CPI quebra sigilo após motoboy admitir que frequentava ministério mas negar elo com ex-diretor

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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em depoimento à CPI da Covid no Senado nesta quarta-feira (1º), o motoboy da VTCLog e da Voetur Ivanildo Gonçalves da Silva confirmou que esteve nas dependências do Ministério da Saúde, mas afirmou que se tratava da sua atividade de entregar boletos de pagamentos.

Ele disse não conhecer ninguém no ministério, mas que determinada vez precisou entregar um pen-drive no andar em que atuava o ex-diretor de logística Roberto Ferreira Dias.

Foi aprovado requerimento para a quebra de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático de Ivanildo. Além disso, outro requerimento aprovado solicita a apreensão do celular dele pela Justiça.

O motoboy confirmou ainda que realizava saques milionários para a empresa, de até R$ 430 mil, mas disse não se lembrar de quem eram os beneficiários dos boletos que precisava pagar nas agências bancárias ou das pessoas ou empresas para quem realizava depósitos. Também negou que tenha entregado "em mãos" recursos da empresa para outras pessoas.

O motoboy foi incluído de última hora na pauta da CPI, um dia após não ter comparecido por estar amparado por um habeas corpus que lhe dá o direito de permanecer calado ou mesmo de não prestar depoimento.

Ivanildo compareceu espontaneamente e com a anuência da diretoria da VTCLog, empresa investigada pela comissão.

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou na abertura da sessão que a mesa diretora da comissão recebeu um telefonema da presidente da empresa, Andréia Lima, que se colocou à disposição para prestar depoimento e informou que o motoboy poderia comparecer.

A iniciativa gerou desconfiança entre os senadores de que o motoboy teria acertado com seus ex-chefes as informações que divulgaria. Ele entrou no radar da CPI após relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) enviado à comissão mostrar que Ivanildo realizou diversos saques para a VTCLog, em um total de R$ 4,7 milhões.

A CPI suspeita que os recursos seriam usados para pagar propina para agentes públicos.

Ivanildo disse que costumava frequentar o prédio do Ministério da Saúde, quando tinha a função de entregar boletos. Afirmou não conhecer ninguém no ministério, mas se recordou de determinava ocasião em que entregou um "pen-drive no quarto andar".

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apontou então que no quarto andar funciona o Departamento de Logística, comandado à época por Roberto Dias.

"Quando eu realizava o serviço de entregar faturas, eu andava constantemente no Ministério da Saúde. Eu não conhecia ninguém. Eu ia em salas entregar faturas, de setores em setores", afirmou Ivanildo.

Questionado especificamente sobre Dias, o motoboy respondeu que não o conhecia e que não lembrava de ter pagado boletos em seu nome.

Ele afirmou que chegou a sacar R$ 430 mil para a VTCLog na boca do caixa, de uma única vez.

"Olha, no início, uma vez eu saquei um valor de R$ 400 e poucos mil", disse, para em seguida precisar o valor. Mesmo em se tratando de altas quantias, disse que não havia uma preocupação especial com a segurança. Também disse não ter enfrentado nenhuma dificuldade nos bancos para sacar os valores mais altos.

A operações, acrescenta, aconteciam principalmente em uma agência da Caixa Econômica no aeroporto de Brasília, distante da empresa.

Ivanildo foi questionado se pagava fornecedores ou entregava recursos para alguém, mas negou que fosse sua atribuição.

"Assim, eu não cheguei a entregar dinheiro para ninguém. A única coisa que eu executava, o meu papel era de pagar boletos. Às vezes depositava, quando me pediam: 'Olha, deposita esse dinheiro'. Mas eu não cheguei ainda, assim, a entregar dinheiro para ninguém", afirmou. Ele citou como exemplo "boleto de combustível" e faturas de cartões de sócios da empresa.

Ivanildo também disse que não se lembrava de quem eram os boletos pagos ou os nomes para quem fazia depósitos.

O motoboy afirmou que o procedimento padrão era receber as tarefas da funcionária do financeiro da empresa, chamada Zenaide. Todas as instruções se davam pessoalmente. Ao retornar da agência, com sobras de dinheiro, entregava tudo para a mesma pessoa.

"Olha, o que eu pagava, eles [funcionários da empresa] me davam em mãos: eram boletos, era uma lista, vamos supor, para fazer depósito. Então, eu não tinha conhecimento de mais nada, a não ser isso aí", afirmou.

Ivanildo também afirmou aos senadores que atua para a VTCLog desde 2009 e que atualmente recebe um salário de R$ 1.700.

Durante a sessão, o advogado de Ivanildo foi repreendido diversas vezes por Aziz por, segundo ele, orientar o motoboy e retirar o microfone para que o depoente não respondesse espontaneamente.

"O senhor não toque mais no microfone. Deixa ele responder", disse o presidente da comissão.

Logo no início da sessão, o relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou se o depoente poderia ceder o telefone para consultas durante a sessão. Inicialmente, Ivanildo havia concordado. No entanto, mudou de opinião após manifestação do seu advogado.

Perto do fim do depoimento, os senadores pediram novamente acesso ao telefone do depoente. Como o motoboy recusou, a CPI aprovou uma série de requerimentos para obter mais informações relativas às operações financeiras.

Os senadores também aprovaram a convocação de Zenaide Sá Reis, funcionária da área financeira da VTCLog citada no depoimento.

A ligação entre a VTCLog e Dias foi reforçada recentemente pela CPI, que desconfia de pagamentos de propinas. Na sessão desta terça-feira (31), os senadores veicularam vídeos que mostram o motoboy em uma agência bancária no exato momento em que boletos em nome de Roberto Ferreira Dias eram pagos.

Dias acabou exonerado no mesmo dia em que o jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem com a denúncia do policial militar Luiz Paulo Dominghetti, que afirmou ter recebido do ex-diretor pedido de propina de US$ 1 por dose de vacina, para avançar a negociação de 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca.

A comissão tem em mãos documentos que mostra que a Voetur, subsidiária da VTCLog, emitiu nove boletos em nome de Dias, em um total de R$ 47 mil.

Os vídeos e imagens do sistema de segurança interno dos bancos mostram pelo menos quatro datas em que o motoboy esteve em agência bancária, quando sete desses nove boletos foram pagos.

Para os senadores, as transferências podem ser uma tentativa de camuflar supostas propinas pagas a Dias pela VTCLog, que tinha contratos com o ministério, por meio de sua subsidiária Voetur.

"Eu queria comunicar a esta Comissão Parlamentar de Inquérito e comunicar ao Brasil que nós acabamos de receber indícios veementes de que era o próprio Ivanildo, o motoboy [da VTCLog], que pagava os boletos de dívidas junto à Voetur do Roberto Ferreira Dias", afirmou Renan.

Em nota, a Voetur afirmou que nunca efetuou pagamentos ou transferências em nome de Dias.

A VTCLog ainda acrescentou que Dias é um cliente da Voetur, e não um credor do grupo, não tendo, assim, nada a receber. Porém a empresa admitiu que Dias está inadimplente com a agência de viagens, sem dar detalhes.

Ivanildo deveria ter comparecido para depoimento nesta terça-feira, mas obteve um habeas corpus do STF (Supremo Tribunal Federal) que lhe garantiu o direito de não prestar depoimento na comissão ou então permanecer em silêncio.

No mesmo dia, a cúpula da CPI informou que iria recorrer e aprovou novo requerimento de convocação.

Inicialmente, a sessão desta quarta seria destinada a ouvir o advogado Marcos Tolentino, amigo do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo Bolsonaro na Câmara.

Tolentino também é apontado como sócio oculto do FIB Bank, empresa que deu a garantia para a compra da vacina indiana Covaxin pelo Ministério da Saúde. O contrato acabou cancelado, após o surgimento de uma série de irregularidades.

Randolfe informou em suas redes sociais que Tolentino foi internado por causa de sequelas da Covid-19 e por isso não compareceria. Aziz desconfiou da justificativa e disse que vai pedir oficialmente ao Hospital Sírio-Libanês o quadro do paciente e se realmente há necessidade de internação.

O presidente da CPI afirmou ter tido informações de que Tolentino se encontrava bem até a noite anterior à data programada de seu depoimento. "Possível que seja tudo verdade, mas também é possível que a gente desconfie desse tipo de comportamento", disse. "Pode fugir hoje, mas amanhã estará aqui."

Os senadores ainda questionaram o fato de que Tolentino deu entrada no hospital às 15h do dia anterior com formigamento no corpo, mas estava dando entrevista, de maneira sorridente, cinco horas depois.

"Mesmo que essa CPI termine em 2022, mas nós temos que ouvir esses dois", afirmou Randolfe.

A outra pessoa a quem o senador se referia é o lobista Marconny de Faria, que também iria comparecer à comissão nos próximos dias e apresentou atestado médico para mostrar que está impossibilitado por 20 dias. Aziz pediu novamente ao hospital que investigue e explique os termos do atestado.

Os senadores citaram a necessidade de ouvir o lobista após reportagem da Folha de S.Paulo que mostrou que ele ajudou o filho "04" do presidente Jair Bolsonaro, Jair Renan, a abrir sua própria empresa.

Renan Calheiros também afirmou na sessão que vai acrescentar nove nomes à lista de investigados formais pela CPI, entre eles o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni.

Também constam na lista o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), apontado como um dos líderes do chamado gabinete paralelo de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro; o empresário Luciano Hang; e a diretora da Precisa Medicamentos Emanuela Medrades.

Senadores da CPI afirmaram que vão pedir que a Polícia Federal investigue a origem e também o destino de R$ 505 mil encontrados na bagagem do prefeito de Cerro Grande do Sul (RS), Gilmar João Alba (PSL). Os membros da comissão desconfiam que os recursos fossem usados para atividades antidemocráticas no feriado do 7 de Setembro.

"Esse prefeito, segundo as informações que tivemos, viria de São Paulo pra Brasília num avião fretado. Imaginando que não houvesse o controle da Polícia Federal pelo fato de o voo ser fretado, ele passou com esse montante de dinheiro. Foi detido, disse que portava R$ 1,5 milhão. A Polícia Federal constatou que eram na verdade R$ 505 mil, provavelmente outras pessoas que iriam pegar o avião estavam com o restante. E todos os indícios são de que esse recurso viria pra financiar esse ato contra a democracia do dia 7 de setembro", afirmou o senador Humberto Costa (PT-PE).

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