CPI da Pandemia: orientados pelo Planalto, governistas querem ouvir médicos que defendem tratamento precoce

Jussara Soares e Julia Lindner
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Para tentar respaldar ações do presidente Jair Bolsonaro na pandemia, governistas apresentaram uma série de requerimentos à CPI da Covid, logo após a instalação do colegiado, nesta terça-feira, para ouvir especialistas que defendem o uso do tratamento precoce e medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus. Os nomes fazem parte de uma lista para as convocações elaborada pelo Palácio do Planalto.

Em outra frente de atuação, diversas solicitações visam localizar processos que indiquem possíveis desvios de recursos federais na pandemia. O intuito é colocar estados e municípios na mira da CPI da Covid para desviar o foco. Os requerimentos ainda dependem da aprovação da maioria da comissão - os governistas estão em minoria, com quatro dos 11 membros titulares.

Aliado do Planalto, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) apresentou o requerimento para ouvir a imunologista Nise Yamaguchi, que chegou a ser cotada para assumir o Ministério da Saúde no ano passado por fazer a defesa do uso da cloroquina contra a Covid-19, um dos principais focos da Comissão Parlamentar de Inquérito. Na quinta-feira passada, às vésperas da instalação da CPI, ela esteve no Palácio do Planalto para uma reunião.

Nogueira também quer ouvir o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, a quem Bolsonaro visitou no início de abril justamente para reforçar o discurso sobre o uso do tratamento precoce.

A ideia, segundo O GLOBO apurou, é demonstrar que o presidente Bolsonaro fazia a defesa do tratamento precoce com base em especialistas e pesquisadores sobre o tema.

Outro senador ligado ao governo, o suplente Luis Carlos Heinze (PP-RS) apresentou um requerimento para ouvir especialistas sobre "evidências cientificas que comprovam a eficácia do tratamento precoce contra a Covid-19", que é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro. Na lista, estão os infectologistas Ricardo Dimas Zimmerman e Francisco Eduardo Cardoso Alves, Médico; além do endocrinologista Flávio Cadegiani.

Cadegiani desenvolveu a metodologia usada pelo Ministério da Saúde no aplicativo TrateCov, lançado pelo governo e que recomendava o uso de remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina. A CPI deverá solicitar todos os registros de ações e documentos do governo federal relacionados a medicamento sem eficácia comprovada, tratamentos precoces, inclusive indicados em aplicativos como TrateCov, plataforma desenvolvida pelo Ministério da Saúde.

O governo ainda sugeriu aos aliados a convocação dos médicos Alessandro Loiola e o imunologista Roberto Zeballos. Autor do livro “Covid-19: a fraudemia”, Loiola é conhecido por espalhar informações falsas sobre a vacina e até mesmo o uso de máscaras, contrariando as recomendações das principais autoridades de Saúde do mundo.

De acordo com envolvidos na operação de contra-ataque do Planalto à ofensiva da CPI, o governo ainda orientará parlamentares a convocar diretores da White Martins, empresa fornecedora de oxigênio, e servidores das secretarias de Saúde de Manaus e do estado do Amazonas para confrontar as versões. Já existem requerimentos relacionados do senador Eduardo Girão (Podemos-CE) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

Em depoimento prestado ao Ministério Público Federal em fevereiro, o gerente da empresa Christiano Cruz, relatou que a White Martins só conseguiu se reunir com integrantes do Ministério da Saúde para relatar pessoalmente o grave problema na disponibilidade de oxigênio no Amazonas às vésperas do colapso.

Seguindo a estratégia do Planalto, o senador Marcos Rogério (DEM-RO) apresentou requerimento para pedir informações sobre o volume de recursos repassados pela União aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios das Capitais de Estado para aplicação no enfrentamento à pandemia da Covid-19, bem como sobre as prestações de contas referentes à execução orçamentária desses recursos.

Marcos Rogério também apresentou uma solicitação para que todos os governadores e os prefeitos das capitais enviem informações sobre a aplicação dos recursos enviados, com as notas de empenho, ordens bancárias, notas fiscais, extratos bancários e processos administrativos de despesa.

Sobre o mesmo assunto, Ciro Nogueira possui requerimentos semelhantes, com pedido de cópia integral de todos os processos de investigações, em qualquer fase, relativos à aplicação dos recursos federais destinados aos estados e municípios de até 200 mil habitantes para o combate à Covid-19. Ele solicita informações semelhantes aos Tribunais de Contas Municipais e da União, às Procuradorias Gerais de Justiça e ao Ministério Público Federal e às Diretorias Gerias de Polícia Civil e à Diretoria Geral da Polícia Federal.

Desde a semana passada, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Onyx Lorenzoni, tem orientado senadores governistas na atuação na comissão. Deputado federal eleito cinco vezes e com experiência em CPIs, Lorenzoni foi escalado por Bolsonaro para coordenar politicamente a reação do governo diante da investigação. A Casa Civil também criou um comitê de crise para reunir informações que possam respaldar o governo no colegiado.