CPI virou mesmo um 'tribunal de exceção'?

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Doctor Nise Yamaguchi attends a meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) to investigate government actions and management during the coronavirus disease (COVID-19) pandemic, at the Federal Senate in Brasilia, Brazil June 1, 2021. REUTERS/Adriano Machado
A médica Nise Yamaguchi durante depoimento à CPI da Pandemia. Foto: Adriano Machado/Reuters

Não era preciso CPI ou bala de prata para concluir que Jair Bolsonaro desdenhou da pandemia desde o início porque achou que morreria pouca gente e, se alguém tivesse de morrer, era porque estava no adiantado da hora —ou porque tinha histórico de atleta de menos ou porque tinha comorbidade, deficiência ou idade demais.

Está tudo documentado. Na conversa vazada entre Osmar Terra e Onyx Lorenzoni, em abril de 2020, falava-se num morticínio entre 3 mil e 4 mil pessoas. Não era nem tapar o sol com a peneira, mas com bambolê.

Com esse tipo de aconselhamento, paralelo ou oficial, o presidente limou quem ousou mostrar um quadro mais realista no projetor e trouxe para perto quem ilustrou prognósticos com as cores alegres de um quadro do Romero Brito. A tinta-base era a cloroquina.

Quase meio milhão de mortos depois, deveria estar claro o suficiente para quem sabe ligar os pontos qual deveria ser o caminho tomado naquela bifurcação de março de 2020, quando as decisões tinham ainda visibilidade limitada e testes com vermífugos e remédios para a malária traziam algum fundamento.

Mas, a essa altura do campeonato, o mote ainda é um tabefe na mesa com gritos de “recuar, jamais”. Pelo contrário: é preciso insistir no erro para, diante dos fãs, manter a fama de “imbroxável” e “imorrível”. Tem quem bata palma.

Bolsonaro aposta na conversa de que só morreu tanta gente que morreu porque ele estava de mãos atadas. Ou porque sua solução mágica não foi seguida como deveria. O raciocínio é mais ou menos como dizer que morreu tudo isso de gente porque as vítimas não tomaram cloroquina; se tomaram e ainda assim morreram é porque não tomaram o suficiente ou tomaram na hora errada.

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Ninguém que tenha levado a situação a sério discute hoje, 15 meses após o anúncio da pandemia, a validade de um medicamento já descartado e não recomendado por autoridades sanitárias do mundo todo.

Mas aqui se discute porque virou argumento político.

Antes da segunda onda, quando a livre proliferação do coronavírus gerou novas variantes, e não a sonhada imunidade de rebanho, aquela que tornaria as vacinas um item que não pedia pressa nem urgência nem atenção, a propaganda política em torno da droga servia como notas de um flautista mágico para convencer um país inteiro sob confinamento a sair da toca. O Brasil não podia parar, lembra?

Havia método na conversa e endosso de parte de supostos entendidos no assunto que deram verniz científico ao que se mostrou um engodo. Uma delas era a doutora Nise Yamaguchi, que em junho de 2020 foi afastada do Hospital Israelita Albert Einstein depois de proferir a seguinte pérola: “você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela MASSA DE REBANHO de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações...”

Em nota a instituição lamentou a “analogia infeliz e infundada entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto”.

Na CPI, Yamaguchi teve a chance de mostrar que não fazia paralelos indevidos apenas com a história. Mostrou também que é possível saber de muita coisa e ainda assim desconhecer o funcionamento do sistema público de saúde. Isso a impediria de dizer em público que vacinação aleatória é bobagem. Havia um estudo de caso em Serrana perto dali, no interior de São Paulo, a dizer o contrário.

A seletividade da memória tem seus truques. Ela estimula ou neutraliza indignações conforme a coloração de quem a proclama.

Nas redes bolsonaristas muita gente ficou indignada com a forma com que a doutora foi tratada na CPI. Comentários racistas, sexistas, ageístas e tudo mais de istas que emporcalham o ambiente eletrônico são lamentáveis e merecem repúdio —detalhe, não só quando atingem quem dá as caras para defender nossas teses em público. Vale, ou deveria valer, também para mulheres que ouvem que só não são estupradas porque são feias, para senadores que têm a sexualidade exposta por adversário político em transmissão ao vivo, para profissionais ameaçados de agressão por discordarem de visões simplistas ou publicarem versões desagradáveis ao comando. Violência é violência e ponto.

Yamaguchi tem suas teses sobre história e também sobre os patógenos e seus enfrentamentos. Passou longe de ser voto vencido no aconselhamento paralelo do presidente, do qual sua participação desde ontem ficou mais evidente. Um dos pontos da CPI era elucidar este ponto, já trazido a público por Luiz Henrique Mandetta.

São as teses em confronto com a realidade que deveriam estar sob escrutínio porque foram elas que engrossaram os cemitérios nos últimos 15 meses com estacas mal fincadas na areia movediça do erro médico. Alguns foram expostos na sessão, como quando o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) mostrou a hesitação da depoente diante de um estudo já invalidado e ao qual ela ainda se fiava.

Mas nem sempre isso acontece na forma dialética: teste, antítese, síntese. Nem no Palácio nem na CPI. Despreparo com despreparo não é uma soma que preste. 

Um acusado de prolongar e alargar uma tragédia de mortes evitáveis não precisa ser tratado com massagem nos pés, mas desde a Lava Jato deveriam servir como lembrança os métodos que confundem apuração, inquisição, julgamento e pré-condenação. A associação com a força-tarefa já não é viagem desde que seus integrantes começaram a defender em público o recurso da delação premiada.

Convidados e convocados para a CPI têm muito a dizer. Na forma e no conteúdo, deveria ser sempre duvidosa a tática de constranger para obter a confissão forçada e bater se a resposta não confirmar a tese montada a priori, por mais evidente que seja. 

A aposta cria a brecha para que a CPI seja citada por apoiadores do governo, fãs de tribunais de exceção, como um….tribunal de exceção. Um tribunal liderado por Renan Calheiros (MDB-AL) e um amigo do governador do Amazonas, que acaba de se tornar alvo da Polícia Federal e promete botar pilha na contra-narrativa de quem estava na lona.

Enquanto puder, Bolsonaro e equipe vão usar como podem o mantra de que a CPI tem um “vagabundo” interrogando “gente decente”. Nessa guerra de narrativas o diabo não mora nos detalhes, mas onde o dedo aponta.

A CPI pode ainda ajudar e muito a explicar como o país se meteu neste atoleiro de ignorância, negacionismo e violência que se meteu. Não precisa usurpar os métodos dos adversários por cinco minutos de fama e lacração nas redes.

Do mais, que os acusados respondam por seus atos e omissões, mas tenham amplo direito de se defender sem serem interrompidos ou pré-julgados. Tenham na parede o diploma que tiverem.

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