CPI escancara despreparo da ala ideológica que colou em Bolsonaro

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Former Brazil's Foreign Minister Ernesto Araujo gestures during a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 18, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araujo durante depoimento à CPI. Foto: Adriano Machado/Reuters

Um dos dilemas da contemporaneidade é decifrar quem é o personagem real e quem é o fantasiado em tempos de comunicação em rede.

Todo mundo conhece algum personagem aparentemente pacato que se transforma num ogro devorador de cabeças quando encontra sua turma no Twitter, Facebook e outras ágora do pensamento atual.

Aparentemente Ernesto Araújo é um desses personagens.

Cordato, calmo, gaguejante e até atrapalhado entre fatos e memórias durante seu depoimento à CPI da Pandemia, no Senado, o ex-ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro nem de longe se assemelhava com o articulista ferino que gastou sua passagem pelo Planalto atacando o que vinha pela frente, a começar por um certo globalismo, um balaio ideológico alimentado por discípulos de Olavo de Carvalho onde cabiam todo tipo de organismo multilateral, da ONU à OMS —órgãos, segundo eles, corroídos pela perigosíssima ideologia esquerdista.

Um dos alvos dos constantes ataques de Araújo, pensava-se até ontem, era a China. Ele já bateu boca com o embaixador da Terra do Meio no país, já escreveu artigos declarando guerra ao “comunavírus” e não se constrangeu em sair em defesa dos filhos do chefe quando eles atribuíam à potência asiática a culpa pela atual pandemia.

Tudo não passou de um grade engano, segundo o diplomata.

Diante dos senadores, ele jurou que jamais quis criar qualquer conflito com um dos maiores parceiros comerciais do país.

A postura lisa contrasta com a arrogância que marcou o seu posicionamento à frente do Itamaraty. 

E, confrontado, escancarou o despreparo dos escolhidos a dedo por Jair Bolsonaro para compor a equipe com a qual prometeu levar o país a um novo dia de um novo tempo que começou —algo já evidente desde o depoimento do ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten.

Por mais que negue, é preciso lembrar que a rispidez de Araújo queimou pontes com possíveis aliados quando o país mais precisou de insumos e componentes para vacinas. O alinhamento automático e subalterno ao então presidente dos EUA, Donald Trump, pouco ou nada ajudou os brasileiros na questão que mais importava fora das redes: sobreviver à pandemia.

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A estratégia durante o depoimento Araújo, peça fundamental para obter parcerias estratégicas no combate à covid, foi lançar as responsabilidades pelas decisões do governo, descaradamente equivocadas, ao Ministério da Saúde. Ministro da pasta no pior momento da crise, Eduardo Pazuello fala à comissão no dia seguinte.

Como se já estivesse em um tribunal, o ex-chanceler se limitou a dizer que apenas cumpria ordens quando arregaçou as mangas para buscar, em uma grande comitiva, um remédio milagroso em Israel ou acionou a estrutura de sua pasta para buscar a cloroquina, medicamento descartado por todos os países que levaram a sério a pandemia.

Sobre os desentendimentos com a China, só faltou dizer que não tem nada contra os chineses. E que tem até amigos em Pequim.

Não se sabe qual das suas versões fala a verdade. Se a que mostrou cordialidade na CPI ou a que ajudou a disseminar o ódio ao lado do presidente —inclusive quando bateu palmas e por pouco não engasgou em uma churrascaria ao ouvir Jair Bolsonaro mandar a imprensa para a “puta que pariu” por questioná-lo sobre compras federais para aquisição de cerveja e leite condensado.

Sem brilho, como sua passagem pelo governo, a participação do ex-chanceler na CPI teve como destaque apenas a sapatada oferecida pela senadora Katia Abreu (PP-TO). A pisa virou meme e já entrou nos anais da história política recente.

“O senhor não colocou o Brasil como pária, e sim na posição de irrelevância”, disse ela, lembrando do momento em que Joe Biden, novo presidente dos EUA, se levantou para não ouvir as palavras vazias proferidas por Jair Bolsonaro em seu discurso na Cúpula do Clima.

“O senhor ajudou a atacar (os chineses), humilhando. É um negacionista, compulsivo, omisso”, atacou uma das principais porta-vozes do agronegócio no Congresso.

As críticas da senadora selam o divórcio do setor que ela representa com o bolsonarismo —ao menos o núcleo ideológico que o presidente e seus filhos levaram para dentro do Planalto. Não sem provocar estragos, enquanto buscavam aplausos de sua turma no Twitter.

“Você estava para defender os brasileiros e não a sua posição ideológica. O senhor atacava fortemente a China. Vocês não eram parceiros do governo americano, e sim do Trump. O senhor não entendeu que não somos amigos de presidente, e sim das nações”, discursou a senadora, pivô da queda de Araújo do ministério.

A falta de resposta contundente confirma a dupla personalidade apontada pela parlamentar em sua fala. Falta saber qual versão de Araújo e companhia é real. A que demonstra falta de memória na CPI ou a que faz a festa da torcida ideológica nas redes sociais.

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