CPI da Covid: o que Teich disse em seu depoimento

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Ex-ministro da Saúde, Nelson Teich depõe na CPI da Covid no Senado nesta quarta-feira (5) (Foto: Reprodução/TV Senado)

Nelson Teich, segundo ministro da Saúde do governo Bolsonaro durante a pandemia, foi o segundo a falar na CPI da Covid no Senado, que avalia possíveis omissões do governo federal no combate à pandemia. Sua fala foi menor que a de seu antecessor, Henrique Mandetta, que falou na terça (4).

Em sessão mais tensa entre os senadores, que teve bate-boca acirrado, Teich comentou muito sobre cloroquina e indicação de medicamentos sem eficácia comprovada.

Veja os momentos que marcaram o depoimento de Teich à CPI:

  • Debate sobre cloroquina

  • Situação de povos indígenas

  • Falta de autonomia quando ministro

  • Críticas à indicação de cloroquina

Sessão começou com cloroquina na pauta

O ex-ministro abriu a sessão negando que soubesse que o Exército estava produzindo cloroquina no Brasil. Em depoimento à CPI da Covid no Senado, ele foi questionado sobre o assunto pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL).

"O ex-ministro Mandetta, aqui nessa comissão, garantiu que essa decisão não passou pelo ministério da Saúde na sua gestão. Em 23/04, vossa senhoria declarou que a recomendação pelo ministério da Saúde para qualquer medicamento para o tratamento da covid só ocorreria no dia que tivesse evidência científica clara sobre o efetivo funcionamento do medicamento. Pergunto, ministro, na sua gestão, o laboratório químico e farmacêutico do Exército, continuava a produção de cloroquina?", questionou Renan.

Teich negou ter conhecimento sobre o tema. "Vou ser honesto com o senhor, eu não participei disso. Se aconteceu alguma coisa, foi fora do meu conhecimento", respondeu. Ele ainda alegou que não sabia quem determinou a produção do medicamento, tampouco sobre o ritmo da produção.

A cloroquina é comprovadamente ineficaz contra a covid-19. Já a hidroxicloroquina aumenta a mortalidade de pacientes com a doença.

"Ali, eu tinha uma posição muito clara, não só em relação à cloroquina, mas em relação à qualquer medicamento. Quer dizer, é o que eu sempre falo, eu não sou a favor ou contra o medicamento", afirmou. Teich negou ter sido consultado por qualquer um dentro do governo sobre a produção e distribuição da cloroquina.

"Do que eu vivi naquele período, a gente nem falava em cloroquina. O que acontece: o dia a dia era extremamente intenso, era um momento muito difícil, faltavam respiradores, faltavam EPIs, mortes aumentando. Foi um assunto que não chegou a mim a produção de cloroquina", declarou.

Povos indígenas

Sobre a distribuição de cloroquina para povos indígenas, Teich disse que não houve qualquer orientação por parte dele.

"Se aconteceu a distribuição sem eu saber, ela pode ter acontecido, mas nunca sob a minha orientação. A minha orientação era contrária", afirmou. "Estou falando isso porque sempre é possível acontecer alguma coisa, é uma máquina muito grande. Mas não era do meu conhecimento e, se soubesse, não deixaria fazer."

Falta de autonomia afastou Teich do ministério

Questionado pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL), Teich disse que a cloroquina foi importante para a saída do Ministério da Saúde, mas não o único motivo. "O pedido específico foi pelo desejo de ampliação do uso de cloroquina, mas o que eu quero colocar é que esse era o problema pontual, mas isso refletia uma falta de autonomia e uma falta de liderança", declarou o ex-ministro.

Teich afirmou que sentia preparado para ajudar o país, além de considerar uma honra. Mas percebeu que não conseguiria conduzir o Ministério da Saúde da forma como achava correta.

Renan Calheiros ainda perguntou se o Jair Bolsonaro (sem partido) firmou um compromisso de deixar que a condução de Teich à frente da Saúde fosse técnica. "Senador, ele nunca falou nada, então, eu assumi que sim, que minha conduta ali deveria ser... Até por ser uma pessoa técnica, não seria razoável esperar que eu fosse conduzir de uma maneira não técnica", respondeu.

Segundo Teich, o presidente Jair Bolsonaro nunca palpitou na maneira como o Ministério deveria ser conduzido. O único ponto de divergência entre os dois foi em relação à cloroquina, segundo descreveu o ex-ministro.

Sobre a formação da equipe de trabalho, Teich afirma que teve autonomia para escolher quem integraria o Ministério da Saúde, com exceção de Eduardo Pazuello, seu sucessor. "O Pazuello entrou na secretaria executiva, mas as outras secretarias foram todas mantidas em nível técnico", pontou.

Bate-boca por conta de presença feminina vira briga

Senadores da base aliada ao presidente Jair Bolsonaro iniciaram um bate-boca na sessão por não aceitarem a participação da bancada feminina durante inquirição do depoente, o ex-ministro Nelson Teich.

O presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), suspendeu a sessão por alguns minutos por conta do entrevero.

Na sessão de terça-feira (4), Eliziane Gama (Cidadania-MA) pediu que as senadoras — que passaram a ter bancada feminina oficial — possam também inquirir pela ordem dos inscritos e não somente após os titulares e suplentes do colegiado.

Senadores governistas, como Ciro Nogueira (PP-PI), Marcos Rogério (DEM-RO) e Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), se manifestaram contra o questionamento da senadora Eliziane Gama na sessão de hoje.

Ela e Simone Tebet (MDB-MS), líder da bancada feminina, defenderam a possibilidade de falar, lembrando que isso foi decidido por votação da própria CPI. Houve bate-boca, como no momento em que Rogério sugeriu que a participação feminina seria usada para atacar Bolsonaro.

"Pode me olhar com cara feia que vossa excelência não vai me intimidar", disse Eliziane, que também já havia 'peitado' o senador Flávio Bolsonaro, na sessão de abertura da CPI.

Críticas à utilização da cloroquina

No retorno após a confusão, Teich afirmou que prescrever nebulização com cloroquina é "totalmente errado". Pressionado pelo presidente da comissão, senador Omar Azis (PSD-AM) a responder se a prática configuraria crime, Teich alegou não ter conhecimento jurídico para assegurar que seria um crime.

"É uma questão de competência, não é crime, não iria por esse caminho".

"Totalmente errado".

Teich também afirmou que o Conselho Federal de Medicina (CFM) teve "postura inadequada" por indicar cloroquina.

Senadores governistas aproveitam a CPI para defender medicamentos do kit covid, comprovadamente ineficazes no tratamento à covid-19.

O senador Otto Alencar, que é médico, criticou esses parlamentares bolsonaristas.

"Os caras não se formaram em medicina, não ficaram no banco, não fizeram residência, não estudaram nem química, nada disso. E receitam assim na maior".

Novos convocados pela CPI

Ao fim, a CPI aprovou ainda a convocação de ministros e ex-ministros do governo de Jair Bolsonaro.

Confira os requerimentos de convocação aprovados hoje:

  • Ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo

  • Ex-secretário de Comunicação da Presidência da República Fabio Wajngarten

  • Presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Nísia Trindade

  • Marta Dias e Carlos Murilos, representantes da farmacêutica Pfizer

  • Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan

  • Presidente da União Química Farmacêutica

Na terça-feira (11), serão ouvidos Wajngarten e os representantes da Pfizer. Na quarta-feira (12), a CPI recebe os presidentes do Instituto Butantan e da Fiocruz.

Em entrevista à revista "Veja", o ex-secretário de Comunicação Fabio Wajngarten creditou o atraso do governo na aquisição de vacinas à "incompetência" e "ineficiência" do Ministério da Saúde, à época comandado pelo general Eduardo Pazuello.