Crítica: Abba navega em uma cápsula do tempo no seu primeiro álbum em 40 anos

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Se hoje a Suécia é um celeiro de produtores da música para as massas, como Max Martin (criador de hits desde a Britney Spears inicial ao mais recente álbum do Coldplay), a culpa é toda do Abba. Em 1974, quando foi vencedor do Eurovision com a música “Waterloo”, o grupo iniciou uma jornada única de dominação mundial que foi até o início dos anos 1980, com o álbum “The visitors” – ali, o fim dos casamentos de Agnetha Faltskog com Bjorn Ulvaeus e de Benny Andersson com Anni-Frid Lyngstad enfim levou o grupo ao colapso. Uma história tão triste quando a de suas canções.

Mas a história que quase ninguém esperava é que, 40 anos depois, o grupo fosse voltar com o anúncio de uma turnê (com músicos de verdade e avatares digitais dos quatro integrantes, a se iniciar em 27 de maio, no Queen Elizabeth Olympic Park, em Londres) e um disco todinho de inéditas. “Voyage”, que chega esta sexta-feira ao streaming, surpreende mais do que tudo porque parece um álbum que eles fariam como se absolutamente nada tivesse acontecido do “Visitors” para cá – é puro e inalterado Abba, no que ele tem de melhor e de pior.

Aliás, melhor e pior são conceitos que, aplicados ao grupo, pouco interessam ao seu público. Nos anos 1990, todo o excesso de sentimentalismo (que o Abba pegou do pop alemão conhecido como Schlager, e mais um tanto da música popular da América Latina), aquele que pesava nos ouvidos da geração anterior, acabou sendo ressignificado – seja em regravações do Erasure, em shows da irônica banda cover Björn Again, nos filmes “O casamento de Muriel” e “Priscilla, a Rainha do Deserto” ou, por fim, no musical de sucesso “Mamma Mia!”.

Depois deles, o Abba virou exemplo de genialidade pop, evidente em sua mui pessoal apropriação de estilos como a disco music, na engenhosidade com que construía suas canções (e os refrãos, especialmente) e nas suas encenações dos mais humanos dramas. Tudo isso está lá em “Voyage”, disco que abre com “I still have faith in you”, uma convincente releitura do manual de instruções de “Winner takes it all”, sem medo ou vergonha das sonoridades e procedimentos que o pop possa ter aposentado. Como o resto do disco, essa faixa é uma capsula do tempo dentro da qual Abba empreende a sua viagem aos dias de hoje.

A lembrança de um amor que se foi “para a cidade”, prometeu voltar no ano seguinte e há muito tempo não dá notícias é o mote para “When you dance with me”, faixa de sabor celta, com gaita de fole. É uma das promessas de hit de “Voyage”, que deve mesmo se concretizar mesmo é com “Don’t shut me down”, a canção – com refrão brilhante – sobre a mulher que reaparece para tentar reviver uma velha relação (“você vai me deixar plantada no corredor ou vai me deixar entrar? / o apartamento não mudou nada”). Ou então com “Just a notion”, rock achado entre sobras de estúdio do álbum “Voulez vous” – e os vocais usados são aqueles gravados em 1978.

A boa atemporalidade do Abba se faz sentir ainda na balada country “I can be that woman”, na qual novamente uma mulher tenta uma reaproximação com o seu amado, e se sente julgada pelo olhar do cachorro deste. A tensão tecladística do velho “Gimme gimme gimme”, por sua vez, alimenta o clima de “Keep na eye on Dan”, sobre o casal a mulher que deixa o filho com o pai após o divórcio – dores muito reais que o grupo traduz em música pop eficiente hoje ou há 50 anos.

“Voyage” não deixa de lado, porém, aquelas faixas para as quais o bom gosto torceria o nariz, como a natalina “Little things”, a ecológica “Bumblebee” e a religiosa “Ode to freedom”. O que é muito bom para lembrar o mundo que esse é um disco do Abba de fato e de direito, não alguma reinterpretação sanitizada ou debochada do legado – sempre questionado e aberto a novas interpretações – desse patrimônio do pop.

Cotação: Bom

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