CPI da Covid: Tratamento precoce é discussão "delirante e esdrúxula", diz infectologista Luana Araújo

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Doctor Luana Araujo walks before a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil June 2, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Luana Araújo depõe à CPI da Covid nesta quarta-feira (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
  • Luana Araújo afirmou que o chamado "tratamento precoce" é delirante e esdrúxulo

  • Segundo a média, esse tema não foi discutido com o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga

  • A infectologista defendeu a autonomia média, mas não para fazer experimentos nos pacientes

Em depoimento à CPI da Covid no Senado, a médica infectologista Luana Araújo fez duras críticas ao chamado "tratamento precoce", defendido por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A suposta terapia preconiza o uso de medicamentos ineficazes para tratar a covid-19

Luana Araújo disse que a discussão é "delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente". "Todos nós somos a favor de uma terapia precoce que exista. Quando ela não existe, ela não pode se tornar uma política de saúde pública", afirmou a médica.

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Ao ser questionada pelo relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), se conversou com o ministro Marcelo Queiroga sobre o tratamento precoce, Luana classificou a decisão como "delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente". 

"Quando eu disse que, um ano atrás, nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu, infelizmente, ainda mantenho isso em diversos aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de qual borda da terra plana a gente vai pular", declarou.

A medica defendeu a autonomia média, mas alegou que essa não é uma justificativa para fazer "experimentos" nos pacientes. 

Luana não foi informada sobre motivo de não ser nomeada

"Não foi me dada nenhuma justificativa para minha saída", disse a médica. "O que me foi dito é que existe um período entre a criação da secretaria e um processo chamado 'apostilamento de cargos', que deveria ser feito para que minha nomeação fosse publicada em Diário Oficial."

Mesmo sem estar nomeada, Luana Araújo declarou aos senadores que já trabalhava com o Marcelo Queiroga.

"Minha nomeação estava programa para uma segunda-feira, não saiu. Ficou para uma terça-feira, não saiu. Quando chegou na quarta-feira, eu já tinha entendido o que tinha acontecido, já tinha entendido que aquilo não ia funcionar. E eu trabalhei normalmente na quarta-feira, até que na quarta-feira à noite eu fui chamada e fui comunicada de que, infelizmente, com pesar, minha nomeação não sairia", afirmou.

Ela relatou que foi informada pelo próprio ministro Marcelo Queiroga de que não seria nomeada. "Ele me disse que meu nome não passaria pela Casa Civil", relatou. "Ele disse que lamentava, mas que minha nomeação não sairia, que meu nome não teria sido aprovado."

Sobre a CPI da Covid no Senado

O que deve ser investigado pela CPI

  • Ações de enfrentamento à Pandemia, incluindo vacinas e outras medidas como a distribuição de meios para proteção individual, estratégia de comunicação oficial e o aplicativo TrateCOV;

  • Assistência farmacêutica, com a produção e distribuição de medicamentos sem comprovação

  • Estruturas de combate à crise;

  • Colapso no sistema de saúde no Amazonas;

  • Ações de prevenção e atenção da saúde indígena;

  • Emprego de recursos federais, que inclui critérios de repasses de recursos federais para estados e municípios, mas também ações econômicas como auxílio emergencial.

Quem é o relator da CPI, Renan Calheiros

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que vai apurar eventuais omissões do governo federal no combate à pandemia terá como relator o senador Renan Calheiros (MDB-AL). O colegiado será presidido por Omar Aziz (PSD-AM) e o vice-presidente será o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Crítico ao governo Jair Bolsonaro, Renan Calheiros será responsável por dar o rumo aos trabalhos e produzir o texto final, que pode ser encaminhado ao Ministério Público e a outros órgãos de controle.

É um dos nomes mais antigos no Senado brasileiro. Ele está há 26 anos na Casa e tem mandato até janeiro de 2027. Foi três vezes presidente do Senado, além de ministro da Justiça no governo FHC. É pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB).

Crítico ao governo de Jair Bolsonaro, nesta semana, Renan Calheiros defendeu que o MDB apoie o ex-presidente Lula na eleição presidencial de 2022.

Como vai funcionar a CPI no Senado

O que diz a Constituição?

A Constituição estabelece que são necessários três requisitos para que uma CPI possa funcionar: assinaturas de apoio de um terço dos parlamentares da Casa legislativa (no caso do Senado são necessários 27 apoios); um fato determinado a ser investigado; e um tempo limitado de funcionamento.

Quanto tempo pode durar uma CPI?

Depende do prazo que o autor do requerimento estipular. No caso da CPI da Covid, o prazo inicial é de 90 dias, conforme requerimento do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) de 15 de janeiro.

Quais os poderes de uma CPI?

Poderes de investigação próprios dos juízes, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas. No Senado, os membros da CPI podem realizar diligências, convocar ministros de Estado, tomar o depoimento de qualquer autoridade, inquirir testemunhas, sob compromisso, ouvir indiciados, requisitar de órgão público informações ou documentos de qualquer natureza e ainda requerer ao Tribunal de Contas da União a realização de inspeções.