CPI da Covid: o que Mandetta disse em seu depoimento

Redação Notícias
·13 minuto de leitura
Primeiro ministro da Saúde na pandemia do coronavírus, Henrique Mandetta depõe na CPI da Covid no Senado (Reprodução/TV Senado)

A CPI da Covid no Senado teve seu primeiro grande depoimento nesta terça-feira (4) com o depoimento de Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde. Primeiro no cargo durante o período da pandemia do coronavírus, ele falou sobre seu período à frente da pasta.

O depoimento de Mandetta é considerado crucial para o desenvolvimento da Comissão, que investiga a atuação do Governo Federal para conter a crise causada pela pandemia. Também previsto para hoje, o depoimento de Nelson Teich, segundo ministro da Saúde na pandemia, foi adiado para quarta-feira (5) por conta do alongamento da presença de Mandetta nas respostas.

O depoimento estava previsto para começar 10h (Brasília), mas começou quase uma hora depois, pois senadores passaram a primeira hora discutindo métodos. Depois, com cada senador tendo 16 minutos para sabatinar o ex-ministro, o depoimento acabou se alongando muito mais do que as quatro horas inicialmente previstas no cronograma.

Veja os momentos que marcaram o depoimento de Mandetta à CPI:

  • Anúncio do adiamento do depoimento de Pazuello

  • Mandetta acusando guerra de narrativas

  • Mandetta negando indicação ao uso de cloroquina

  • Ex-ministro disse que presidente tinha ‘aconselhamento paralelo’

  • Mandetta também comentou compra de vacinas e tratamentos alternativos

  • Base aliada do Planalto aproveitou espaço para falar de tratamentos não comprovados

CPI começa com anúncio de ausência de Pazuello e resposta de senadora

A CPI começou com a notícia de que o ex-ministro Eduardo Pazuello não iria comparecer à sessão do dia seguinte por ter tido contato com pessoas infectadas — seu depoimento foi adiado para o dia 19. Por isso, o ex-ministro teria de entrar em quarentena.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) questionou a justificativa de Eduardo Pazuello. "Vai sem máscara pro shopping e não pode vir pra CPI", comentou, após o anúncio de que o ex-ministro não participaria.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) se posicionou contra motivo usado por Pazuello para pedir adiamento (Foto: Agência Brasil)
A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) se posicionou contra motivo usado por Pazuello para pedir adiamento (Foto: Agência Brasil)

Ela se referia ao episódio em que Pazuello foi visto em um shopping em Manaus, no Amazonas, sem máscara. Na ocasião, uma frequentadora do shopping chamou atenção do ex-ministro, que perguntou: "Onde compra isso?".

Mandetta iniciou depoimento à CPI falando de 'guerra de narrativas'

No começo de seu depoimento, Mandetta negou que tenha orientado pacientes com covid-19 a não procurarem hospitais. Ele foi questionado sobre o assunto pelo presidente da CPI da Covid no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL).

"Nós estávamos no mês de janeiro, no mês de fevereiro, não havia um caso registrado dentro do país. O que havia eram pessoas com sensação de pânico (...) e as pessoas procuravam hospitais com a intenção de fazer testes", explicou. "Nos só fizemos transmissão comunitária em 24 de março."

Senador Omaz Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid no Senado (Reprodução/TV Senado)
Senador Omaz Aziz (PSD-AM), presidente da CPI da Covid no Senado (Reprodução/TV Senado)

Luiz Henrique Mandetta deixou o cargo cerca de um mês depois do registro do primeiro caso de covid-19 no Brasil. Em 16 de abril, o então ministro anunciou que havia sido demitido do cargo.

Mandetta nega ter indicado uso de cloroquina e instruções a Bolsonaro

Na sequência, Mandetta seguiu seu depoimentou e afirmou que orientou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre a importância do isolamento social. A declaração foi feita durante depoimento na CPI da Covid no Senado.

Uso da cloroquina

Ao ser questionado sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19, Mandetta garantiu que essa não foi uma decisão do Ministério da Saúde.

"A única coisa em relação à cloroquina que o Ministério da Saúde fez, após consulta ao Conselho Federal de Medicina e aos conselheiros todos, era para o uso compassivo. O uso compassivo é uma utilização que se faz quando não há outro recurso terapêutico para pacientes graves, em ambiente hospitalar", disse à CPI da Covid.

"Mesmo porque, a cloroquina é uma droga que, sim, para uso indiscriminado, sem monitoramente, a margem de segurança dele é estreita. Não é um medicamento que 'se bem não faz, mal também não faz'. Ela é um medicamento que, como todo medicamento, ela tem uma série de reações adversas, uma série e orientações que tem que ser feitas. A automedicação com cloroquina e outros medicamentos poderia ser muito perigosa para as pessoas."

Presidente Bolsonaro fez propaganda da cloroquina em diversas oportunidades (Andressa Anholete/Getty Images)
Presidente Bolsonaro fez propaganda da cloroquina em diversas oportunidades (Andressa Anholete/Getty Images)

Sobre a orientação do uso de cloroquina por povos indígenas, Mandetta também negou que tenha feito esse tipo de orientação.

"Todas as recomendações as fiz com base na ciência, vida e proteção. As fiz em público, em todas as minhas manifestações de orientações nos boletins. As fiz nos conselhos de ministros, a fiz diretamente ao presidente, as fiz diretamente a todos os secretários estaduais, a todos os secretários municipais, a todos aqueles que tinham no seu escopo que se manifestar sobre o assunto", afirmou Mandetta.

"Sempre as fiz de acordo com o que é preconizado para doença infecciosa epidêmica, no quadro que estávamos enfrentando."

Segundo ex-ministro, Bolsonaro tinha 'aconselhamento paralelo' sobre covid

Ao falar sobre o presidente Jair Bolsonaro, afirmou que este tinha "aconselhamento paralelo" para a tomada de decisões na pandemia do coronavírus

"Participei de inúmeras reuniões nas quais o filho do presidente, que é vereador no Rio, estava presente tomando notas", disse Mandetta.

"A imunidade de rebanho, sem comprovação científica, é possivelmente uma das teorias defendidas pela assessoria paralela de Bolsonaro", afirmou.

Mandetta contou também que viu uma minuta de documento da Presidência da República para que a cloroquina tivesse na bula a indicação para covid-19. De acordo com Mandetta, o próprio diretor-geral da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discordou dessa medida. Em contrapartida, o ministro "Jorge Ramos" minimizou a questão, dizendo que era apenas uma sugestão.

Bolsonaro e Mandetta em coletiva de imprensa no começo da pandemia (AP Photo/Andre Borges)
Bolsonaro e Mandetta em coletiva de imprensa no começo da pandemia (AP Photo/Andre Borges)

Na época, o Planalto não tinha um ministro com esse nome, mas um chamado Jorge Oliveira, na Secretaria-Geral, e outro Luiz Eduardo Ramos, na Secretaria de Governo.

"Mas é uma sugestão de alguém. Alguém se deu ao trabalho de colocar aquilo em formato de decreto", disse Mandetta.

Compra de vacinas

O ex-ministro da Saúde afirmou na CPI que não há saída para crises pandêmicas além da vacina e somente a partir da fase dois de testes é que podia ser iniciada a compra dos imunizantes, o que ainda não havia em sua gestão.

Questionado sobre a compra de vacinas, o ex-ministro enfatizou que, enquanto estava no cargo, não houve oferta de imunizantes contra a covid-19.

Vacinação no Brasil segue em ritmo lento (DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)
Vacinação no Brasil segue em ritmo lento (DOUGLAS MAGNO/AFP via Getty Images)

"Naquele momento tínhamos uma lista de iniciativas. Nós torcíamos, nós sabíamos que, quando há vírus, a humanidade enfrenta com vacina, desde a varíola. Mas estavam ou na concepção de fórmula, ou testando em laboratório com ratos" disse o ex-ministro.

Se tivesse, ele declarou que "teria ido atrás delas como atrás de um prato de comida".

Isolamento social

Além disso, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou que orientou o presidente Jair Bolsonaro sobre a importância do isolamento social. A declaração foi feita durante depoimento na CPI da Covid no Senado.

"Todas as recomendações as fiz com base na ciência, vida e proteção. As fiz em público, em todas as minhas manifestações de orientações nos boletins. As fiz nos conselhos de ministros, a fiz diretamente ao presidente, as fiz diretamente a todos os secretários estaduais, a todos os secretários municipais, a todos aqueles que tinham no seu escopo que se manifestar sobre o assunto", afirmou Mandetta.

Atendimento hospitalar

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou também sobre a orientação a respeito do momento de se buscar o atendimento hospitalar. Mandetta afirmou que, enquanto não havia caso de transmissão comunitária no Brasil, a recomendação era não ir a hospital. “Tenho visto essa máxima ser repetida e percebo que é guerra de narrativa”.

Hospital de campanha no Ibirapuera, que foi construído no começo da pandemia (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Sipa USA via AP Images)
Hospital de campanha no Ibirapuera, que foi construído no começo da pandemia (Aloisio Mauricio/Fotoarena/Sipa USA via AP Images)

Em sua fala, Mandetta fez um balanço de sua gestão e destacou pioneirismo brasileiro em vacinas e a importância que o tema tinha para atuação no país na Organização Mundial da Saúde (OMS), antes da pandemia. Entre as ações citadas, estão lei negociada com o Congresso para permitir possível quarentena e negociação com autoridades chinesas para comprar insumos.

“Adotamos a ciência como elemento de decisão”, disse Mandetta.

“Havia teorias sobre isolamento vertical, que o vírus era mais fraco no calor, eu avisei Manaus, tínhamos que seguir a ciência”.

“Testar, rastrear, separar, monitorar, esse era nosso plano, que não consegui desenvolver por ter sido exonerado”, declarou o ex-ministro.

Aliados do Planalto usam CPI de palco para medicamentos sem eficácia comprovada

Senadores que integram a base do presidente Bolsonaro aproveitaram os microfones para defender o uso do "kit covid". O conjunto de medicamentos, cujo uso é incentivado pelo governo federal, é formado pelo ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina - todos comprovadamente ineficazes no tratamento da covid-19.

Entre eles, está o senador Luis Carlos Heinze (PP-RS). O parlamentar questionou Mandetta, sobre a resistência da pasta em usar os medicamentos em casos leves de covid-19.

Heinze leu uma lista com nomes de médicos que defendem o uso dos remédios ineficazes contra a covid. Sobre as pessoas que alertam para os perigos do uso do "kit covid", Heinze chamou de "assassinado de reputação da classe médica".

Senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) é da base aliada do governo Bolsonaro (Agência Senado)
Senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) é da base aliada do governo Bolsonaro (Agência Senado)

"Eu tive covid, minha esposa teve covid, nos salvamos. Eu tive dois assessores com covid, quatro assessores com covid, e duas esposas com covid, seis pessoas. A minha filha, a minha neta, o meu neto, e tudo com esse tratamento", insistiu o parlamentar gaúcho.

Além dele, o senador Jorginho Mello (PL-SC) também defendeu o uso do chamado "kit covid". Ele alega que no estado dele, Santa Catarina, na cidade de Chapecó, pacientes de um hospital receberam os medicamentos e conseguiram se recuperar da covid-19.

Eduardo Girão (Podemos-CE) foi outro senador que levantou a bandeira do chamado "tratamento precoce".

Por outro lado, senadores da oposição aproveitaram os momentos de fala para questionar o uso da hidroxicloroquina e outros medicamentos ineficazes. Mandetta chegou a dizer que o presidente Jair Bolsonaro queria alterar a bula da cloroquina para facilitar o uso do medicamento, mesmo sem comprovação científica.

Ineficácia comprovada

Um estudo publicado na revista científica Nature mostra que hidroxicloroquina não é apenas ineficaz, mas aumenta a mortalidade em pacientes com covid-19. A mesma pesquisa afirma que a cloroquina não tem eficácia no tratamento da doença.

Em março, a Organização Mundial da Saúde recomendou que a ivermectiva não seja usada no tratamento da covid-19, pois não é eficaz contra a doença.

CPI tem menção à chacina em SC

Durante a CPI da Covid no Senado Federal, o senador Jorginho Mello (PL-SC) lamentou a chacina na cidade de Saudades, em Santa Catarina.

"Hoje é um dia triste para nós de Santa Catarina pelo ocorrido lá no meu estado, na cidade de Saudades, onde um jovem adentrou a uma creche e tirou a vida de três crianças com 2 a 3 anos de idade, e de duas professoras. Quero lamentar isso, um fato muito triste para todos nós e temos que lamentar", disse o senador, antes de começar as perguntas ao ex-ministro da Saúde depoente, Luiz Henrique Mandetta.

Local onde aconteceu a chacina em Saudade (SC) (Reprodução)
Local onde aconteceu a chacina em Saudade (SC) (Reprodução)

O ex-ministro também lamentou o caso e falou na criação de um protocolo governamental para a "síndrome pós-covid". Segundo Mandetta, é preciso que o Ministério da Saúde se atente à sanidade mental da população, prejudicada pela pandemia de coronavírus.

Ministro reagiu à citação e postou vídeo respondendo

Após Mandetta ter afirmado que recebeu uma mensagem por engano nesta segunda-feira (3) do ministro das Comunicações, Fábio Faria, o auxiliar do presidente Jair Bolsonaro investiu nas redes sociais contra o ex-titular da Saúde.

"Eu não vi uma palavra do senhor quando no final do ano passado muitos estados, que tinham feito hospitais de campanha, desmontaram hospitais de campanha e o senhor não deu uma palavra em relação a isso, que poderia ter salvado muitas vidas também", disse Faria, em vídeo publicado no Twitter.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Ele também repetiu a pergunta que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) fez a Mandetta durante a CPI da Covid e que o ex-ministro disse ter recebido na véspera por mensagem de texto, posteriormente apagada, do próprio Faria.

"O senhor dizia que as pessoas não buscassem hospitais quando tivessem sintomas, para não superlotar os hospitais, que apenas quando tivessem falta de ar, problema de respiração, buscassem os hospitais. E muitas dessas pessoas que ouviram o ministro Mandetta naquele momento podem ter chegado aos hospitais, terem sido intubadas e muitos foram a óbito, ministro. Minha pergunta é clara: o senhor se arrepende de ter feita essa recomendação? O senhor reiteraria hoje essa mesma recomendação? O senhor se considera genocida por ter feito essa recomendação?", disse Faria.

Ministro das Comunicações, Fábio Faria foi citado na CPI e respondeu (Agência Brasil)
Ministro das Comunicações, Fábio Faria foi citado na CPI e respondeu (Agência Brasil)

Mandetta afirmou na CPI que as recomendações tanto da OMS (Organização Mundial da Saúde) quanto do ministério são buscar o "seu provedor de saúde imediatamente se você sentir os sinais de perigo", entre elas a dificuldade de respirar.

Participação de senadoras fica para o final da sessão

As senadoras presentes na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado foram deixadas para o final. Pelo Regimento Interno, a ordem de inscrição para questionamentos na comissão segue a seguinte ordem: membros titulares da CPI, membros suplentes e depois, demais senadores, por ordem de inscrição.

No início da sessão, Eliziane Gama (Cidadania-MA) pediu que as senadoras — que passaram a ter bancada feminina oficial — possam também inquirir pela ordem dos inscritos e não somente após os titulares e suplentes do colegiado.

O argumento é que CPI não tem nenhuma mulher entre seus membros e suplentes.

A presidente da bancada feminina, senadora Simone Tebet (MDB-MS) reforçou a decisão da bancada feminina de sempre ter pelo menos uma senadora presencialmente na CPI. 

“A bancada feminina se faz presente, sim, nesta comissão, mesmo sem direito a um assento. Não tenham medo da palavra e da fala de uma senadora. Estamos aqui porque nós queremos buscar a verdade”, disse, ressaltando que a bancada é formada por senadoras de diferentes partidos e linhas ideológicas. 

"Os fatos desta CPI, sabidamente determinados e infelizmente continuados, não são fatos de luz, mas de escuridão, pela perda de mais de 400 mil brasileiros motivada, em grande parte, pela omissão ou má gestão dos que deveriam cuidar da luz da vida", acrescentou.

Depoimento de Teich foi adiado após alongamento do depoimento de Mandetta

Depoimento do também ex-ministro Nelson Teich foi adiado para quarta-feira (5) (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Depoimento do também ex-ministro Nelson Teich foi adiado para quarta-feira (5) (EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Inicialmente marcado para as 14h desta terça-feira (4), o depoimento do ex-ministro da Saúde Nelson Teich, na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado, foi adiado para quarta-feira (5).