Na quinta-feira 25, 1.582 pessoas morreram em decorrência da Covid-19, levando o número total a 251.661.

O novo patamar mostra que não só não estamos perto do fim “dessa questão” da pandemia, como anunciou Jair Bolsonaro em dezembro, como o pior ainda está por vir —a depender do atual ritmo da vacinação e das medidas de controle sanitário.

No mesmo dia, em que parte da maior torcida do país saiu às ruas para celebrar o bicampeonato brasileiro do Flamengo, como se houvesse amanhã, o presidente decidiu mostrar em uma live todo seu preparo e consciência do desafio histórico ao fazer uma propaganda contra o uso de máscaras —a partir de um estudo de “uma universidade alemã”. Sem especificar qual estudo e qual universidade, o presidente declarou aos seus seguidores que as máscaras são prejudiciais a crianças e causam “irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa em ir para a escola ou creche, desânimo, comprometimento da capacidade de aprendizado, vertigem, fadiga”.

Parecia o mesmo dublê de médico que, meses atrás, garantia a um seguidor que a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, em parceria com uma fabricante chinesa, causava morte, invalidez e anomalia.

Na contramão do presidente, e diante de novas cepas do cornavírus, mais letais e mais contagiosas, especialistas já apontam a necessidade do uso de duas máscaras, e não só uma, para minimizar os riscos de infecção. O presidente prefere tratar a indicação dos entendidos como questão de “opinião”. Uma bela cortina de fumaça, convenhamos, diante das outras prioridades: salvar os filhos de encrencas judiciais, trocar o ministro da Secom ou observar o Congresso avançar na PEC da Impunidade.

Em uma entrevista recente ao jornal O Globo, o escritor britânico JJ Bola, autor do best-seller “Seja Homem”, classifica a recusa em usar um equipamento de segurança básico, como a máscara, como “um bom resumo da masculinidade tóxica”. “Muito mais homens acreditam em teorias da conspiração sobre o coronavírus do que mulheres. Os protestos antilockdown são liderados por homens. Não é à toa que os países com mais mortos por Covid-19 são ou eram governados por pretensos machões, como Bolsonaro, Boris Johnson (na Inglaterra) e Donald Trump (EUA)”.

Mesmo sendo especialista no assunto, o autor teve dificuldade em acreditar que o Brasil é governado por alguém que, além de não usar máscara, chama a doença de “gripezinha”, os brasileiros que temem sair de casa de “maricas” e quue se identifica com o personagem animado fortão e estúpido Johnny Bravo —conforme relatou o repórter Ruan de Souza Gabriel.

Enquanto brinca de médico e deixa a gestão da pandemia na mão de um general que aparentemente entende tanto de logística quanto de saúde pública (vide onde foram parar as vacinas requisitadas pelo Amazonas), Bolsonaro e equipe seguem com ouvidos moucos ao que têm a dizer os entendidos das universidades que declarou inimigas logo em seus primeiros atos.

Um deles é médico e neurocientista reconhecido aqui e lá fora. “Tem saída, mas tem que mudar tudo”, analisa Miguel Nicolelis, em outra entrevista para O Globo.

Para ele, o Brasil é o maior laboratório a céu aberto para ver o que acontece com o vírus correndo solto e um “lockdown imediato, nacional, de 21 dias, com barreiras sanitárias nas estradas, aeroportos fechados” é uma das medidas mais urgentes a serem adotadas para conter o morticínio. “Não dá para ficar discutindo, assina o contrato e vai em frente, deixa para depois, estamos falando da vida de 1.500 pessoas por dia, são 5 boeings caindo. Vacinação, vacinação, vacinação, testagem e isolamento social. Não tem jeitinho numa guerra. Estamos diante de um prejuízo épico, incalculável, bíblico.”

Neste front, Bolsonaro preferiu declarar guerra às máscaras. Os números falam por si. Ou deveriam falar. Para quem perdeu a dimensão humana dessa tragédia, basta pensar que em um único dia, o pior da pandemia até aqui, registrado um ano após o primeiro caso confirmado de contaminação, o número de mortos equivale a 22 acidentes aéreos como o da Chapecoense. Minimizar tudo isso é o maior efeito multiplicador que a pandemia poderia provocar.