CPI da Covid ouve hoje empresário conhecido como o ‘ministro político’ da Saúde

·4 minuto de leitura
  • Soligo terá de explicar à CPI quais eram suas ações durante sua atuação no Ministério da Saúde

  • Tido como braço direito de Pazuello, suspeita é de empresário queria se projetar politicamente pensando nas eleições de 2022

  • Ex-assessor teria começado a atuar no ministério antes mesmo de sua nomeação, publicada em junho de 2020

A CPI da Covid ouve nesta quinta-feira o ex-assessor do Ministério da Saúde , o empresário Airton Soligo, para esclarecer a atuação - forma e informal - dele na pasta. Conhecido como Airton Cascavel, ele era considerado o “ministro político” na gestão de Eduardo Pazuello, responsável pela articulação com deputados, senadores, governadores e prefeitos. Pessoas próximas dizem que Cascavel queria usar o posto no governo Bolsonaro e se projetar politicamente para 2022.

O ex-assessor teria começado a atuar no ministério antes mesmo de sua nomeação, publicada em junho de 2020. Mesmo sem cargo oficial, Cascavel negociava em nome do ministério com estados e municípios.

Leia também

Segundo interlocutores de Cascavel, ele aceitou o convite de Pazuello com o objetivo de retomar a carreira política. Ele já foi prefeito em Mucajaí, em Roraima, deputado estadual, vice-prefeito de Boa Vista e deputado federal. Nas eleições de 2018, disputa uma vaga na Câmara pelo PRB, mas não se elegeu.

Quando o ministro foi exonerado em março deste ano, Cascavel também saiu da pasta. Porém, logo foi nomeado secretário de Saúde de Roraima pelo governador Antonio Denarium, aliado do presidente Jair Bolsonaro. No dia 20 de julho, com o avanço da CPI da Covid—19, que o colocou na mira das investigações, Cascavel deixou a função da administração estadual. 

Cascavel foi convocado pela CPI após o Ministério Público Federal (MPF) determinar que Polícia Federal (PF) abrisse um inquérito com prazo de 90 dias para investigá-lo. O empresário pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o direito de não comparecer à CPI. Este pedido foi negado pelo ministro Gilmar Mendes. O magistrado, porém, determinou que a CPI assegure ao ex-assessor o direito ao silêncio, isto é, de não responder a perguntas que possam incriminá-lo — sendo proibido, no entanto, "faltar com a verdade relativamente a todos os demais questionamentos".

Articulador

Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images
Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images

Com bom trânsito entre políticos no norte do país, o empresário se aproximou de Pazuello, quando o general atuou na Operação Acolhida em Roraima. No Ministério da Saúde, tinha as portas de seu gabinete aberta a parlamentares, tarefa que Pazuello dizia não ter paciência para assumir. O ex-assessor também era requisitado por governadores e prefeitos que buscavam a pasta para despachar demandas durante a pandemia. 

A Cascavel, por exemplo, é atribuída a organização do encontro de Pazuello com governadores em outubro do ano passado, no qual o ministro prometeu comprar a vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo de São Paulo. No dia seguinte, Pazuello foi desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro, que disse publicamente que não “compraria a vacina chinesa de João Doria” - ele acabou voltando atrás e adquirindo os imunizantes.

Em janeiro deste ano, no auge da crise da falta de oxigênio em Manaus, Cascavel emprestou o próprio apartamento na capital amazonense para uma reunião da equipe do ministério com representantes do Executivo local. Cascavel e Pazuello ^continuam mantendo uma relação de amizade. 

A proximidade com Pazuello também causava ciúmes com o grupo militar no Ministério da Saúde. Embora o número 2 da pasta, coronel Elcio Franco, já conhecesse Cascavel desde Roraima, onde também foi secretário de Saúde, a relação entre eles era fria.

Investigação

Segundo o procurador da República Wellington Divino Marques de Oliveira, Cascavel pode ter cometido o crime de "usurpação de função pública", com pena de até cinco anos. A investigação tem por base uma representação feita pela presidente do PT, a deputada Gleisi Hoffmann, a partir de uma notícia de junho de 2020 publicada pelo jornal "Folha de S.Paulo". Em 8 de julho de 2021, o procurador Wellington de Oliveira, que atua na Procuradoria da República no Distrito Federal (PR/DF), solicitou um inquérito policial à Polícia Federal (PF).

"Airton Soligo teria se apresentado como responsável pela intermediação das demandas encaminhadas pelas secretarias municipais e municipais da saúde doravante o período da crise sanitária do COVID-19. Registrou-se que o noticiado esteve listado em encontro realizado entre o Ministro da Saúde e o Deputado Federal Eduardo Bolsonaro. Ademais, foram anexadas à notícia, prints contendo referências a Airton Cascavel como "o número 02 do ministério da saúde" bem como outra contendo fotos e confirmando a participação de Airton junto a ações praticadas pelo Ministério da Saúde", diz trecho de despacho assinado pelo procurador.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos