Deixar CPI do MEC para depois das eleições é um erro e um desrespeito com eleitores

President of Brazil's Senate Rodrigo Pacheco walks before a meeting with governors at the Federal Senate in Brasilia, Brazil June 8, 2022. REUTERS/Adriano Machado
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Foto: Adriano Machado/Reuters

Foi durante a CPI da Covid que um país inteiro descobriu que o governo federal tinha um plano para fazer as pessoas saírem às ruas sem medo de contaminação. O plano, idealizado por um aconselhamento paralelo e que contava com a colaboração de empresas como a Prevent Senior, era substituir o medo do vírus por “esperança”. Essa esperança se chamava hidroxicloroquina e fez com que muitos saíssem de casa convictos de que a provável infecção não seria uma sentença de morte. Havia, afinal, uma "salvação".

A declaração foi dada em setembro do ano passado pela advogada Bruna Morato, defensora de 12 profissionais da operadora de saúde que se tornou um dos muitos alvos das apurações.

Também durante a CPI os brasileiros souberam que não havia “bala de prata” em defesa de medicamentos ineficazes e testemunharam a completa inaptidão de pessoas que assumiram o comando do Ministério da Saúde ao longo da crise sanitária. Souberam também das estranhas negociatas e transações envolvendo compra de vacinas promovidas por quem não possuía credencial para tal.

Quem tinha alguma dúvida sobre a péssima gestão do governo Bolsonaro na pandemia pode reforçar a impressão a cada depoimento para a comissão no Senado.

Em seu relatório, a CPI detalhou o "evidente descaso" do governo graças ao “deliberado atraso” na aquisição de vacinas, a disseminação de notícias falsas, o desestímulo ao uso de máscaras e ao distanciamento social, a existência de um gabinete médico paralelo, o desprezo pelas populações indígenas ameaçadas e a intenção de imunizar a população por meio da contaminação natural. A aposta na imunidade de rebanho resultou em boa parte das quase 672 mil mortes pelo coronavírus.

Os depoimentos diante das câmeras foram fundamentais para que os crimes ganhassem clarividência. Ninguém, mesmo com todas orientações, conseguia esconder a parvalhice, intencional ou não, durante horas de questionamentos.

A CPI do MEC, protocolada no Senado para investigar um suposto esquema de troca de favores à entrada do Ministério da Educação, deveria servir para o mesmo fim: deixar os espectadores, às vésperas das eleições, conhecerem de perto os personagens das apurações e formarem sua opinião. Os depoimentos serviriam como importante ferramenta para definição dos votos.

Alguns pontos sobre o escândalo ainda precisam ser esclarecidos. Um deles é se o presidente da República teve acesso privilegiado e indevido ao inquérito da Polícia Federal contra seus aliados.

Um dos delegados jogou a toalha após a prisão do ex-ministro Milton Ribeiro. Ele alegou não ter autonomia para seguir com as apurações. Seria ótimo se pudesse dar detalhes a respeito diante do público.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), fez o que pode para tirar a CPI da Covid de sua vista. Os trabalhos só foram iniciados por ordem do Supremo Tribunal Federal.

Dessa vez Pacheco indicou uma solução que a muitos parece salomônica. Não evitará a leitura dos requerimentos que na prática autorizam a abertura da CPI –aliás, de duas comissões, já que governistas tenta puxar o fio para o outro lado e colocar supostos desvios de gestões anteriores no mesmo ministério.

A saída, porém, é deixar os trabalhos para depois das eleições.

O argumento é que o calendário eleitoral poderia contaminar os trabalhos dos colegiados. Ademais, seus integrantes já estariam demasiadamente ocupados com suas campanhas.

Balela.

Na prática, Pacheco está apenas tirando do eleitor um direito fundamental: o de acompanhar de perto e de modo aprofundado a dinâmica de eventuais desvios no MEC, nesse e em outros governos, antes de botar suas impressões na balança da decisão do voto.

Os supostos crimes a serem apurados não são menos graves do que os escancarados pela CPI da Covid.

O combo de má fé, inaptidão e esperteza que assaltou o Ministério da Saúde no momento mais grave da história recente causou mortes e prejuízos instantâneos e aos olhos de todos.

O mesmo combo que se aboletou do MEC produz estragos semelhantes. Mas eles só podem ser observados a longo prazo. É preciso identificar agora as podas do futuro para que haja tempo de corrigir a rota. Nem que seja pelo voto.

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