CPI tem a sessão mais constrangedora em depoimento de Wajngarten

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Former Brazil's Chief of the Secretariat of Social Communication (SECOM) Fabio Wajngarten speaks during a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil May 12, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten durante depoimento à CPI. Foto: Adriano Machado/Reuters

Ninguém da CPI da Pandemia lembraria da existência de Fabio Wajngarten não fosse a entrevista do ex-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência) à revista Veja em que ele atribuiu à incompetência do próprio governo o atraso na aquisição das vacinas ofertadas pela Pfizer.

Foi o que disse o próprio presidente da comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), ao mostrar irritação pelos constantes desvios e caras de paisagem de Wajngarten diante dos bombardeios.

A maioria deles foi lançada pelo relator Renan Calheiros (MDB-AL), que mais parecia delegado forçando uma confissão do interrogado. Ele pediu a prisão do depoente, mas a ideia foi barrada por Aziz. Wajngarten só não foi chamado de meliante.

Com perguntas ríspidas e interrupções constantes, como se referendasse a autoridade, o senador alagoano deu margem para apoiadores do governo acusarem os integrantes da CPI de só deixar o depoente falar quando a conversa interessa. Quando não, ele é cortado. O embate é normal em uma CPI, mas passou do ponto nos primeiros minutos.

Wajngarten, em todo caso, se mostrou atordoado. Nervoso, tentou atribuir à Veja uma suposta alteração do conteúdo da entrevista. A certa altura, disse que se referia à “burocracia” do Estado quando falou sobre a incompetência que até as rotativas da publicação entenderam como recado explícito a Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde.

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Entre ditos e desditos, Wajngarten negou que conhecia as campanhas sob a responsabilidade da sua pasta na pandemia. Diferentemente do que relatou à Veja, jurou que não negociou vacinas com o laboratório americano e negou até que soubesse o significado do termo “pixulé”. Era uma referência ao que afirmou Pazuello em sua despedida do ministério: que havia uma romaria de políticos e lobistas em seu gabinete em busca de dinheiro.

Wajngarten deixou o cargo na Secom e decidiu abrir o coração para a revista semanal. Um erro estratégico do qual fatalmente se arrependeu no primeiro confronto levantado na CPI.

Nem a comissão nem o depoente nem os espectadores sabem dizer até agora por que diabos coube ao secretário da comunicação o meio-campo, digamos assim, com a fabricante da vacina que já mostrava resultados promissores em meados do ano passado.

Wajngarten arriscou uma resposta: coube ao diretor-presidente da Rede TV, que por sua vez era chefe de uma apresentadora casada com um dirigente do laboratório, dar aquele toque amigo ao secretário avisando que o governo havia recebido uma proposta havia dois meses e não havia ainda dado resposta. Sim, dois meses.

Foi só então que Wajngarten entrou em campo, conforme relatou.

Entre o aviso camarada e a negociação de fato tem um campo aberto pelo qual o depoente evitou dizer até onde foi.

Sobre ele poderia pesar a suspeita de lobby. Poderia dar margem ainda para alguém pensar que era a ele que Pazuello se referia quando falava da peregrinação sincera e desinteressada de tanta gente ao seu gabinete em busca de recursos.

Wajngarten negou a existência do aconselhamento paralelo citado por Luiz Henrique Mandetta à comissão. Para muita gente, seu protagonismo na história da oferta das vacinas era, em si, a prova de que havia esse conselho de não-notáveis.

Num dos momentos mais constrangedores, disse ter ouvido de um jurista que a proposta da Pfizer não era interessante ao país. Mais tarde, disse ter ouvido o jurista só na véspera do depoimento, quando já havia deixado o cargo fazia meses.

Em outra frente de ataques, ele precisou se defender das suspeitas de ter transformado em campanha o negacionismo do chefe, Jair Bolsonaro. Talvez fosse um dia ruim, mas a memória de Wajngarten não o ajudou a se lembrar como se deu a concepção de campanhas do tipo “O Brasil não pode parar”.

Não parou e hoje supera 425 mil mortes.

Um dos calcanhares de Aquiles do governo na condução da pandemia foi justamente a ausência de campanha e uma coordenação unificada, em consonância com os entes federativos, tendo como base uma ideia básica de comunicação de crise. Wajngarten, como se subestimasse a inteligência de quem o ouvia, tentou emplacar a versão de que Jair Bolsonaro mal sabia o que ia para o ar.

Durante o depoimento, áudios e vídeos disponibilizados por jornalistas, agências de checagem e perfis do Twitter serviram como munição para senadores da oposição.

Wajngarten seguiu se fazendo de desentendido —e sob ameaça de ordem de prisão e quebra dos sigilos telemáticos.

Os senadores fariam melhor se tivessem já em mão as base e os caminhos da propaganda oficial do governo e os órgãos irrigados com dinheiro público para campanhas que flertaram com o negacionismo. Para se defender, o ex-secretário tirou da cartola uma campanha de conscientização de março de 2020 com Otávio Mesquita. Que não falava de distanciamento social e outras medidas para evitar o contágio.

Mas a cereja do bolo foi mesmo a participação especial de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que chamou Renan de "vagabundo" e ainda mandou se f... Ouviu de volta que xingamento, vindo de quem embolsava o salário de funcionários, era elogio. Coisa fina.

Wajngarten passaria mesmo longe das atenções da CPI não fosse a desastrada entrevista? Difícil dizer. Mas ele certamente é peça-chave para entender como seu ex-chefe conseguiu convencer uma parte considerável da população de que a pandemia não era grave, já estava no finzinho, que segunda onda era conversinha e que o importante era fazer a máquina da economia girar. Nem que fosse para passar em cima da pilha de mortos.

Num monumento ao despreparo, foi assim que interrogado e interrogadores protagonizaram a sessão mais constrangedora da CPI da Pandemia no Senado. Uma sessão que será lembrada como exemplo de que para tudo existe um limite. Menos a ignorância.

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