CPF cancelado e Pazuello sem máscara: cenas de um macabro reality show

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Eduardo Pazuello foi flagrado sem máscara em um shopping em Manaus (Foto: Reprodução)
Eduardo Pazuello foi flagrado sem máscara em um shopping em Manaus (Foto: Reprodução)

Digam o que quiserem. O maior reality show da TV brasileira hoje chama-se governo Bolsonaro.

Diferentemente do concorrente da Rede Globo, os participantes da gincana não estão ali para ostentar suas máscaras. As descartáveis, de pano e a dos sentidos alegóricos.

No Big Brother Brasil, a pira é justamente acompanhar até onde vai a durabilidade da vestimenta facial. As máscaras caem conforme o tédio e os conflitos se estendem em dias labirínticos daquele estado de confinamento artificial. O jovem desconstruído se revela opressor, a dublê de artista descolada é só uma menina mimada, o sujeito amigo de todos, nos bastidores, é um tubarão disposto a tudo para vencer o jogo.

Na atração brasiliense as coisas se invertem. Só entra na casa de vidro quem ostentar melhor a fama de feio, sujo e malvado —sem prejuízo ao filme de Ettore Scola.

Entender como aquele elenco chegou até onde chegou é, de saída, a pergunta que intriga a audiência. A consagração do exato oposto do que os pais, em outros tempos, ensinavam para os filhos —estudem, sejam gentis, respeitem os mais velhos, ajudem-os a atravessar a rua, evite brincar com objetos cortantes ou com a carabina do seu avô, usem cinto de segurança, cuidem das plantas e dos animais, não passem vergonha em público falando sobre o que você não sabe, ouça as orientações médicas, dinheiro na vida não é tudo, etc — mobiliza a audiência, presa em primeiras, segundas e terceiras telas, pela raiva.

Quanto mais raiva, mais vidrada a plateia fica diante da atração, ora circense, ora puro terror. E por que ficamos vidrados em filmes de terror, desses que aumentam a frequência cardíaca, dilatam as pupilas e alteram nossa pressão arterial? Porque, segundo estudos do gênero, após sessões do tipo experimentamos, estranhamente, uma sensação de prazer e alívio. O cérebro se acalma com a liberação de dopamina e a noção de que o terror está apenas preso na tela como alegoria.

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Se no BBB usamos o processo de empatia para buscar um personagem favorito (que, distante da máscara inicialmente apresentada, se revela humano e mais interessante do que seu holograma anterior), no reality bolsonarista passar raiva é o ativo que nos prende como adictos. É a obsessão de quem vê o terror pela tela e espera a passagem dos créditos avisando que tudo ali é ficção.

O sequestro de recompensa é a ressaca de quem acorda no dia seguinte apenas para passar raiva e dar à atração o que ela quer desde o início: engajamento.

Ali ninguém pode dizer que foi enganado pelos personagens. Não há máscaras para cair. Nem há máscaras para vestir.

Só isso explica o roteiro dos três últimos capítulos da atração. As cenas foram rodadas no Amazonas, região que se tornou símbolo da degradação governamental nos campos sanitário e ambiental. Lá, o (agora) ex-chefe da Polícia Federal acaba de ser alvejado por dizer que o ministro do Meio Ambiente ficou do lado do crime após a maior apreensão de madeira ilegal do país. Sem máscaras, Ricardo Salles não precisou nem disfarçar o sorriso com as toras falsamente vistoriadas, segundo a acusação do delegado.

Também foi lá —onde uma nova variante cresceu, se desenvolveu e correu solta e uma multidão morreu à espera de um leito de UTI ou de um cilindro de oxigênio— que Jair Bolsonaro achou uma grande ideia fazer piada e posar com um cartaz escrito “CPF cancelado” ao lado de um dos símbolos da degradação intelectual da televisão. 

Sinônimo de morte, a expressão é usada por milícias para dizer que foram bem sucedidas no serviço de tirar a vida de um ser humano, inocente ou não. A leveza da entrevista camarada contrastava com o luto de uma localidade pós-colapso. As risadas e sorrisos eram a serventia de quem não se importa nem com os mortos nem com os vivos.

Também em visita à região, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, alvo principal da CPI da Pandemia e principal responsável pelo bate-cabeça que marcou a condução da crise sanitária, desfilou de cara limpa e sorridente num shopping de Manaus. Questionado, respondeu com deboche ao ser flagrado sem máscara por uma cliente: onde compra?

As cenas provocam dois tipos de reação básica. Nenhuma delas tem base na indiferença. Elas ou revoltam ou excitam os cínicos que cansaram de carregar sozinhos as máscaras necessárias para disfarçar a podridão em sua vida em sociedade.

O escândalo, seguido de pedido protocolar de desculpas ou xingamento (tanto faz), mobiliza a atenção e se mostra mais efetivo do que pendurar melancia no pescoço. Parte do público bate palma. A outra pergunta por que quem deveria dar o exemplo faz o que faz. Em vão.

O tilt na cabeça do cidadão ganha contornos de distopia quando se desconfia que, por serem militares, presidente e ex-subordinado não veriam problemas, em tese, em respeitarem regras e posarem como exemplo. Mas o problema ali não é a disciplina. É aceitar que, no campo sanitário, a maior autoridade são os cientistas, tão desprezados em sua missão de planejarem o futuro em uma ponte sistematicamente sabotada por quem quer enfrentar os desafios do presente com as ferramentas do passado. Só isso explica a obsessão quase sexual com instrumentos como AI-5, armas, intervenções militares e censura.

A postura mobiliza a audiência e eletriza uma base de apoio identificada com a possibilidade de caminhar sem culpa pela prancha da irresponsabilidade com os aplausos de quem chama isso de liberdade. "Se eles podem eu também posso", diz uma fração barulhenta dos espectadores.

Aos poucos, Bolsonaro e companhia criaram uma espécie de unidade federativa rebelde que requisita a sua independência do restante do país com uma bandeira própria e desvirtuada. Essa unidade é composta por um exército de homens de meia idade, pouco inteligentes e mal diagramados, e iludidos da própria virilidade —tudo isso exposto como figurino pela recusa ao uso de máscaras e outros signos que acusem a fraqueza ou o medo diante da morte.

Quem vai para o paredão ali é quem mostra existir algum tipo de humanidade submersa sob as camadas das famas de maus, perversos e impenetráveis ao chamado politicamente correto, termo genérico que engloba tudo o que reflete e acusa o que, torcido e retorcido, é puro suco de senso comum e a estupidez daquela turma.

Eles só desfilam triunfantes sobre quase 400 mil mortos em uma pandemia que até hoje não reconhecem a gravidade porque a morte, para eles, nunca foi problema. Sempre foi a solução.

É obrigação da CPI da Pandemia identificar os títeres dessa tragédia transformada em reality show. 

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