Covid zero na China torna celular um meio de sobrevivência — e paranoia

Caetano Veloso já disse mais de uma vez que não usa e nunca teve celular. Além de espanto, deve ter causado inveja em muita gente que está farta da hiperconectividade. Taí um luxo quase impossível na China, onde o celular virou um meio de sobrevivência. O cantor até poderia se virar no país com dinheiro vivo, como ainda faz uma minoria, embora hoje a economia chinesa praticamente só funcione com pagamentos eletrônicos. Mas ele ficaria impossibilitado de viajar, frequentar lugares públicos como restaurantes e até sair de casa, já que o aplicativo de saúde no celular é exigido em qualquer movimentação da porta para fora — e também na volta. Na política chinesa de Covid zero, "caetanear" é impraticável.

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Mesmo antes da pandemia a China já vinha se tornando um país em que a importância do celular tornou-se central no cotidiano. A explosão do e-commerce e de outras plataformas eletrônicas ajudou a dinamizar a economia, criou empregos e novos serviços e facilitou a comunicação. Com o surgimento da Covid-19, contudo, o celular deixou de ser uma opção para tornar-se item obrigatório, passaporte para circular sem restrições. É no celular que estão as informações exigidas em cada escala do cotidiano, do mercado à academia de ginástica, do táxi ao embarque num avião ou no trem. Rastreamento, testes e histórico de vacinação, tudo está no celular e sem ele fica difícil dar um passo hoje em dia no país.

Um telefone sem bateria é uma possibilidade paralisante. Não é à toa que a maioria dos chineses nunca sai de casa sem um carregador. Para os menos prevenidos há estações de carregadores espalhados pelas cidades, como postos de abastecimento para celulares. Sem o celular não dá para fazer quase nada, às vezes nem voltar para casa — já que para entrar nos condomínios geralmente também é preciso apresentar o essencial código verde.

O uso do aplicativo é uma espécie de salvo-conduto, contanto que ele esteja verde para indicar que o portador esteve fora de áreas de risco. É aí é que mora o perigo. Se o usuário tiver passado por algum lugar onde foi registrado um único caso positivo, ele está condenado à quarentena. Por isso tem gente que tenta entrar nos lugares sem escanear o código e escapar do monitoramento, mas a vigilância aumentou e essa malandragem tornou-se quase impossível.

Nos últimos tempos, com o aparecimento de novos surtos, além do sinal verde também é exigida a exibição de testes positivos em várias cidades, incluindo as maiores do país, Pequim e Xangai. Os testes em Pequim são gratuitos à população e os resultados entram no aplicativo de saúde em média após 24 horas, mas é preciso renová-lo em seguida.

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Na prática, o medo de ser confinado é maior do que o do vírus, o que fez muita gente desistir das viagens na alta temporada do verão, quando elas costumam bombar. O turismo doméstico no primeiro semestre teve queda de 22% em relação ao ano passado, um dos indicadores da queda no consumo que levaram a economia ao menor crescimento no segundo trimestre desde o início da pandemia, 0,4%. O gerente de um hotel de luxo conta que a maioria de seus clientes tem sido de moradores da própria cidade, que decidiram apelar para o "staycation" (turismo em casa).

Nunca se sabe quando pode aparecer um caso numa província distante que impeça ou atrase a volta para casa. Muitas empresas desencorajam viagens. Um dos problemas dos aplicativos é que eles não são unificados nacionalmente. Quem retorna a Pequim, mesmo se esteve numa região de baixo risco e manteve os testes em dia, fica fora do sistema e pode ser barrado de entrar em locais públicos por uns dias, até voltar a dar negativo após fazer os testes locais. Pior, algumas comunidades começaram a exigir o uso de braceletes eletrônicos para quem volta de cidades onde foi registrado algum caso.

O sistema de rastreamento eletrônico é um dos trunfos do governo para conter a propagação do vírus, mas também é um meio de controle social sujeito a abusos. Os excessos na quarentena em Xangai mostraram isso, com exageros das autoridades para cumprir ordens superiores. O risco de manipulação ficou mais evidente na atual crise bancária da província central de Henan, onde contas foram congeladas de forma fraudulenta, clientes tiveram seus aplicativos de saúde adulterados e ficaram no vermelho para barrar protestos. O truque não funcionou: centenas de agricultores lesados saíram às ruas, num dos maiores protestos registrados no país nos últimos anos.

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