Mistério da obsessão pela cloroquina desafia CPI

·3 minuto de leitura
Brazil's President Jair Bolsonaro holds a box of chloroquine outside of the Alvorada Palace, amid the coronavirus disease (COVID-19) outbreak in Brasilia, Brazil, July 23, 2020.REUTERS/Adriano Machado     TPX IMAGES OF THE DAY
O presidente Jair Bolsonaro mostra caixa de cloroquina para emas do Palácio do Alvorada em julho de 2020. Foto: Adriano Machado/Reuters

Ok, já entendemos.

Nas duas primeiras videoaulas da CPI da Pandemia, já ficou suficientemente claro que:

1- Jair Bolsonaro sabia desde março que coronavírus não era gripezinha;

2 - era fortemente recomendado que adotasse medidas de isolamento, testagem em massa e campanhas pelo uso de máscara até que as primeiras vacinas estivessem na praça;

3 - não havia retroviral nem medicamento contra o vírus;

Ainda assim, ele não topou nada que parecesse, mesmo de longe, um lockdown. Preferiu apostar na imunização de rebanho.

Desde o começo o presidente repetiu o mantra de uma dicotomia sem sentido entre vidas salvas e economia viva e botou a cloroquina e a hidroxicloroquina como uma cenoura na ponta do nosso nariz que nos faria sair de casa para trabalhar e consumir como se houvesse amanhã.

Tudo isso ficou escancarado nos depoimentos de Luiz Henrique Mandetta e de Nelson Teich, dois dos quatro ministros da Saúde que passaram pelo governo em menos de um ano. Mandetta, antes de ser demitido, escreveu uma carta para o presidente alertando que ele estava cavando um buraco imenso que, ao fim do ano, enterraria 180 mil brasileiros. Só errou na previsão. Morreram 191 mil.

O segundo saiu sem sequer esquentar a cadeira de ministro. A curta temporada foi suficiente para visualizar uma sequência de embates com Bolsonaro e suas ideias fixas. Ele discordava, por exemplo, da aposta na cloroquina como caminho para a salvação.

Quem sabe ligar os pontos não pode se dizer surpreso.

Mistério, se há, é por que Bolsonaro criou tal obsessão por um medicamento que lá atrás já havia sido rejeitado pela Organização Mundial da Saúde.

Leia também:

Por que, em suas aparições em lives ou encontros com apoiadores, a cloroquina se tornou o seu emplastro Brás Cubas? Por que a cloroquina e não o gargarejo com sal e vinagre — que também não tem comprovação científica mas, como gosta de repetir o presidente, “vai que”?

A pergunta leva a outras. Quem ganhou com a superprodução de um medicamento que, se funcionasse, obviamente teria orientado o tratamento mundo afora e encerrado a tempo uma pandemia que paralisou e ainda paralisa o planeta?

Bolsonaro gosta de dizer que a tragédia em curso, que já ceifou 415 mil vidas no país, só aconteceu porque foi impedido de fazer o que queria ou deveria por ordem do Supremo Tribunal Federal, que deu autonomia aos estados e o deixou com mãos amarradas. Mesmo com essa autonomia, pessoas seguiram morrendo, ele argumenta.

O discurso não leva em conta que a autonomia não eximia seu governo de fazer o básico. Como acompanhar estoques, apontar a cobertura de despesas no orçamento — falhas já detectadas pelo TCU e à disposição da CPI —, promover uma comunicação de crise e campanhas pelo uso de máscaras e estímulo à vacinação. Com raras ocasiões e poucas cidades, não houve lockdown de fato por aqui. Em vez disso, as mais simples medidas de consenso das autoridades sanitárias foram sistematicamente boicotadas pelo presidente que provocou aglomeração, atacou a vacina, fez propaganda de medicamento ineficaz e lutou como pode contra o uso de máscaras.

Acuado, Bolsonaro dobrou a aposta. Fala agora em decreto para proibir medidas de restrição de circulação, ameaçou o STF caso fosse contrariado e ainda enviou patada gratuita à China, de onde vêm os insumos e equipamentos para vacinação. Falar, a essa altura, de vírus criado em laboratório para promover uma guerra química e bacteriológica não é só delírio persecutório. É fechar as portas que nos restam para sair da lama. Isso terá um preço. Já tem.

Entender a estratégia a essa altura é tão eficaz quanto apostar no medicamento errado. Há outros mistérios na fila. O maior deles é saber por que Bolsonaro insistiu e ainda insiste tanto numa fórmula fadada ao fracasso.

Quem ganhou com isso?

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.
Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos