'CPI do Sertanejo' já fez estragos e mudou relação entre artistas e prefeituras

SAO PAULO, BRAZIL - Aug 24: Gusttavo Lima performs live on stage at Espaco das Americas on August 24, 2018 in Sao Paulo, Brazil.(Photo by Mauricio Santana/Getty Images)
O cantor Gusttavo Lima. Foto: Mauricio Santana (via Getty Images)

O cantor sertanejo Zé Neto, da dupla com Cristiano, mal sabia a encrenca que estava produzindo no mês passado ao transformar em comício o palco onde se apresentava em uma cidade do Mato Grosso.

Na ocasião, ele se mostrou indignado com uma tatuagem íntima da cantora Anitta e aproveitou para criticar a suposta gula de artistas dependentes da Lei Rouanet para sobreviver. Anitta nunca precisou do mecanismo, que aliás é legítimo, mas a confusão entre a calça e as partes íntimas estava armada.

A dupla tinha acabado de receber um cachê bem gordo da prefeitura que a contratara.

Esse “detalhe” saiu do campo da especulação sobre a inteligência e o cinismo alheios e virou caso de polícia.

Os trincos nos telhados de vidro expuseram uma multidão de sertanejos que também recebem recursos volumosos de prefeituras para se apresentar em pequenas cidades do país.

A prática é comum e não engloba só sertanejos, mas o auê fez um país inteiro parar para pensar se era justo que as gestões municipais gastassem tanto dinheiro em entretenimento em vez de priorizar as suas carências na educação e na saúde. Em alguns casos, como o do cantor Gusttavo Lima, o cachê superava R$ 1 milhão.

Na onda da comoção, o Ministério Público de diversas praças lançou as lupas sobre o fenômeno.

Vieram dali algumas descobertas muito interessantes. Por exemplo, parte dos cachê de artistas famosos era paga com dinheiro das chamadas emendas pix.

Isso significa que recursos do orçamento da União são enviados às localidades por meio de emendas parlamentares como um cheque em branco.

As apurações neste momento estão naquela peneira em que é preciso separar o que é imoral e o que é ilegal.

Só no Mato Grosso os promotores descobriram que as prefeituras já gastaram pelo menos 16,6 milhões de reais em 2022 com contratação de shows.

O número foi levantado pela Folha de S.Paulo e representa mais do que o triplo do que o estado inteiro captou com a tão surrada Rouanet.

Seria imprudente dizer que tanto dinheiro está bancando mordomias e também alinhamento político –embora seja curioso o número de artistas bolsonaristas dispostos a criticar nos outros aquilo que eles também praticam.

Mas se a discussão do momento servir para levar, além de música, mais transparência e cuidado com o dinheiro público para os rincões do país, os tiro no próprio pé de Zé Neto já valeram o ricochete.

Em alguns lugares, a Justiça já determinou um limite de cachês pagos com verba pública para estado e município. Foi o que aconteceu em Alagoas após pedido do Ministério Público. Na cidade de Viçosa (AL) um show do cantor Wesley Safadão precisou ser cancelado. Seu cachê era de R$ 600 mil –e ultrapassada e muito o teto determinado pela Justiça, de R$ 50 mil para eventos estaduais e R$ 20 mil, para municipais.

É provável que a “CPI dos Sertanejos”, como informalmente ficou conhecida a devassa, gere protestos por parte de artistas, gestores e até do público, que pelo valor certamente terá de se acostumar com apresentações do coral da escola, e não mais dos ídolos sertanejos.

E pensar que tudo começou com uma crítica de Zé Neto a uma tatuagem íntima.

Como a própria Anitta comentou, em tom de ironia, em suas redes, nunca uma simples tatuagem fez tanto pelo país como agora.

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